Jair Elias conta a nossa história

Jair Elias – pesquisador e historiador

Pesquisador e historiador que está se destacando como um dos mais jovens e ativos do Paraná, o mourãoense Jair Elias dos Santos Júnior concedeu entrevista exclusiva à Revista Metrópole. Falou de suas paixões, do seu trabalho e do reconhecimento que recebeu no final do ano passado, quando foi consultor do projeto que pautou as obras de reforma do Palácio Iguaçu, a sede do governo paranaense.

Metrópole –Você é um historiador desde criança. Porque esse interesse pela história de Campo Mourão desde tão cedo?

Jair Elias- Tudo começou com o meu avô, Joaquim Elias Netto, em 1988. Ele me contava histórias e fatos pitorescos da cidade. Ele também me deu de presente uma coleção de livros da História do Brasil. E isso despertou minha curiosidade pela história local. Em junho de 1989, o jornal “Folha de Londrina” fez uma matéria sobre o meu interesse pela história de Campo Mourão. Nela fiquei conhecido como o “Menino que brinca com a história”.

Metrópole – Quais livros você já publicou?

Jair Elias- Publiquei, até janeiro de 2011, nove títulos: “Horácio Amaral, Exemplo e Desafio”, “A história e a Evolução dos Símbolos de Campo Mourão”, “A história da Câmara Municipal de Campo Mourão” – dividida em dois volumes – , “Campo Mourão no Japão: abrindo os caminhos no Oriente”, “Banzai Campo Mourão: 100 anos da imigração japonesa no Brasil”, “Palácio Iguaçu: coragem de realizar de Bento Munhoz da Rocha Netto”, “Oratórias Históricas e Patrimônio Cultural: um retrato de Campo Mourão”.

Metrópole – Seu interesse maior é pelas biografias, ou outras áreas também motivam sua dedicação?

Jair Elias- Todas as áreas motivam meu interesse. Apesar de estar, na atualidade, voltado somente para a história política do Paraná.

Metrópole – Para ser historiador, é fundamental ser um bom pesquisador. Quais são suas principais fontes?

Jair Elias- No meu trabalho, utilizo todas as fontes disponíveis, incluindo as fontes orais, textuais, iconográficas e outras. É quase impossível realizar um trabalho historiográfico sem recorrer aos seus mais diversos campos.

Metrópole – Qual sua maior descoberta ao longo deste tempo de pesquisador?

Jair Elias- No âmbito local, creio que a correção dos símbolos da cidade e o tombamento de diversos bens. No contexto do Paraná, a contribuição na reforma e recuperação do Palácio Iguaçu.

Metrópole – Qual seu maior desafio ao escrever uma biografia?

Jair Elias- A procura pela verdade. Aquilo que Marc Bloch, define como história, “a obra dos homens no tempo”, o exame crítico que abrange tanto o mais remoto passado humano, como o tempo presente atual e imediato.

Metrópole – Quais personagens entre os que você abordou foi o mais fascinante?

Jair Elias- Horácio Amaral e Bento Munhoz da Rocha Netto, homens à frente do seu tempo, que passaram pela administração pública como homens visionários. Dificilmente Campo Mourão e o Paraná, terão governantes da envergadura deles. O que eles faziam de grande, do pensar no “futuro”, hoje se faz com pequenez, no imediatismo.

Metrópole – Você também tem um acervo histórico interessante, entre fotos e objetos. Como você tem acesso ou adquire estas raridades?

Jair Elias- O acervo é grande. Todo ele é feito por meio de aquisição ou empréstimo. No caso das fotografias, geralmente emprestam ou me vendem. Algumas pessoas chegam a doar, pois acreditam que, sob minha guarda, estarão em boas mãos. Tenho uma biblioteca com quase 1.000 livros. Alguns raros, como uma edição de discursos de Joaquim Nabuco, de 1909, e outro do Coelho Júnior, que relata sua saga na exploração da Região Noroeste do Paraná.

Metrópole – Qual a foto ou objeto mais interessante entre os que você tem?

Jair Elias- Difícil dimensionar. Posso apontar o acervo de Paulo Fantinatti, fotógrafo da sucursal da Folha de Londrina, na década de 1980. São quase 5.000 negativos, boa parte de atividades e eventos realizados em Campo Mourão e região.

Metrópole – Recentemente você ajudou como consultor nas obras de reforma do Palácio Iguaçu. Qual das suas obras serviu de referência e como foi esta experiência?

Jair Elias- O trabalho que fiz sobre o Palácio Iguaçu foi, sem dúvida, o mais gratificante. As pesquisas tiveram início em dezembro de 2006, de maneira modesta. O volume de informações foi crescendo e, em abril de 2007, apresentei o projeto na Secretaria de Estado da Cultura, que foi avaliado pelo Conselho de Editoração. De 22 projetos, cinco foram aprovados. Fiz o lançamento do livro, em outubro de 2008, cuja primeira edição, com mil livros esgotou-se no final do ano passado.  Agora estou trabalhando para a segunda edição, com mais de 400 novas fotografias, dados e informações sobre este prédio, que é a casa de todos os paranaenses, onde os seus governantes, eleitos e inquilinos temporários do Palácio, governam e direcionam o futuro do Paraná.

A primeira edição serviu como base para a preservação do prédio. A equipe da Secretaria de Obras utilizou o livro como referência para a manutenção de vários espaços, bem como a recuperação daquilo que foi feito na década de 1950. Até mesmo a sua reinauguração, em partes, foi inspirada no meu livro. Agora, na etapa final das obras, fui convidado para acompanhar os trabalhos. E neste acompanhamento, apresentei sugestões, tirei dúvidas e aprendi como o Palácio foi feito e, principalmente, as interferências que ele sofreu em cinco décadas. Importante ressaltar que, até mesmo a equipe que fez higienização do acervo de obras de artes do Palácio Iguaçu, elogiou minha pesquisa, pois, segundo eles, isso facilitou o trabalho deles.

Na noite da reinauguração a TV Educativa exibiu um documentário e, nele, todas as imagens apresentadas foram retiradas do meu livro. Esse foi um momento de emoção, pois era o fruto da minha pesquisa que estava ali.

Com o lançamento da segunda edição, pretendo pedir o tombamento do primeiro andar do prédio, bem como a criação de mecanismos para divulgação do rico acervo de obras de artes do Palácio. O povo do Paraná merece ter acesso a ele. Abrindo o Palácio Iguaçu para os paranaenses, Curitiba deve ganhar um novo espaço cultural.

Metrópole – Mais recentemente a imprensa tem dado destaque ao seu trabalho. Que resultados você já tem colhido com essa exposição na mídia?

Jair Elias- Os resultados serão colhidos ao longo do tempo, penso. Tenho comigo um ditado que diz: “a semeadura é livre, mas a colheita, obrigatória”. Acredito que estou colhendo um pouco do que plantei. Isso respalda muito a minha luta, porque ao olhar de onde vim, da origem humilde, das dificuldades e perdas, vejo este reconhecimento estadual como estímulo para seguir sempre em frente, com dedicação total, buscando o último limite e o meu melhor.

Metrópole – Qual parte histórica de Campo Mourão precisa de mais atenção e por quê?

Jair Elias- A criação do curso de História, na Fecilcam, vai ajudar absorver as diversas lacunas da historiografia local e regional. Teremos historiadores atuando em diversos campos. Na questão urbana, se faz urgente a preservação das casas de madeira e das primeiras edificações em alvenaria. Também é necessário criar uma cultura em que a preservação do passado seja o legado do presente para o futuro. Algumas pessoas não compreendem e, ao negar isso, perdem Campo Mourão e seu povo. Em 33 anos, Campo Mourão estará comemorando seu Centenário. E a grande interrogação da vindoura geração vai aparecer: o que nos legaram as gerações do passado?

Metrópole – Para ser um bom historiador o que é preciso?

Jair Elias- Dedicação. O bom historiador é aquele que vai ao arquivo depois de assimilar o que é, e o que deve a história, definir com clareza uma problemática historiográfica determinada, a partir de teorias, metodologias, conceitos e categorias de seu próprio ofício.

Metrópole – É difícil definir o grau de confiabilidade de fontes? Quais os parâmetros para colher informações confiáveis e reproduzi-las como verdade?

Jair Elias- O confronto de fontes é o melhor parâmetro de confiabilidade de um trabalho historiográfico. Tenho isto na minha base, desde o meu primeiro livro, em 2004.

Metrópole – Projetos futuros?

Jair Elias- Concluída a 2ª edição do livro do Palácio Iguaçu – o lançamento possivelmente será em março ou abril deste ano – tenho dois trabalhos: um, de imagens da evolução urbana da cidade, de 1910 até 2008, precisando somente de apoio para sua concretização; outro, com as conferências de Bento Munhoz, referentes ao período de 195 a 1973. Além destes, fui contratado pela Acicam para realizar um levantamento histórico. O projeto será concluído em 2012, com o lançamento de um livro. Com o acervo a ser montado, será proposta a criação de um centro de documentação histórica da Acicam. E, fechando, estou envolvido com a elaboração das biografias de duas personalidades da cidade.


Sobre o Autor

Metrópole Revista
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Revista de variedades.

Um Comentário


  1.  

    Como faço para adquirir o livro Banzai Campo Mourão?! Sou bisneta de Kameiti Nakayama e quero muito um exemplar.





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