Em busca da comunhão com Deus

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Muito jovens, as religiosas da Fraternidade “O Caminho” chamam atenção pelo desprendimento que lhes é peculiar. Metrópole foi conhecer o estilo de vida que elas levam.

Despojadas, elas exibem os pés descalços pela rua ou em sandálias de sola fina. O hábito marrom e o sorriso largo no rosto entregam que a vocação é voltada para tornar melhor a vida dos mais necessitados. Assim, as religiosas que cuidam da Capela de Adoração Perpétua, na Vila Carolo, seguem levando adiante a vida dedicada aos pobres e à adoração de Deus, levando consolo e alegria aos que ali as procuram.
Ao todo, no entorno da capela moram 14 moças religiosas, entre professas, noviças, postulantes, aspirantes e aquelas que passam por vocacionado interno – que ainda não colocaram o hábito, mas já se despojaram dos cabelos e dos sapatos. Ali elas se dividem entre duas casas e os cuidados com o ambiente, entre estudos e aprimoramento do trabalho religioso. Os sotaques se misturam e a receptividade das jovens independe da origem. Há irmãs paulistas, paraenses, amazonenses e de outras regiões do país. Em todas elas, espaço para conversa.
A capela de que cuidam, por si só, merece uma visita. O lugar de contemplação, que fica na saída da cidade, no Km 1 da BR 369, pertinho do campus da UTFPR, é aberto ao público todos os dias e, nos fins de semana, há celebração de missas. Em todos os dias, no entanto, as religiosas estão presentes seja na capela ou nos jardins, rezando ou esperando por uma conversa. E foi com a receptividade e a alegria características da Fraternidade que nos receberam.

Irmãs alegres
Expansiva, falante, risonha. Aos 24 anos, irmã Consolata já passou sete dentro da Fraternidade. Foi aos 17 que assumiu a vontade de se tornar religiosa e começou a se preparar para isso. Passou por retiro e acompanhamento e teve certeza de que deveria dedicar sua vida aos pobres, carisma da Fraternidade. “Deus quando chama nunca deixa dúvida. No começo dá muito medo, claro, mas o que move a vida de um religioso é o amor”, conta.
O maior medo, explica ela, é o de deixar a casa dos pais, de tomar esse rumo diferente da maioria das pessoas, largar os bens materiais e levar uma vida de pobreza, dedicada aos pobres. Enfrentou resistência da família, mas mesmo na adolescência, afirma que sabia o que seria. Hoje leva no peito a medalha e nos pés sandálias e poeira. O nome religioso, Consolata, é o único que usa agora. Desde que saiu de São Paulo passou por missões em Recife-PE e Governador Valadares-MG. Chegou aqui no fim do ano passado, com uma missão diferente.

“Deus quando chama nunca deixa dúvida. No começo dá muito medo, claro, mas o que move a vida de um religioso é o amor”

O carisma, ou a vocação da Fraternidade O Caminho é de ajudar os pobres, de diferentes formas, explica. Com ação voltada principalmente para a juventude envolvida com drogas, de onde surgiu há diversas casas espalhadas pelo país com o objetivo de propagar essa missão. Aqui é diferente. “Nossa missão é nos consumir em oração, cuidar da capela e atender às almas que vêm em procura de oração”, salienta Consolata.
Oblata possuiu o hábito diferente da primeira irmã. Ela também tem sete anos de vida religiosa, mas é noviça. Conheceu O Caminho apenas nos últimos anos. Decidiu ser freira aos 14, mas com resistência da família, completou os 21 anos no interior do Pará para só na maioridade ingressar na vida religiosa. Ficou cerca de três anos em um convento carmelita, mas não estava feliz. “Quem mora em convento pode tirar férias e aproveitei para conhecer a Fraternidade, em Belém, e decidi ficar. Minha vocação não era para Carmelo, para a clausura”, conta. Ela está no segundo ano do noviciado e deve professar seus votos assim que acabar o período de dois anos.

Escolha complexa
Priscila não tem nome religioso – ainda. Tem 22 anos, um diploma universitário recém-conquistado e um sorriso no rosto, além dos pés descalços. Está na missão em Campo Mourão desde janeiro deste ano, quando começou o vocacionado interno. Faz poucas semanas que colocou o hábito e ganhou sua primeira medalha.
Ela veio de Moreira Sales e conheceu a Fraternidade por acaso. A mãe viria buscar as religiosas para um retiro na cidade natal, mas não pode vir. Ela conheceu o lugar, participou do retiro e a inquietação sobre o que queria para sua vida surgiu. A expectativa do começo da vida profissional ficou pra trás e ela decidiu que queria viver de outra maneira. Também não foi fácil. “Muitos amigos meus ainda não acreditam. Meus pais também não conseguiram entender de imediato, mas eu quero isso pra mim”, revela. “Minha formatura foi em dezembro, em janeiro cheguei aqui para ficar”, completa.
O que ficou para trás, para ela pouco importa. Quando entrou na Fraternidade, afirma, sabia que não teria mais o conforto de casa, as mordomias, a vida que muita gente leva sem perceber o quanto tem. Com um sorriso sereno, levanta os olhos para dizer que está muito feliz com a decisão que tomou, porque encontrou aquilo que não tinha antes. “As pessoas acham que a gente vai deixar tudo pra trás. Na verdade, o que a gente está deixando é o nada”, complementa.

Missão cumprida
As religiosas da Fraternidade sobrevivem de doações feitas pelos devotos e também por instituições. Não têm nada mais do que o necessário para a sobrevivência, tanto que as doações, quando acontecem em grandes proporções, caso dos alimentos, são prontamente divididas com as pessoas carentes da vila do entorno, ou encaminhadas para outras ações. Todo o trabalho realizado na capela é feito por elas, que se dividem para realizar todas as tarefas e aprofundar os estudos religiosos, assim como prestar atendimento e solidariedade às pessoas que as procuram.

“Muitos amigos meus ainda não acreditam. Meus pais também não conseguiram entender de imediato, mas eu quero isso pra mim”

Além das celebrações, todos os domingos há curso de formação para jovens na capela. Aproximadamente 60 jovens participam continuamente dessas formações, alguns já antecipando uma futura formação religiosa. É o caso da estudante Tailine de Santi, de 14 anos, que deseja seguir a vida na igreja. Ainda muito jovem, ela precisa amadurecer e ter esse amadurecimento acompanhado para, no futuro, poder ingressar na congregação. A partir dos 17, com autorização dos pais, pode começar sua preparação em período integral na casa.
Hoje, a Fraternidade, que ainda não completou uma década de existência, tem 44 casas espalhadas, a maioria no Brasil.

Fotografia: Gracieli Polak


Sobre o Autor

Gracieli Polak
Gracieli Polak

Gracieli Polak é jornalista e blogueira, especialista em escrever sobre quase todo assunto – especialmente os que lhe agradam.


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