Dica de filme: Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

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Transcrever minha opinião sobre Harry Potter me faz sentir como alguém que declara insanidade deitado num divã, talvez um fiel reconhecendo um pecado num confessionário, ou mesmo um cara que conta aos amigos que “pegou” uma mulher feia.

Mas, me esquivando deste receio inicial, conforto-me frente a um deslumbramento de uma série idealizada por uma escritora (J. K. Rowling) que consegue aliar a criação de um universo único e de regras próprias com o drama que causou empatia em uma legião de fãs.

Nesta história, Harry Potter volta para mais um ano letivo na escola de bruxos Hogwarts e tem que enfrentar tanto seu tio, assassino de seus pais, quanto os Dementadores, que são guardas/assombrações de Azkaban, prisão da qual o tio acabara de fugir.

“Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban” é o terceiro de uma seqüência de sete livros e foi levado às telonas pelo diretor mexicano Alfonso Cuarón (respeitado por filmes como “E Tua Mãe Também” e “Filhos da Esperança”). Muito diferente das duas adaptações anteriores (“A Pedra Filosofal” e “A Câmara Secreta”), que contava com a direção do americano Chris Columbus (responsável por filmes bobinhos como“Esqueceram de Mim” e  “Uma Babá Quase Perfeita”) e tinha como foco um roteiro detalhadinho e fiel a sua fonte, que conseguiu apenas uma ilustração fantasiosa e rasa da história.

O terceiro longa se revelou um salto em todos os aspectos. Enquanto as duas primeiras adaptações eram infantis e fantasiosas, a terceira é mágica e realista.

Os personagens centrais, mais amadurecidos, encontram-se envolvidos em dramas individuais e flertam com sentimentos mais adultos como a raiva, a dúvida, traição, preconceitos sociais e raciais, sem esconder o saliente conflito maniqueísta entre o bem e o mau. Um período de vida onde se descobre quanta insegurança nossas fraquezas nos trazem e quão assustadoras podem ser as conseqüências de nossas forças.

Recomendo atenção especial na observação do quesito Tempo – este elemento esmagador, mas também transformador, é ferramenta elementar na película, e a manipulação mágica deste Tempo é a única capaz de rever a silhueta desenhada pela causa e efeito. O Tempo, que desenhado pela fotografia sempre gélida e úmida, nos transportaàs lembranças que, no longa, se tornam fatos revividos e redefinidos.

Potter evidentemente é o personagem mais corroído por tudo isso. Nesta história, seu único laço familiar (o tio) é também o protagonista no assassinato de seus pais. Seu inimigo, antes centrada apenas em Woldemort (que por curiosidade é o único livro que este personagem não aparece), agora se multiplica em outros como Draco Malfoy, Snape, Dementadores e o próprio tio Sirius Black.

O menino órfão, promessa da salvação do mundo bruxo, é apenas um garoto solitário procurando conhecer-se principalmente na exclusão do que não se é. Alguém que apenas busca construir uma rota de fuga, que considera o mistério uma medida para protelar um fardo iminente. Um evitar ver, ou melhor, se ver e descobrir o quão doloroso é tentar se definir por sentimentos desconhecidos que ocasionalmente provocam resultados indesejados.

Em síntese, a mão do diretor Cuarón salientou a tênue linha entre o obscuro e o sóbrio dos livros de Rowling, conseguindo manter-se autoral, mostrando além da simples sobreposição de imagens. Mas, fiel a uma estética própria e características de grandes encenadores, mesmo no comando de um blockbuster de sucesso mundial.

Ficha Técnica do Filme

  • Título: Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban
  • Direção: Alfonso Cuarón
  • Elenco: Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Gary Oldman, Robbie Coltrane, Michael Gambon, Maggie Smith, Alan Rickman
  • Gênero: Fantasia, Aventura
  • Duração: 2h 21m
  • Ano de Produção: 2004

Ficha Técnica do Livro

  • Título: Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban
  • Escritora: J. K. Rowling
  • Editora: Rocco
  • Total de Páginas: 348
  • Ano de Publicação: 2000

Sobre o Autor

Valdir Rocha
Valdir Rocha

Confessa ter um fraco por literatura e cinema, saboreia dança e também teatro, as artes plásticas costuma degustar com uma musiquinha de sobremesa, espirra algumas opiniões sobre o que vê e ouve.


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