Respeitável Público, Respeitáveis Artistas

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Metrópole abre as cortinas desta cena artística e apresenta os que fazem do picadeiro um cartão de visitas da nossa cultura. Jovens que até já fizeram desta arte a expressão de suas vidas, apresentando espetáculos, educando através da arte ou formando cidadãos. Ao respeitável público apresentamos Raquel Cruz, Alex Ferreira e Fabiano Souza, da Cia Sou Arte, e João Paulo Campos, Vanuza Eloiza, Greice Kelly, Danielle Ferreira e Cesar Rodrigues, da Escola Municipaç de Artes Circenses.

Raquel Cruz, a “Pipoca” da Cia Sou Arte, foi a única que experimentou nos anos 80, ainda criança, a vida sob lonas, andando com a mãe, que era camareira do Circo do Sacarrolha, pelos bairros de Curitiba. “Me lembro bem da época: do palhaço banguela que só comia polenta, o palco que era de madeira, as duplas caipiras que lotavam o circo e de um macaco que comeu o dedo de uma criança”, relembra.
Dizem que a vida é um eterno picadeiro. Aqueles que vivem no circo sabem exatamente o que é isso, arriscando, provando o bom e ruim de cada dia para a alegria das pessoas. Em Campo Mourão, há 12 anos a lona do circo abraça muitas pessoas e a arte circense e evoluiu muito com uma Trupe Municipal e uma Companhia Independente que percorrem o Estado e o País. Escolas que têm características diferentes, elas têm muito em comum para compartilhar com nossos leitores, a começar pela sua origem no Circo Itinerante da Fundação Cultural – Fundacam, em 2001.
Até entrar, em 2001, no Circo Cultural Itinerante, que depois originou a Trupe Fundacam, Raquel fez de tudo, de chefe de cozinha a voluntária na Escola Cidade Nova. Primeira instrutora da Escola Municipal de Arte Circense, em 2004, com a criação da Cia Sou Arte migrou para o novo espaço onde atua como arte educadora nos módulos de acrobacia, equilíbrio, manipulação, aéreo e faz trabalhos especiais como clow e pirofagia, sendo certificada pela Rede Mundo de Circo (que faz treinamentos com artistas do Cirque Du Soleil).

Vivemos disso, quanto mais trabalhamos, mais ganhamos. Na verdade tem que gostar muito, é puxado, cansativo, o corpo vive no limite.

Sempre trabalhando muito, Raquel chega a fazer três trabalhos por dia e raramente tem folgas nos finais de semana. “Vivemos disso, quanto mais trabalhamos, mais ganhamos. Na verdade tem que gostar muito, é puxado, cansativo, o corpo vive no limite. É preciso condicionamento físico, mas gosto da multidão e encaramos milhares de pessoas no palco”, reflete.
A artista fala com carinho da tarefa de educar pela arte e lembra ainda que muitos dos alunos, mesmo marginalizados ou excluídos se transformaram em pessoas de bem. “É algo muito gratificante. E poder entrar na vida de uma criança e mostrar o lado bom da vida não tem preço”, afirma.
Vanusa Eloiza começou no Circo Cultural Itinerante da Fundacam e atualmente é coordenadora da Escola Municipal de Artes Circenses. A artista diz que entrou no circo “velhinha”, com quase 18 anos. “Claro que no circo não tem idade, você só precisa conhecer seus limites. Comecei porque gostava de teatro. Lembro que era rústico e ao mesmo tempo mágico. Não sabia nada, mas quando subia no palco, com a maquiagem mal feita, o figurino improvisado e mesmo sem conseguir subir um metro no trapézio ou jogar mais do que três bolinhas, me sentia importante. Foi o momento do encanto, a partir dele a paixão começou”, fala.
Vanusa diz     que o circo a escolheu. “Confesso que não sei bem qual é a minha missão no circo, porque não me considero boa tecnicamente. Deve ter alguma coisa especial para mim. Me orgulho ao ver o quanto o circo cresceu na cidade, em saber que tem gente que consegue fazer meu número com mais facilidade e em menos tempo de aprendizado do que eu. Hoje eu sei o caminho, onde devo olhar, o lugar certo onde colocar a mão, a intensidade do movimento”, afirma.
Para ela, o circo significou transformação de um universo lúdico e ao mesmo tempo real do palhaço e da lona. “Entrar em um mundo que não conhecia e jamais imaginei pisar ajudou a formar a pessoa que eu sou hoje. O circo mudou primeiramente meu físico e o mundo artístico me ensinou a dizer não e desenvolveu minha espontaneidade. Apesar do meu jeito extrovertido, evo tudo com seriedade e consegui construir minha identidade”, realça.
João Paulo de Paula Campos é instrutor de artes circenses da prefeitura de Campo Mourão, coordenador técnico e artístico e artista da Trupe de Circo Fundacam e, como a maioria dos meninos brasileiros, aos 14 anos tinha o sonho de ser jogador de futebol, mas encontrou o circo pelo caminho. “Entrar para o circo significou imaginar o inimaginável, acreditar no inacreditável e alcançar o inalcançável. Mudaram os meus horizontes e vi novas possibilidades de ser feliz. Conforme fui me envolvendo com esse estilo de vida, as responsabilidades surgiram e, como eu sempre quis mais do circo, ele sempre exigiu meu melhor, tanto na área técnica, quanto na área social”, argumenta. Sindicalizado como artista, nas funções de acrobata, malabarista e palhaço, e técnico, nas funções de ensaiador circense e capataz, João Paulo diz que um dos melhores momentos que viveu foi assistir dois espetáculos da maior empresa de entretenimento do mundo, o Cirque Du Soleil (Quidan e Varekai) e participar de cursos de aperfeiçoamento no Rio de Janeiro, além de conhecer outras companhias e espetáculos de circo.
Aos 16 anos, Cesar Rodrigues queria apenas mostrar para a família que não queria crescer na rua. O circo apareceu de surpresa. “Fazia capoeira e, um belo dia, perguntaram quem gostaria de ir conhecer a Escola. Fiz os testes por fazer, mas gostei e fiquei. Por eu ser mais velho, achavam que eu não iria ficar muito tempo. Há sete anos isto faz parte da minha vida, mas foi preciso persistência e dedicação, como tudo na vida. Se não fosse o circo, não sei se estaria junto à minha família hoje”, analisa.
Cesar, que já é professor na Escola Municipal de Artes Circenses, diz que se sente realizado e pretende se aperfeiçoar e trabalhar numa grande companhia. “Tento fazer um pouco de tudo que envolve o circo, desde uma apresentação até a montagem de equipamento, e me aperfeiçôo sempre. Com a Trupe fui ao Rio de Janeiro fazer intercâmbio com a Escola Nacional De Circo e a Curitiba, na 9º Convenção de Malabares e Circo, onde se encontram artistas de circo do mundo inteiro”, explica.
O primeiro presente que Danielle Ferreira, a Danny, ganhou do circo foi sair da depressão. Tinha 12 anos, morava há pouco na cidade e não tinha amigos. Atualmente atua como instrutora, figurinista, acrobata aérea, malabarista e palhaça da Escola Municipal de Artes Circenses e Trupe Fundacam. “Com a iniciação nas artes circenses, viajei a lugares que nunca imaginei, fiz intercâmbios, ganhei novos conhecimentos, conheci pessoas que me apoiaram, me incentivaram e algumas que hoje são uma família para mim. Não seria o que sou hoje se não conhecesse essa arte e as pessoas que a rodeiam”, justifica.
Danny ressalta que se realiza muito com as aulas e trabalhos sociais, levando os ensinamentos circenses para aqueles que não têm condições de buscar a arte. “Tem pessoas que nascem com o dom da arte, assim como há pessoas que buscam durante sua vida. Conheci pessoas que ao embarcar nessa viagem, que é o circo, não tinham dom algum, mas de tanto persistir, hoje são grandes artistas”, fala.
Greice Kelly há oito anos é instrutora da mesma Escola e Trupe, como acrobata de solo e aérea e contorcionista. Tímida na infância, diz que o prazer que a arte proporciona é inexplicável. “Aprendi a ter responsabilidade e comprometimento, seja na área profissional ou na pessoal. São experiências e conhecimentos valiosos. Conheci lugares e pessoas que nunca imaginei, vivi momentos maravilhosos e tenho uma família no circo. Vou aprender e conhecer muito ainda. Neste cenário, como na vida, nada é impossível. E tudo isto reflete em minha vida de uma forma muito positiva”, comenta. Ela acrescenta que é uma arte que precisa ser praticada com amor, pois é preciso unir o dom, a vocação e a técnica. “É muito abrangente, mas se você entra neste mundo não consegue mais sair. Pretendo me aperfeiçoar, aprofundar a técnica e, mesmo depois de terminar a faculdade, conciliar as duas carreiras”.

Entrar para o circo significou imaginar o inimaginável, acreditar no inacreditável e alcançar o inalcançável. Mudaram os meus horizontes e vi novas possibilidades.

Alex dançava hip-hop e jogava bola quando começou, aos 16 anos, nas artes circenses. Passou num teste com a Companhia Sou Arte depois de uma visita dos instrutores na Escola. Encantou-se com as acrobacias e foi atrás para fazer disto sua profissão. “O circo significou novas descobertas, alegrias e sonhos realizados. Me tirou da rua, de más companhias, colocou pessoas abençoadas em minha vida. A técnica é o ponto forte num artista, mas basta a pessoa ser determinada, esforçada, que ela consegue ser o que quiser”, reflete.
Segundo ele, é dando o melhor no palco, tirando sorrisos de crianças e aplausos do público, ou dando aula de circo para crianças que retribui o que recebeu do circo. Alex já viajou com a Cia. Sou Arte para mais de 90 cidades no Paraná e outros estados. “Para mim, não importa para onde vou, e sim se tenho meus amigos/irmãos do meu lado”, conclui.
Fabiano Souza diz que sua vida era totalmente sem rumo, não tinha sonhos e nem metas a cumprir. Os exemplos eram todos do mundo da marginalidade, exceto o pai, que sempre lutou para criar os sete filhos sozinho. Ele conheceu o circo aos 14 anos, quando foi visto num abrigo de menores fazendo estrelinhas, sendo convidado para as aulas na Cia Sou Arte. “Adorei as aulas, daí então só queria melhorar cada vez mais”.
Atualmente, instrutor de aulas de circo, educador social, artista circense e dançarino, ele diz que não há dinheiro que pague ver o sorriso no rosto de uma criança, ou até mesmo a adrenalina que passa pelo corpo durante as apresentações. “É uma sensação de liberdade, superação e extrema felicidade”, tenta explicar. “Sempre temos algo de novo para aprender. É uma arte que não tem fim”. Artista reconhecido, ele diz que tem sido referência para sobrinhos, primos, pais e amigos. “Tenho muitas coisas das quais me orgulhar. Repassando minhas histórias e conquistas, sirvo de referência para crianças e adolescentes para quem dou aula, porque muitas delas também vêm de projetos sociais”, finaliza.


Sobre o Autor

Regina Lopes
Regina Lopes

É jornalista há 27 anos, editora da Revista Metrópole e jornalista da Prefeitura de Campo Mourão.


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