Dica de filme: O Palhaço

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Um palhaço de circo que ri por fora enquanto chora por dentro – esta premissa é a imagem da ambigüidade humana que reside em nós, ora adormecida, ora latente em suas conseqüências. Nosso protagonista é Benjamim Savala (nome que homenageia o lendário palhaço Carequinha), personagem vivido por Selton Mello e que se encontra em crise ao perceber a ausência de sentido em si e na realidade à sua volta. Um alguém deslocado da felicidade que impera no seu micro universo constituído por uma troupe circense da qual faz parte.

Este tema, embora já visto antes no melancólico “Os Palhaços”, de Federico Fellini, ganha contornos mais individualistas pelas mãos de Selton, que também dirigiu, produziu e roteirizou o longa.

A inquietude da alma de Benjamim é um mero reflexo desta precária vida mambembe, dotada de lonas rasgadas, caminhões velhos e habitações adaptadas.

Perder o gosto do sorrir e de fazer rir mostra-se apenas um hiato. Sentir-se distante daqueles que estão tão próximos torna a dor pior ainda. Uma vida sem destino certo e caminhos efêmeros.

Na tentativa de estabelecer laços e criar raízes, Benjamim interrompe a constante viagem com seus amigos de picadeiro. O pivô deste rompimento é uma moça que assiste ao espetáculo e que desperta certo afeto no protagonista depois de meras trocas de palavras com ele.

Rumo à outra direção, decide se abandonar no meio do nada e parte em busca de sua identidade e também de sua primeira carteira de identidade.

Mas, a solução não está na mudança do lugar, mas no retorno a si mesmo. Frustrado com o amor, nosso herói volta com paz no espírito e um ventilador na mão, objeto de desejo que materializa a conquista da busca do nosso palhaço, agora não mais tão triste.

Selton Mello, com seu personagem melancólico, consegue um feliz resultado estético. A trilha pontua cada instante com a dosagem adequada e emociona sem ser piegas.

A fotografia tem mérito garantido. Cores saturadas, que, além de retratar o abafado calor climático, também pinta os traços da implosiva ebulição de sentimentos de seus personagens. Tudo milimetricamente pensado, cada coisa ajustada em seu lugar com a precisão de uma pinça. Como uma foto antiga emoldurada na parede, a postura verticalizada e inerte dos personagens me parece contrastar com a dinâmica horizontal de seus interiores.

Porém o filme deixa a desejar na administração da piada. Ingênuo demais, cansa a intenção de ser engraçado em todas as situações, como na cena que Benjamim procura o serviço para obtenção da carteira de identidade e na busca por um mecânico, ou as alongadas cenas de picadeiro que lembra “Mazzaropi” ou “Os Trapalhões”.

Há uma indistinta diferença na atuação do personagem no interior do picadeiro e fora dele. Talvez dosar o caricatural tornasse a trama mais convincente e acentuasse os contrastes existenciais. A construção farsesca de muitos personagens desgasta o humor a película e expõe a idéia de “se considerar engraçado” ao invés de “ser engraçado”. Contudo, é louvável a exposição da atmosfera circense, ainda que arraigada aos ranços da servidão televisiva.

Neste pequeno núcleo itinerante as partes influem diretamente no todo. A paz encontrada por Benjamim contamina todos os demais de maneira sutil, mas evidente. E na cena final, são das pás do ventilador que emanam novos ares a estes personagens de vida tão dura. Tudo é bom quando acaba bem, neste caso há de se incluir: para todos.

Vale lembrar que “O Palhaço” é nosso representante brasileiro para concorrer a uma das cinco vagas que disputarão o Oscar de melhor filme estrangeiro. Mas, não desgrudem o olho dos hermanos argentinos, que terão “A Infância Clandestina”, de Benjamin Ávila, como seu filme representante.

Embora de valor inegável e mantendo sempre minha predileção bairrista, considero que nosso longa possui poucas chances na briga pela estatueta. Um embate mais difícil que um jogo no “Desafio das Américas”, certamente porque nem conseguiremos disputar os pênaltis.

Ficha Técnica
Titulo: O Palhaço
Roteiro, Produção e Direção: Selton Mello
Elenco: Selton Mello, Paulo José, Teuda Bara, Jackson Antunes, Tonico Pereira
Gênero: Drama/Comédia
Duração: 1h28
Ano de Produção: 2011

Sobre o Autor

Valdir Rocha
Valdir Rocha

Confessa ter um fraco por literatura e cinema, saboreia dança e também teatro, as artes plásticas costuma degustar com uma musiquinha de sobremesa, espirra algumas opiniões sobre o que vê e ouve.


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