As uvas do Vale do Rio da Várzea

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Uvas-Vale-do-Rio-da-Varzea-IMG_8227Em algumas horas do dia, o lugar parece um pedacinho da Europa. O amanhecer enquadrado por um parreiral dá à paisagem um encanto próprio, que dificilmente alguém falaria que faz parte da geografia de Campo Mourão e fica bem pertinho da cidade.

Na paisagem agradável e curiosa, localizada na região do Barreiro das Frutas, vale do Rio da Várzea, a cerca de 10 minutos do centro da cidade, o ex-bancário Carlos Singer está produzindo uvas e sonhando em implantar na região um novo vale dos vinhedos.
Descoberta por acaso, a propriedade foi comprada há dois anos pelo filho, Júlio Singer, e o objetivo era sair da cidade e morar no campo, voltar às origens da família. O terreno no Vale do Rio da Várzea é acidentado, muito parecido com a região onde Carlos Singer nasceu e pisou as primeiras uvas, logo que aprendeu a andar. A área estava abandonada e cheia de goiabeiras, foi preciso prepará-la muito para deixar no ponto de plantio.  O que o fez acreditar e investir, principalmente em trabalho, foi a qualidade do solo, a quantidade de água e a proteção dos ventos, pelas encostas do vale. O lote fica de frente para o sol nascente, ideal para o plantio da videira, as condições são ideais, podendo assim realizar o sonho de plantar uvas e lembrar a infância no Vale do Rio do Peixe, na região de Videira, em Santa Catarina.
Carlos fez o primeiro plantio – cerca de 600 plantas – em novembro de 2011 e a primeira colheita foi realizada em dezembro de 2012, apenas 13 meses após o plantio. “Uma surpresa para o teimoso”, como ele afirma. A produção foi vendida para o mercado local e não sobrou para produção de suco ou vinho, como queria. Já que a procura por uvas rústicas é grande na época de Natal e Ano Novo.
Na chácara, as variedades plantadas são as americanas Bordeaux e Izabel-precoce e a produção foi considerada excelente pelo produtor – e praticamente sem aplicação de fungicidas ou pesticidas. Carlos agora pretende efetuar uma nova poda em fevereiro e ter uma safrinha em julho.  Ele esclarece que “a primeira safra se dá com um ano após o plantio, mas com as novas técnicas de produção, é possível realizar duas por ano, sendo uma normal em dezembro e outra menor em julho”.
Na propriedade também há parreirais mais novos, em formação, com as variedades Niágara branca e rosada. Estas mudas foram enxertadas em julho e levadas para o campo em outubro e devem produzir no final do ano. Carlos faz todo o serviço, só tem trabalhadores para a capina e alguns serviços mais pesados como, palanques e esticar arame, por exemplo. Ele começa a preparação das mudas no seu viveiro, fazendo manualmente os enxertos com uma técnica difundida pela Embrapa, chamada enxerto de mesa, o que adianta a formação das mudas e é mais seguro para o produtor. O sistema de plantio conhecido como espaldeira, também tem ajudado, produzindo uma uva mais doce, em função de receber maior quantidade de sol, se comparado com sistema latada. “Todo processo produtivo é natural, sem calcário, adubos ou herbicidas. Meus inimigos hoje são as abelhas e os morcegos. Até tinha medo de que os venenos das plantações próximas chegassem aqui, mas a localização da propriedade ajudou a evitar este problema”, disse.
As técnicas que aprendeu buscando informações em livros, Emater, cooperativas e aplicando tecnologia da Embrapa se complementam com a experiência, trazida dos avós e pais, que foram produtores de uva e vinho. Nascido em Videira, em Santa Catarina, trouxe como herança familiar as técnicas e a paixão pelo vinhedo. “Com o que aprendi na família, fui atrás do que havia de mais moderno em tecnologia, quis plantar uvas desde sempre”, fala. Foi bancário, mas sonhava ser vinicultor.
Singer defende que a produção é vista como fruto da sua teimosia porque os entendidos dizem que uva rústica – nas condições em que queria implantar – não seria possível em função do clima, altitude e, principalmente, os herbicidas e pesticidas, usados nas lavouras de soja. “Acho que foi a mistura de sangue alemão, russo e italiano, que me fez levar adiante a ideia de produzir neste Vale. E tem ainda uma combinação ideal que descobri a partir da localização, entre sol, umidade, proteção dos ventos e o solo, ou seja, um microclima único. Além disso, o plantio é intercalado com outros produtos que não dão sombra, e melhoram o solo, corrigem o PH, como o amendoim, que permitem um solo sempre drenado e nitrogenado, como a uva precisa e gosta”, defende.
Seguindo os passos da família, Carlos também mantém uma minifábrica de sucos, com as uvas Bordeaux, seguindo os padrões que o avô paterno trouxe da Alemanha há mais de 100 anos.  A ideia, para breve, é industrializar a uva, produzindo suco. Para isso depende de grande quantidade de matéria prima (uva) e está iniciando um trabalho de incentivo aos produtores do Vale para produzirem. Ele se propõe a dar ajuda na produção de mudas e projetos para financiamento, com contrato de compra da produção. “Pretendemos industrializar a partir de 2014 e vamos precisar de 500 mil quilos de uva. Vamos trabalhar para a formação de uma associação de produtores e transformar o Vale do Rio da Várzea no vale mais rico e cobiçado do Estado. Queremos industrializar um produto com a mesma qualidade que faço atualmente, de forma artesanal, puro, sem conservantes ou adição de qualquer outro produto que não seja uva. Queremos agregar valor e renda às propriedades do Vale. Vamos transformar a nossa propriedade em um berço de informações para outros que queiram produzir uvas em torno e estamos caminhando para isso, já temos vários vizinhos interessados”, analisa.

Fotografia: Fernando Nunes


Sobre o Autor

Regina Lopes
Regina Lopes

É jornalista há 27 anos, editora da Revista Metrópole e jornalista da Prefeitura de Campo Mourão.

3 Comentários


  1.  
    Silvio Vilczak

    Sonia Castro Singer




  2.  
    Silvio Vilczak

    Ana Carolina Castro Singer




  3.  
    Silvio Vilczak

    Carlos Singer Odontologia Especializada





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