Dica de filme: Asas do Desejo

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“Quero sentir um certo peso que ponha fim à falta de limite e me prenda no chão.
Eu gostaria de dizer “agora” a cada passo, cada rajada de vento.
“Agora” e “agora” e não mais “para sempre” e “eternamente”.
Sentar-se numa mesa de jogos sem dinheiro, ser cumprimentado.
Seria bom voltar para casa após um longo dia, ter febre, dedos pretos por causa do jornal, mentir deslavadamente, sentir os ossos se movendo enquanto se caminha, supor em vez de saber sempre, ficar sozinho, deixar acontecer…”

O fragmento acima é parte do filme Asas do Desejo, um diálogo entre dois anjos que versam sobre a beleza da finitude das coisas, deixando escapar a inveja que nutrem a respeito do sentimento humano. Dirigido por Wim Wenders, podemos afirmar que é também um sensível retrato da alma germânica recém destruída pelas conseqüências da Segunda Guerra Mundial.

O longa conta a história de uma dupla de anjos que perambulam pela Berlim pós-guerra e tentam confortar as angustiadas pessoas que encontram pelo caminho, até que um dia um deles se apaixona por uma trapezista e decide se tornar humano.

Nossos protagonistas (Damiel e Cassiel) são o avesso do estereótipo angelical: vestem-se com um sobretudo escuro, vêem o mundo em preto e branco e desejam sentir as mesmas sensações humanas.

Embora bastante verborrágico, o filme quase não é dotado de diálogos. O que vemos são indivíduos que dialogam com a própria solidão. Vozes de pensamentos “ouvidos” apenas pelos personagens principais. Pessoas com seus interiores desolados, se escondendo dentro de si e tentando estabelecer um sentido viável para cada instante insuportável.

A presença da guerra arraigada, pessoas sozinhas, almas cansadas. Existe um muro que divide os indivíduos, fronteiras não apenas físicas que só não são maiores que o questionamento sobre o que deu errado e sobre o que permitiu a construção destas delimitações.

Apenas as crianças e cegos conseguem realmente ver os anjos, metaforicamente exclui deste contato com a divindade a geração madura que cunhou as atrocidades nazistas. Em paralelo, outra metáfora reside: anjos como seres invisíveis, telepáticos, únicos capazes de descortinar os cacos dos corações alemães corrompidos pelo nazismo. Únicos que podem acompanhar os indivíduos imersos em suas mazelas e realidades esmagadoras.

Entretanto estes anjos que acalentam a dor são os mesmos que percebem que a dor maior é não sentir dor, e que as incoerências é que dão sentido à alma. Anjos que questionam a própria existência e afirmam o eu na medida em que observam o outro:
Como compreender a alma humana sem ser humano?
Tornar-se humano é assumir o risco?
Sentir-se só, ser um ser… viver o efêmero?

Flashes de imagens mostram paisagens destruídas pela guerra. Farrapos do holocausto que revelam cidades bombardeadas e as almas dos alemães como um espelho desta ruína. Então, a esperança entra em cena, o preto e branco ganha uma expressividade colorida quando um dos anjos alcança seu desejo de se tornar humano.

Entretanto, antes do “vir a ser”, faz-se necessário “voltar a ser”. Pois, para criar um mundo novo de novo é preciso tatear a realidade como uma criança, deixar espaço para o esquecido existencialismo inocente do coração infantil:
“Por que eu sou eu e não você? Por que eu estou aqui e não ali? Onde termina o tempo e onde começa o espaço?”

E se temos a impressão de estarmos flutuando num poema, não é por acaso, a obra foi inspirada na poesia de Rainer Maria Rilke, um lirismo impregnado que faz deste longa um filme-poema, que deve ser saboreado tanto pelas palavras de suas imagens, quanto pelas imagens de suas palavras.

Assim como seus anjos, Wenders parece estar com sua cabeça reclinada sobre o ombro do cidadão alemão, somente para lembrar que o pior também é efêmero e que apenas o amor pode colorir a cena.

Ficha Técnica

Título: Asas do Desejo

Título Original: Der Himmel über Berlin

Roteiro, Produção e Direção: Wim Wenders

Elenco: Bruno Ganz e Peter Falk

Gênero: Drama

Duração: 2h 10 m

Ano de Produção: 1987


Sobre o Autor

Valdir Rocha
Valdir Rocha

Confessa ter um fraco por literatura e cinema, saboreia dança e também teatro, as artes plásticas costuma degustar com uma musiquinha de sobremesa, espirra algumas opiniões sobre o que vê e ouve.


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