Uma “Rajada” de ideias Nova Mente

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Neguinho, Robinho e CarecaA história dos meninos do Rajada MCs é igual à de tantos outros: nascidos na periferia, sofreram as injustiças sociais, com várias oportunidades para entrar numa “vibe” errada. Mas, graças ao rap, encontraram uma forma diferente de permanecer “na cena”.

O rap, ritmo musical criado no século passado como música de protesto dos guetos americanos, mistura rimas e poesias, com batidas eletrônicas e ainda nos dias de hoje é utilizado como manifestação cultural muito forte nas periferias. Foi isso que uniu Cleverson Ney, vulgo “Careca”, Robson Paula de Souza, o “Robinho” e Robson Ferreira, o “Neguinho”, no grupo Rajada MCs, que, como eles mesmos gostam de afirmar, faz um “Original Rap Nacional Paranense”.

O grupo começou em 1997, quando Careca, influenciado pelo rap paulista, percebendo que tinha facilidade para escrever e rimar, resolveu fazer seus próprios sons, mas com uma cara da realidade de Campo Mourão. “Os raps que a gente ouvia eram de São Paulo e falavam do cotidiano e das coisas que aconteciam lá. Decidi escrever uns raps falando sobre o que acontece aqui em Campo Mourão, principalmente falando sobre o bairro onde eu cresci, que é o Cidade Nova”, ressaltou. Na época ele tinha 14, 15 anos e falava sobre experiências que as pessoas ao seu redor viviam. Foi quando surgiu a oportunidade de escrever uma música sobre os 500 anos do Brasil, em 1999, que foi a primeira vez que o Rajada MCs subiu ao palco.

A partir daí a carreira começou a deslanchar, contando com o apoio da Fundação Cultural de Campo Mourão (FUNDACAM), Careca se aprimora participando de oficinas de Hip Hop, aprendendo métrica, aprendendo na teoria o que já realizavam na prática. Nessa época ele também começou a dar essas oficinas, onde conheceu Robinho, que participou de uma dessas oficinas. Na época ele participava de outro grupo, “A Voz do Gueto”, mas, sempre aconteciam situações de alguém faltar aos shows e eles precisarem da ajuda de Careca.
Nessa época eles também conheceram o Neguinho, que tinha o seu grupo no Conjunto Mendes, também conhecido como “Mutirão”, onde ele participava do “Mutirão do Rap”. E como esse grupo também tinha esse problema, eles resolveram se juntar ao Rajada, que se preparava para gravar o primeiro CD da carreira, no ano de 2004. “A gente não tinha também tantas músicas assim, então pegamos as músicas dos três grupos, fizemos algumas músicas juntos e lançamos o primeiro CD: “RJD (Respeito, Justiça e Dignidade)”, lembrou Careca.

Até então, eles realizavam apresentações apenas na cidade de Campo Mourão, participando dos eventos da Fundacam. Mas, a partir do lançamento do CD, houve uma projeção para fora de Campo Mourão. O líder do grupo lembra que nessa época não existiam as redes sociais e as facilidades que se tem hoje em dia para divulgar o trabalho. “A gente ganhou projeção para outras cidades, mas no boca a boca. Nessa época, se não fosse bom, não dava comentário”, pondera. Com o reconhecimento regional, as forças para continuar foram renovadas. “O rap é uma música difícil de fazer no Brasil. Ainda tem um estigma, um preconceito, mas a gente continua lutando, batalhando espaço”, afirma Careca.

 

Com o lançamento do disco “Nova Mente”, o Rajada voltou a aparecer na cidade, pois durante um tempo, Careca estava morando em Santa Catarina, o que acabou atrapalhando um pouco nos contatos aqui na região. Mas, o grupo continuou na ativa, fazendo shows em cidades como Foz do Iguaçu, Altônia e Cianorte. Até que, no ano passado, ele voltou e eles decidiram terminar o disco e voltar a fazer shows na região, o que tem acontecido. “Nesse ano já tocamos na Virada Cultural, no Senac, no Festival de Inverno da UTFPR, abrimos o show do Gabriel o Pensador, no Ópera Hall. Sempre que tem algum evento da fundação, chamam a gente”, lembrou.

O último lançamento do grupo foi o clipe “Na Cena”, faixa presente no disco “Nova Mente”, filmado por uma produtora de Londrina, com imagens feitas nos bairros de Campo Mourão. O vídeo contou com roupas da marca Jah Bless, que apóia os meninos do Rajada MCs, e está disponível no YouTube.

As letras variam bastante a sua temática, sempre dependendo das realidades vividas por cada um, mas o foco principal são as críticas sociais. “Às vezes o cara está no veneno lá no gueto, precisando de uma ideia, coloca o CD e consegue encontrar talvez a mensagem que ele precise, talvez não saia para fazer algo de errado, piorar a situação. Tem várias letras, como ‘Bem Brasil’, que é bem crítica”, afirma Robinho. É uma crítica até ao próprio gueto. “Às vezes a pessoa se apega aos programas do governo. A gente tenta fazer com que a pessoa pense que ela tem que evoluir, não se acomodar”, disse Careca.

Eles também tomam cuidado para não apontar o dedo na cara de ninguém. “Desde criança a gente sofre pressão pelo lugar que a gente mora, muita cobrança. A gente tenta não cobrar muito. Falamos que as armadilhas estão aí. Como eu digo em uma música, ‘você tem que andar no barro, mas sem se sujar’, entende?”. Ele também ressalta o compromisso com os fãs, de não favorecer o que é ilícito. “Você vê as coisas, mas não viu. Tem que saber entrar e sair e não ser conivente com as coisas erradas. Porque tem um monte de gente que escuta a gente e acredita naquilo que a gente canta. Por isso não podemos ser coniventes com o que é errado”, concluiu.

Discografia Comentada por Careca

RJD (Respeito, Justiça e Dignidade), 2004

No RJD a gente estava começando e tal, tinha uma grande influência do hip hop, com músicas mais dançantes e mais alegres. Uma ou outra fala da vida no gueto, mas é um disco bem light.

 

O Tempo É Rei, 2006

Em “O Tempo é Rei” a gente teve bem mais influência do Robinho e do Neguinho, com músicas próprias deles, músicas mais individuais, e teve mais consistência, com mais críticas e letras de conscientização.

 

Vários Lados em Um Só, 2009

Em “Vários Lados em Um Só”, vivemos uma época de muitas turbulências e saiu quase meio gospel. A gente estava em um período de descobrimento da vida, uns casaram e passamos momentos de decisão na vida. Até chegaram a perguntar se tínhamos feito um CD gospel. Em quase todas as músicas falamos de Deus.

 

Rajada Nova Mente, 2013

Ficamos 5 anos sem lançar nada. Até porque eu me mudei pra Santa Catarina e sempre conversando e falando “vamos lançar o CD, vamos lançar o CD”. E acabamos juntando tantas músicas que o “Nova Mente” veio duplo. São 14 faixas em cada disco. Com esse CD conseguimos alcançar vários lugares do Brasil. Hoje tem gente que curte o nosso som na Bahia, Minas Gerais, entre outros estados.

Foi um CD que contou com a participação de muita gente. Tivemos o apoio do professor da UTFPR, chamado Emilio Gonzales, que tem um projeto chamado “Unidiversidade Cultural”; do Espaço Sou Arte; da equipe CD Hits, que cedeu o estúdio, produziu o CD e a parte gráfica. As bases foram feitas por vários amigos nossos: o DJ Kuruja, de Cianorte, o Felipe, de Curitiba e o Otávio Maciel, daqui de Campo Mourão.

 

 

Fotografia: Fernando Nunes


Sobre o Autor

Renato J. Lopes
Renato J. Lopes



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