Para curar a dor… Doutores da Alegria!

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Sérgio é empresário. Vanessa é enfermeira. Solange é gerente.  Uma vez por semana eles deixam a profissão de lado e assumem outra versão: viram Doutores da Alegria e assim entram em cena doutor Nicki, doutora Xexelenta e doutora Esquecidinha.  Assim como Sérgio, Vanessa e Solange, outras dez pessoas dedicam parte de seu tempo, semanalmente, para alegrar a vida de outras pessoas. Com pintura no rosto, chapéu na cabeça e a vontade de aliviar a dor de outras pessoas e um pouco da sua, eles viram palhaços e espalham diversão pelas alas do Hospital  Santa Casa.

O projeto, que se desenha agora em Campo Mourão, existe no país há cerca de duas décadas. A origem do tratamento do combate da dor com o amor, no entanto, é bastante conhecida do público por meio do filme “Patch Adams – O amor é contagioso”, de 1998, que conta a história do médico americano Hunter Adams, que adotou o nome e a postura de Patch Adams, um novo tipo de médico, que passava a tratar dos seus pacientes com alegria. No Brasil, a principal vertente desse conceito de tratamento ocorre por meio dos Doutores da Alegria, uma ONG que já chegou à maioridade, com um conceito diferente: fazer com que leigos, voluntários, assumam o papel de levar alegria para os doentes.

Em Campo Mourão, quem coordena a trupe é o ator e diretor de teatro Carlos Soares, que voluntariamente treinou e capacitou outros 13 voluntários para fazer as visitas no hospital. Aqui, além de levar o nome de Doutores da Alegria, o grupo faz questão de frisar um codinome, inspirado em uma frase de Chico Anísio: “Fazer rir é coisa séria”. E esse é o lema da trupe. “Não podemos brincar de brincar com as pessoas, sem preparo e sem condições para isso”, ressalta Carlos.

Só quem sabe o que é ficar dias aqui entende a tranquilidade que uma visita como essa traz.

O projeto, explica Carlos, surgiu de um convite da própria Santa Casa para ampliar o tratamento dos enfermos com a alegria típica dos palhaços. Há cerca de dois anos, a Fundação Cultural levou o projeto Cultura Solidária, com circo, teatro e música para ambientes como hospitais e inspirou Carlos a atuar como doutor Alegria no Hospital, até surgir a oportunidade de abrir espaço para mais pessoas, não sem uma dose de medo.  “É um projeto ousado e envolve muitas pessoas, então não pode ser feito de qualquer forma, por isso todo esse cuidado na manutenção do projeto desde o seu início e acompanhamento. Mas este é um projeto piloto, ainda temos muito que aprender”, explica.

Carlos deu oficinas de fundamentos pedagógicos e promoveu laboratório para os alunos nas ruas e nas escolas. Vestidos como palhaços e o jaleco branco, eles começaram a se encontrar como tais e só depois disso partiram para as visitas no hospital.

Doutores da Alegria

Solange Manzato nunca foi palhaça, nem mesmo fez curso de teatro alguma vez na vida. Soube que o grupo se formava e na mesma hora largou todos os compromissos para conhecer de perto a proposta de virar a doutora Xexelenta. “Tinha muita vontade de fazer parte de algo assim, então abracei a ideia na mesma hora”, conta. Foi por meio da amiga, Evelyn Pedrolo, que ela ficou sabendo do grupo que se formava e resolveu se arriscar no voluntariado.

Não tem dinheiro que pague e nem remédio que alivie o bem que isso faz.

Evelyn, assim como o empresário Sérgio Melnicki, já era voluntária. “Uma vez por semana, na empresa em que trabalho, levamos jantar para os acompanhantes dos pacientes, mas queria fazer algo mais”, destaca. Assim ela mobilizou pessoas e resolveu abraçar com força a causa. “A primeira experiência foi difícil, tem de ter o emocional muito forte, porque você se comove e fica com aquele nó na garganta. Mas a gente respira fundo e continua”, pontua. E, é o sorriso na face das crianças e dos idosos, principalmente, que faz com que eles se mantenham firmes no propósito de levar alegria a um lugar que, na maioria das vezes, acumula tristezas.

Integrante do corpo de voluntariado do hospital, Sérgio se pinta com alegria para encarnar o doutor. Chega à Fundação Cultural, que cede o espaço para que eles se caracterizem, acompanhado da mulher e das duas filhas. Senta no banco e são suas meninas que espalham cor pelo seu rosto. A menorzinha, Isis, de seis anos, pega o lápis e faz questão de ajudar o pai a se transformar. “Aqui o palhaço sou só eu, mas todos participam. Recebo o apoio delas sempre”, diz.

Injeção de cócegas

Vanessa dos Santos é enfermeira. Todo santo dia seu trabalho é cuidar de pessoas doentes, ouvir seus lamentos e tentar aliviar um pouco da dor que eles sentem. Quando, com propriedade, coloca seu jaleco e coloca uma tarja no símbolo da enfermagem, se transforma, os olhos brilham de um jeito diferente. “Todo dia eu levo alívio para aquela pessoa que está ali sofrendo, o remédio e cuidado que ela está precisando. Assim, como doutora Esquecidinha, dou uma injeção de cócegas e de alegria para quem está sofrendo”, pontua.

Pela experiência nos cuidados com os doentes, apesar dos sorrisos das crianças sempre ficarem em evidência, ela acredita que o bem proporcionado pela alegria dos palhaços é geral, apesar da idade. “Os adultos são muito abertos e receptivos. As pessoas estão ali, o dia inteiro em uma sessão de quimioterapia, com uma reação violenta, mas aquele momento salva o dia”, defende.

Os pacientes

O garoto João Kerllon Ribeiro Ferreira, de oito anos e cabelos loiros, combinados com olhos muito azuis de uma traquinagem explícita, passou alguns dias internado na ala infantil da Santa Casa. Perguntado sobre o problema que o tinha deixado ali, apenas levantava a camiseta e mostrava o sinal do guidão da bicicleta, uma nova tatuagem, ganha no violento tombo que levou de sua bicicleta, em um sítio em Mamborê, onde mora. Na mesma hora, virou o “João do Guidão”.

A mãe, a feirante Marlene, que acompanhava João e ainda mostrava certa preocupação com a traquinagem do filho, adorou a visita dos doutores, tanto quanto o filho, que se revirava em gargalhadas. “Gostar é pouco para o que aconteceu aqui. Amei. Só quem sabe o que é ficar dias aqui entende a tranquilidade que uma visita como essa traz”, argumenta.

A dona de casa Teresa da Luz Barbosa Teles é outra paciente que se derreteu de amor pelos alegres visitantes. Não esperou a visita e foi atrás do grupo, na fase final de sua recuperação de uma pneumonia. “Eles trouxeram alegria para todo mundo. Nossa vida ficou alegre nesse tempo”, defende.

A recompensa

“A pessoa não vê quem está atrás da maquiagem, vê o palhaço. A gente se emociona, não pela aventura que é essa transformação, mas pelo bem que faz para as pessoas. Não tem dinheiro que pague e nem remédio que alivie o bem que isso faz”, salienta Sérgio.  A resposta de todos sobre os trabalhos é unânime: gratificante.

No primeiro mês de atuação dos Doutores na prática, durante todos os dias aconteceram visitas na Santa Casa. De acordo com o coordenador, Carlos, a quantidade de visitas vai diminuir, porque o hospital não comporta tamanho número de visitas. Como ele mesmo salienta, essa é a fase de experimentações, porque ainda não há uma fórmula pronta para a atuação do grupo.

Hoje a Fundação Cultural é parceira do projeto e cede o espaço para que os voluntários se caracterizem. Todo o material usado para que eles passem de pessoas comuns a palhaços é de propriedade de todos os voluntários e, principalmente de Carlos, que abriu seu guarda-roupa de décadas como palhaço para a meninada que está chegando. Por isso, a trupe solicita a quem tiver interesse em colaborar, fazer doação de apetrechos para que fiquem cada vez mais bonitos e coloridos, assim como brindes para entrega para as crianças.

Para quem gostou da história e quer fazer parte dela, uma nova turma está sendo pensada, mas não com muita pressa. “Temos muita gente interessada em fazer parte, mas precisamos pensar com muita calma e levar adiante o trabalho que estamos desenvolvendo agora”, relata Carlos.

Texto e fotos: Gracieli Polak


Sobre o Autor

Gracieli Polak
Gracieli Polak

Gracieli Polak é jornalista e blogueira, especialista em escrever sobre quase todo assunto – especialmente os que lhe agradam.

8 Comentários


  1.  

    Parabénsss..a Materia ficou lindaaaa……




  2.  

    Parabénsss..a Materia ficou lindaaaa……




  3.  

    Iniciativa maravilhosa! Parabéns!




  4.  

    Trabalho maravilhoso faço tratamento no hc e vejo sempre faço um apelo por favor faça uma visita as crianças dos hospitais de Francisco Morato ficarei mto feliz por eles





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