Lavoura Arcaica

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Como estréia desta coluna, decidi homenagear o filme Lavoura Arcaica, adaptada do livro homônimo escrito por Raduan Nassar e dirigida por Luiz Fernando Carvalho, mais conhecido por minisséries como Capitu, Hoje é Dia de Maria, e novelas como Tieta e Rei do Gado.
Sem ordem cronológica, a história versa sobre André que foge da fazenda onde vive sua família. Ao ser trazido de volta pelo irmão, o protagonista retoma antigos conflitos familiares que vão desde o desafeto com o patriarca, a caustrofóbica proteção da mãe e a inevitável paixão que nutre por sua irmã.

O filme é uma espécie de distorção da parábola do filho pródigo, pois internamente o protagonista está mais longe de casa do que nunca, como um estranho dentro do próprio lar.

A adaptação para a tela partilha de um texto que na verdade é um labirinto de incertezas, dotado de uma musicalidade que sublima o precário equilíbrio de seus personagens.

A linguagem se confunde com uma espécie de poesia ácida que nos imerge dentro de outra realidade, deveras humana, mas igualmente corrosiva. Como nas palavras do próprio autor: Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul, violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, o quarto catedral, onde nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiros os objetos do corpo (…) (NASSAR, 1989, p. 9)

Na intimidade dos pensamentos do protagonista André, somos sucumbidos por uma corrente da vida que nos carrega escuridão adentro, rumo a um profundo “eu” que geralmente desconhecemos. Como um fluxo de consciência de André, nos tornamos todos cúmplices, caminhando de mãos dadas com uma personagem que respira a tragédia de seus próprios sentimentos. Construindo verbos que rimam com angústias e compartilhando perguntas que também se tornam nossas…

  • A proximidade nos distancia ou a distância nos aproxima?
  • O que mais se destrói quando os laços familiares se rompem?
  • Que culpa temos nós de não nos sentirmos culpados?

Questões que continuarão em aberto e permanecerão nos afligindo…

O diretor é magistral ao procurar materializar toda essência descrita no livro. Uma adaptação além do mero título técnico, mas um caleidoscópio de imagens que ilustra uma linguagem na contra mão da própria linguagem.

Reverência justa à fotografia, que auxilia o roteiro com enquadramentos fechados e tomadas de cena distorcidas, que por um lado se esforçam em entender o interior de todo aquele caos, mas por outro reconhece a imprecisão do que sabemos de nós e dos horizontes que nos afetam.
Uma verdadeira poesia cinematográfica, construída de ótimas interpretações de atores que se mostram focados nas sutis nuances de seus personagens. Destaque para Selton Mello (André) e Juliana Cordeiro da Cunha (mãe de André).

Um filme difícil de verbalizar, mas fácil de sentir. Indicado para quem não gosta de permanecer passivo frente à tela.

Ficha Técnica do Filme

  • Título: Lavoura Arcaica
  • Direção: Luiz Fernando Carvalho
  • Elenco: Selton Mello, Raul Cortez, Simone Spoladore e Juliana Cordeiro da Cunha.
  • Gênero: Drama
  • Duração: 2h 43m
  • Ano de Produção: 2001

Ficha Técnica do Livro

  • Título: Lavoura Arcaica
  • Escritor: Raduan Nassar
  • Editora: Companhia das Letras
  • Total de Páginas: 204
  • Ano de Publicação: 1989

Sobre o Autor

Valdir Rocha
Valdir Rocha

Confessa ter um fraco por literatura e cinema, saboreia dança e também teatro, as artes plásticas costuma degustar com uma musiquinha de sobremesa, espirra algumas opiniões sobre o que vê e ouve.


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