O tãoismo

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Há algo que compartilhamos com nossos primos europeus: o “tão”. Usamos para dar uma ideia precisa, mas não tão precisa assim, ou seja, para dar uma sugestão vaga, mas quase  precisa. Por exemplo, todo europeu afirma com gelo em punho: “Na Europa não é tão frio assim”. Pois, para ele, basta ter um casaco bom, luvas, gorros, cachecol, aquecimento em casa, janelas duplas, que já não é tão frio assim.

Já nós dizemos ao gringo em um jantar em Paris ou Londres: “O Brasil não é tão perigoso assim”. Pois, sabendo aonde, e a que horas ir e tendo grades nas janelas, muros babilônicos, cercas elétricas, não é tão perigoso assim.

Nesse momento que escrevo, estou sentado no gelo, dentro do canal em Amsterdam (Holanda), com as costas em um barco todo cercado pelo gelo. À minha volta, crianças patinam felizes no gelo, velhos sorriem, casais se beijam. E na minha mente uma pergunta não pode se calar: porque um povo, milênios atrás, imigrou para esse lugar? Nossa civilização celebra e cultua o fogo: temos como marco fundamental o domínio do fogo. Contos foram escritos, pinturas feitas, músicas cantadas sobre  e ao redor do fogo. Não ha um único registro sobre o gelo, nem uma música, nem um conto. Nada, a não ser a imigração da Era Glacial, fugindo dela. Nota desnecessária.

Tente imaginar um grupo caminhando por anos e anos, chegando nas geleiras e seu líder batendo ao peito e dizendo: “Certo, chegamos. Aqui é frio e só tem gelo. Perfeito. Vamos ficar!”. Isso em uma época que nem a lavagem cerebral tinha sido inventada. Moisés só conseguiu continuar guiando um povo por 40 anos, perdido, sem nunca chegar ao destino desejado, porque fazia calor. Quem ia se levantar por 40 anos no frio, de manhã, e continuar caminhado no frio, sem nunca chegar a lugar nenhum?

Mas como explicar, então, a imigração de povos à Noruega, Islândia, Suécia? Minha teoria é que no ano 6.965 A.C, ano que esses povos chegaram a essas terras, em vez do frio típico, ocorreu o verão mais longo e mais quente da história da humanidade. E essas tribos viveram meses em glória e calor. Mas, então veio o inverno e desespero. E com ele, dor e agonia. Mas, não podia ser culpa dos deuses. É claro que o erro era humano e devia ser expiado, e ali nasceu a religião. Sacrifícios e oferendas foram feitas e, com o tempo, o frio diminuiu, e outro verão chegou: festa, celebração.

Mais orações e cultos foram inventados, mas algo estava errado:  o verão dessa vez foi curto e ameno e logo o frio voltou. Desespero. Mas, junto com a agonia, nasceu a fé e a esperança da volta do verão de 6.965 A.C.. E a fé se fortaleceu e uma adoração ao sol se criou, fazendo que o povo ficasse e esperasse pela volta do calor. Haja fé.

Até que outro povo chegou, trazendo o Cristianismo e a promessa da volta do Messias – também representado pelo filho da luz – e luz é sol e sol é calor. Pronto, encaixe perfeito. Igrejas foram levantadas e anos e anos de missas – e uma boa dose de nacionalidade – apagaram da memória o passado e amorteceram o corpo ao frio, criando a ideia de que o povo conquistou essa terra e ali ficou por amor e que, no fim, não é tão frio assim.

 


Sobre o Autor

Zezo Duarte
Zezo Duarte

Filósofo, viajante e fotógrafo. Divide sua moradia entre as cidades de Cesky Krumlov, na República Tcheca, e Amsterdam, na Holanda.

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