Bernardo Matos, homem de fases

Envelopes, ossos, galhos, raízes, rolhas, latas, embalagens, pedaços de móveis antigos abandonados na rua: o que a um olhar comum não passa de tranqueira cotidiana, na cabeça e na obra de Bernardo Matos vira arte – e boa arte!

A casa é uma atração à parte na pacata rua É por si só uma obra de arte em uma fachada comum, emoldurada por esculturas e uma dezena de gatos, menos tímidos que o dono. Dali, o barulho mais comum não é dos carros da rua, mas da água do jardim que corre cadente entre uma obra e outra, incluída na pulsante produção de um artista denso, sensível e provocante, focado em agradar a apenas uma pessoa com sua arte: ele mesmo.

Bernardo Matos nasceu em uma província portuguesa , na década de 1950, mas veio para o Brasil, com os pais, aos três anos. “Nasci em Vênus”, brinca com o nome de sua terra de origem, já revelando que se acha meio extraterrestre. Primeiro a família se estabeleceu em Maringá, mas foi em Campo Mourão que os Matos encontraram um novo lar, com a Praça da Catedral servindo de quintal. Construindo brinquedos com os amigos, na infância, percebeu a vocação para as artes. Antes disso, pelas memórias do pai, conta que desenhava no pó de pára-brisas. “Mas nem me lembro disso. É o que ele me conta”, ressalta.

Por brincadeira, na juventude, construiu com objetos comuns uma réplica da famosa motocicleta usada por Peter Fonda no filme “Easy Rider” (“Sem Destino”). Por incentivo de amigos expôs a obra – e foram os elogios resultantes do trabalho que fizeram com que ele continuasse a recriar objetos.

Calmo e observador, admite que o reconhecimento o impulsionou, mas hoje não significa tanto. Não dá e não vende suas criações. Acumula quadros nas paredes, esculturas pela casa, pelo quintal, na primeira casa da chácara em que viveu, hoje seu depósito de arte e de material, seu local de criação e invenção. “Não dá para entrar ali. Tem coisa entulhada por todo canto”, avisa.

Para mostrar um pouco do vasto universo desse artista, que se autodenomina um homem de fases, Metrópole se infiltrou nesse universo particular e traz as faces e as fases do artista e do homem Bernardo para seus leitores.

 

O artista juntador

Ao lado da casa dos pais, ainda na infância, Bernardo começou a juntar os primeiros pedaços de suas obras: retalhos da Loja Renascença. “Vinham aqueles sacos grandes cheios de tecido e eles jogavam fora. Pegava aqueles sacos e fazia a lona de um circo. Fazia um circo inteiro. A molecada se reunia para brincar junto”, relembra.

Anos mais tarde, estudando em Curitiba, achou bonitas as madeiras de caixas de frutas, em uma feira. Levou-as para casa e deixou o feirante agradecido, por se livrar daquela “tranqueira”. Preparou uma exposição e ganhou menção honrosa. No outro ano, o primeiro prêmio pelos pequenos quadros. “Achei bonitas aquelas madeirinhas. Uns nós bonitos mesmo. Pedi, levei pra casa e criei em cima daqueles desenhos”, conta.

A mania, depois daquilo, só foi crescendo e uma plaquinha em seu atelier hoje pede proteção divida para tamanha bagunça. E cada passo é uma surpresa. Caroços de frutas, penas, tampas de garrafas, as garrafas inteiras, potes, madeiras e uma infinidade de materiais se juntam, alinhados na desorganização. A mania da vez, conta, é juntar pedaços de móveis antigos, pelas ruas mesmo. “Por si só eles já parecem obras de arte. São muito bonitos. Se eu ver, recolho mesmo”, admite.

 

O artista plural

Do convencional para o inusitado, a distância de um extremo a outro de sua obra é de um passo. A mente ativa e inquieta, ligada a toda hora, não permite uma cronologia. Por este mesmo motivo, pela criatividade 24 horas por dia, Bernardo não conseguiu se dedicar exclusivamente a uma técnica, a um estilo. Seu estilo são todos eles, sem nenhuma grande influência, admite.

O traço plural, no entanto, trouxe com ele muitas críticas. “Fui muito recriminado por críticos de arte. Um ou outro que me salvava. As críticas eram porque eu apresentava um tipo de trabalho para uma exposição, outro para outra. Diziam que eu não tinha estilo”, lembra. “E foi sempre assim, porque uma hora estava fazendo um carro, daí comecei a fazer escultura com ossos de animais, outra época estava fazendo escultura em ferro. Teve a época da pintura, a época da pilogravura, do sulfite, dos envelopes… Nunca sosseguei”, pontua.

O exemplo disso é sua casa. Não contente em ocupar cada cômodo com obras suas e de amigos, transforma o jardim passo a passo com suas intervenções. A maior e mais célebre delas é um túmulo estilizado, pronto para recebê-lo um dia. “Ele está registrado e tudo, mas nem sei se vou poder ser enterrado aí, porque tem muita burocracia. É preciso mandar uma papelada para Brasília, gastar um dinheirão… Mas que eu gostaria, gostaria”, revela. “Dizem que quando você morre fica vagando por uns tempos na nova morada. Não quero ficar tropeçando nos túmulos dos outros no cemitério, aqui já estou habituado”, se diverte.

 

O poeta

Não bastassem as obras diversas com todo tipo de material, os versos também não escaparam de Bernardo. Brincando com as palavras, escreveu três livros de poesia: “Migalhas”, “Delírios” e “Feira do Poeta”. Foi convidado para participar da Academia Mourãoense de Letras (AML). Aceitou. “Só não sabia que não podia sair. Virei imortal sem saber”, conta.

Apesar de fazer parte da AML, não participa das reuniões e eventos. Conta que o primeiro entrave foi a aquisição da pelerine. “Não gostei dessa história de usar uniforme, gosto de andar do meu jeito a qualquer hora”, afirma. Por todo um contexto, achou que não deveria fazer parte.

Brinca com isso, assim como brincou com os envelopes que nem sempre lhe levaram boas notícias. Para ele, inteligência é castigo. “Meu pai fala que inteligência é uma dádiva de Deus, mas sempre respondo que muito pelo contrário. Vê se os animais que não têm inteligência estão se matando, se arrebentando, ferrando com o planeta? Deus deu inteligência como castigo, pra gente ver o que é bom pra tosse. E estamos aí nos ferrando”, profetiza.

 

O sobrevivente

Formado pela Escola de Belas Artes, Bernardo não pensava em ser professor. Também não pensava em criar um consórcio de artes na cidade, mas fez as duas coisas.

Recebeu convites para ficar em Curitiba, mas vários motivos o fizeram preferir a segunda terra natal. Voltou para Campo Mourão e, num insight cotidiano, percebeu que poderia sobreviver de sua arte. Criou um consórcio, vendeu suas peças para amigos, depois vendeu obras de artistas amigos, no mesmo sistema. A ideia propiciou o sonho da chácara. “Foi com o dinheiro daquela época que comprei esse terreno”, conta.

Com o aumento exagerado da inflação nos anos 90, o negócio se extinguiu, mas ele estava em uma nova fase, de novos projetos, mas de menos produção artística. “Nunca pensei em dar aula. Mas, fiz Belas Artes e um dia um amigo meu sugeriu que eu desse aulas, conciliasse minha produção artística com a escola”, conta.

Resolveu experimentar, pelas beiradas. O que não esperava é que o magistério tomasse conta de grande parte da sua vida, do seu trabalho. “Topei, mas no primeiro ano não deu pra continuar produzindo. Achei que fosse por falta de experiência, mas no segundo e no terceiro também não deu e quando vi já tinha passado bastante tempo”, relata. Mais de 20 anos.

Hoje ele lamenta esse tempo, apesar da oportunidade de influenciar outras pessoas com seu trabalho. “Continuei fazendo alguma coisa, mas não aquilo que eu queria. Gosto mesmo de escultura, mas meu tempo é bem escasso para isso”, reclama. No meio tempo, se dedicou a coisas mais rápidas, cotidianas, como os envelopes – para extravasar.

Com um pouco de amargura, espera pela aposentadoria, para poder voltar de vez à ativa. “Mas penso que, daqui a dez anos, talvez eu não consiga mais fazer esculturas, que é o que realmente eu gosto de fazer”, lamenta. Enquanto o descanso não chega, preenche seu espaço de passado.

 

O colecionador

Nas paredes de sua casa Bernardo acumula obras, mas não só suas. Entra em cena o colecionador, embora ele não se reconheça como tal.  “Sou um grande juntador das coisas”, brinca. No primeiro andar da residência de três pisos, somente obras suas. Nas escadas, começa a miscelânea: obras de Fernando Calderari, Elvio Benito Damo, Roque Medeiros, Vilmar Lopes e Octávio Araújo, entre outros nomes consagrados, se misturam, formando uma combinação inusitada.

As coleções não se restringem a objetos de arte. Em diversos ambientes latinhas de cerveja e refrigerante dividem espaço com as obras consagradas. Vidros de perfume de várias épocas e distinções compõem harmonicamente uma mesa de canto. Em meio a tantas pequenas reuniões de conceito, a extensa “junção” de vinis se sobressai.

No galpão, algumas centenas deles estão ali por estar. São sertanejos, caipiras: “Coisas que não costumo escutar sempre. Mas escuto muita coisa, sem preconceito”, revela. Os discos renegados, no entanto, apesar de em quantia numerosa, somem perto da verdadeira reunião de vinis. Somente discos de Raul Seixas autografados, ele tem seis, mas não é um desses que ele faz questão de mostrar e de escutar.

 

Bernardo, o homem

A música se chama “Será que eu vou virar bolor?” e foi gravada pelo músico Arnaldo Baptista, líder do grupo Mutantes. Na sala aconchegante, depois de mais de duas horas de uma conversa vibrante, Bernardo coloca o disco no tocador, senta, encosta a cabeça e se transforma. O som abafado do disco antigo toma conta do cenário.

Antunes canta que está se apegando muito às coisas, se pergunta onde está seu rock’n roll. Bernardo se cala, se emociona. Espera que a música acabe para mais uma vez colocá-la. Acerta um novo trecho, enxuga as lágrimas. Como na música, não sabe de onde vem tanto apego, não sabe direito onde se perdeu. Culpa o magistério pela falta de tempo para suas esculturas, acusa as necessidades sociais por ter seguido uma vida a seu modo comum, se sente amargurado. Apega-se aos seus sonhos, sorri, volta para suas obras, pra sua bagunça e crê. Crê que inteligência é castigo.

Olhos:

“Dizem que quando você morre fica vagando por uns tempos na nova morada. Não quero ficar tropeçando nos túmulos dos outros no cemitério, aqui já estou habituado.”

“Meu pai fala que inteligência é uma dádiva de Deus, mas sempre respondo que muito pelo contrário. Vê se os animais que não têm inteligência estão se matando, se arrebentando, ferrando com o planeta? Deus deu inteligência como castigo, pra gente ver o que é bom pra tosse. E estamos aí nos ferrando.”

Anotei um poema dele, que acredito ser interessante incluir em alguma página:

Não desista, resista e insista.

Prove a sua existência: exista.


Sobre o Autor

Metrópole Revista
Metrópole Revista

Revista de variedades.

Um Comentário


  1.  
    Liliane Zarke

    Amei suas aulas…não se preocupe daqui 10 anos você vai conseguir voltar a fazer esculturas, mas enquanto isso continue esculturando vidas por cada aula dada..mto orgulho de ter tido a oportunidade de ser sua aluna. valeu a reportagem!!





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