A fantástica ilusão de Miguel

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Que em nosso país existe uma absurda desigualdade social, todos nós sabemos. Mas, algo que me deixa, não sei como posso dizer, talvez, “menos triste”, é saber que muitos sofrem menos do que a gente pensa. Ou, nós sofremos por eles mais do que eles mesmos. Isso tudo, por que nós conhecemos o que é bom. Temos parâmetro.

Não quero, nem de perto defender ninguém, só quero dizer o que senti quando conheci o Miguel, em 2006. Nome bonito, não?! Em algum dia do meu primeiro Rally dos Sertões, quando eu ainda estava meio abismado com a pobreza nordestina, paramos, vários membros da imprensa em um vilarejo onde tinham algumas casas. Todas de pau apique, telhado de palha, chão batido e cercas de galhos de árvores. Tudo muito organizado, dentro de suas  gigantes limitações.

Miguel ficou alucinado quando eu mostrei uma foto dele no visor de minha câmera. Parecia que tinha visto um fantasma. A criaturinha mudou até de cor. No início ficou com medo da máquina, sei lá, achando que ela iria roubar sua alma ou coisa assim. Eu, estranhei um pouco, já tinha passado por experiências em que o povo gostava de se ver na telinha, e ficava em êxtase, mas, não com aquela euforia, misturada com medo e dúvidas.

Como eu sabia que íamos ficar muitas horas por lá, tentei me aproximar do menino, para saber mais sobre a vida dele. Nossa conversa ficava cada vez mais complicada, eu não conseguia entender o pensamento dele. Quando perguntei o que ele estava achando do Raly, ele respondia coisas que eu não compreendia. Até que, depois de muita, muita conversa entre um carro e outro, depois de mais de 2 horas,  consegui chegar perto do valiosíssimo raciocínio do garoto. Acreditem, para ele, o mundo todo era de terra, como naquele lugar. Ele nunca tinha visto um asfalto ou cimento. Ele não sabia o que era o “não-chão-batido”. Eu não conseguia explicar para ele o que era um asfalto ou um piso sólido, pois ali não existia. Ele nunca tinha ido à cidade. Nunca tinha visto tv, por isso o susto quando viu a tela da câmera. Nunca nada. Era o menino mais puro que já vi na vida.

Neste momento, percebi que ele sofria muito menos do que nós, quando pensamos neles. No almoço, um banquete farto, ao ar livre, perguntei o que a Senhora, mãe de Miguel produzia daquela mesa. Se não me falha a memória tinha arroz, feijão, carne de frango, de gado, farofa, várias saladas e suco de caju. Ela me respondeu que a única coisa que ela não produzia no quintal de casa era a carne de gado. Que ela pegava do seu cunhado, na casa da frente. Logo, tudo era local. Assim que acabamos de almoçar seu marido subiu na árvore pegou, meio quente, coco para todos.

O parâmetro, o repertório de coisas existentes é no geral muito bom, ajuda a ambição de alcançarmos coisas em nossas vidas. Faz bem para o ego e serve de energia para corrermos atrás de nossos objetivos. Mas, naquele momento, desejei do fundo do coração, que Miguel e as outras crianças dali nunca, nunca tivessem conhecimento de nada além do que existia ali. Nem energia elétrica, nem televisão e nem com o tão absoluto normal asfalto. Assim, ele seria feliz como nós nunca jamais sonhamos em ser. Ele não sentia falta de nada. Absolutamente nada.
Até a próxima e não vá se perder por aí.

 


Sobre o Autor

José Mário Dias
José Mário Dias



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