Acordes e encontros

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“Sonhar, mas um sonho impossível. Lutar quando é fácil ceder. Vencer o inimigo invencível. Negar quando a regra é vender. Sofrer a tortura implacável. Romper a incabível prisão. Voar num limite improvável. Tocar o inacessível chão. É minha lei, é minha questão. Virar esse mundo, cravar esse chão.” (Sonho impossível)

Os versos de Chico Buarque constantemente nos fazem lembrar o quanto a nossa música é bonita. Explorando este rico universo que também se embrenha pela literatura e teatro, os idealizadores do projeto sócio-musical Acordes e Encontros descobriram um jeito diferente de popularizar a obra do artista apresentando um musical com os jovens talentos que estão revelando.
“E pela minha lei, a gente era obrigada a ser feliz.” (João e Maria)

Criado como um trabalho voluntário para oferecer aulas de música aos adolescentes do jardim Paulino, no grande Lar Paraná, o Acordes e Encontros foi formatado em 2009 e, com verbas do Fundo de Atividades Especiais-Fepac da Lei Municipal de Incentivo a Cultura, ganhou em profissionalismo e conteúdo – e já atendeu a mais de 200 estudantes entre 11 e 17 anos. “Nós tínhamos um trabalho na igreja e percebemos que faltava lazer e entretenimento para as crianças e adolescentes da comunidade, em sua maioria de famílias de baixa renda. Começamos voluntariamente com aulas de música e, por indicação de um amigo e músico, Marcelo Simões, nos inscrevemos no Fepac, para poder ampliar as oportunidades para mais crianças e qualificar melhor o que a gente oferecia. Deu certo, fomos aprovados e desenvolvemos as ações na escola Antonio Teodoro. Participamos por duas edições do Fepac e vamos fechar esta segunda etapa com 10 apresentações com obras de Chico Buarque”, fala William Versori, um dos proponentes e realizadores do Projeto.

Roda mundo, roda-gigante, rodamoinho, roda pião. O tempo rodou num instante, nas voltas do meu coração…
No peito, a saudade cativa faz força pro tempo parar.
Mas, eis que chega a roda-viva e carrega a saudade pra lá. (Roda Viva)

“Você que inventou a tristeza, ora, tenha a fineza de desinventar. Você vai pagar, e é dobrado, cada lágrima rolada nesse meu penar.” (Apesar de você)

Com o Fepac, o grupo pode comprar violões e outros instrumentos, seguindo com o ensino de música. Nas aulas, os adolescentes aprendem violão, canto, percussão e iniciação musical, com teoria musical e leitura de partitura. Quando Metrópole esteve na escola acompanhando o Projeto, os participantes estavam em uma roda prática, com os professores orientando, onde todos observaram e eram observados, criando uma rotina de trabalho dinâmica e bem proveitosa. “Dividimos em turmas de 10 alunos e por níveis, conforme a aptidão e evolução de cada um, com avaliações que fazemos trimestralmente. No nível 1 temos a iniciação musical, postura do corpo com instrumentos, conhecimento dos instrumentos (cavaquinho, guitarra, baixo acústico, violão) e notas. No nível 2 eles já lêem partituras e as demais formas de leitura com letras, cifras, tablatura, e conhecem os movimentos rítmicos brasileiros. O pessoal do nível 3 já formam um grupo para projetos de extensão e agora é quem ensaia a obra de Chico Buarque para se apresentar e realizar a parte final do projeto”, fala Lisiê Sambati uma das instrutoras.

Roda mundo, roda-gigante, rodamoinho, roda pião. O tempo rodou num instante, nas voltas do meu coração… No peito, a saudade cativa faz força pro tempo parar. Mas, eis que chega a roda-viva e carrega a saudade pra lá. (Roda Viva)

As ações do Acordes e Encontros também passam pelo resgate da musicalidade, onde os alunos recebem minicurso de viola e aprendem a fabricar instrumentos de percussão, como reco-reco (ganzá), coquinho, afoxé, triângulo, usando materiais alternativos como ferros velhos, bambu, cabaça e ainda aprendem de tudo um pouco, tocam surdo, meia lua, cavaquinho, instrumentos de percussão, de corda, entre outros.
Antonio Paulino, também instrutor, lembra que neste tempo os alunos também passaram por mudanças comportamentais e sociais. “Aqui na comunidade tem muita precariedade, e esta é a realidade dos nossos alunos. A musica ajudou na autoestima e a tomarem iniciativas para mudar de vida. Outros melhoraram muito na escola, se valorizaram, pelo fato de terem oportunidade de aprender, de se expressar através da musica, se reunir com amigos para tocar um instrumento, colaborar com um grupo fazendo música”, explica.

Para finalizar o projeto estão previstas 10 apresentações da obra de Chico Buarque em espaços públicos institucionais. No repertório 22 músicas e uma oportunidade para o público em geral conhecer um pouco mais sobre um dos grandes nomes da música popular brasileira.

“Propomos um resgate da cultura do Brasil focado em Chico Buarque, nas muitas fases de sua obra, como a crítica social e política, mulheres, e as obras mais teatrais como a Ópera do Malandro. Os alunos assimilaram bem porque a maioria já está no ensino médio”, fala a instrutora Lisiê Sambati. Ela lembra que ainda conheceram o contexto das letras, a complexidade e a qualidade musical da obra antes de aprenderem o repertório que vão apresentar.

Segundo os músicos, o Projeto possibilita aos jovens e ao público o direito de escolha, ouvindo ou tocando músicas diferentes do que se ouve em casa, na escola e na mídia tradicional. “A mídia massifica, não apresenta a cultura brasileira. Oportunizamos educação, concentração, raciocínio lógico, disciplina e eles tem percepção musical aumentada, podem comparar e escolher. O resultado é que descobrimos talentos que, além de terem o dom, têm interesse e se dedicam ao estudo, aperfeiçoando o que aprendem porque gostam, e eles também ficam surpresos ao descobrir que gostam, sim, da boa música brasileira”, fala Wiliam.

“Tem certos dias em que eu penso em minha gente, e sinto assim todo o meu peito se apertar, Porque parece que acontece de repente como um desejo de eu viversem me notar, igual a tudo. Quando eu passo no subúrbio, eu muito bem, vindo de trem de algum lugar, aí me dá, como uma inveja dessa gente, que vai em frente, sem nem ter com quem contar” – Gente humilde.

Em busca de novos rumos
O projeto é conduzido pelos músicos William Eugênio Versori, Antonio Paulino de Oliveira Junior, Lisiê Sambati, Fábio Borges de Souza, Derli da Costa Castro e Cícero Pereira de Souza, todos com formação musical. O desafio dos profissionais agora é tentar sua manutenção, já que acabou o patrocínio pela Lei de Incentivo a Cultura-Fepac. “Vamos tentar o Mecenato porque estamos sem recursos para nos manter a partir de agora e temos muitas crianças participando, seria uma pena não poder levar adiante. Temos o Colégio que colabora com o espaço, mas precisamos de outros recursos para a remuneração dos músicos e a aquisição de materiais de trabalho. Estamos em busca de parceiros para seguir em frente”, fala William.

Renan Faria Pereira, 15 anos. “Eu já tinha interesse pela música, aqui, isso reaviveu. Aprendi novos ritmos, como samba de raiz e aprendi a tocar vários instrumentos. Sei tocar até tamborim. E também fiz muitos amigos, a gente se reúne para tocar, passa horas e se diverte”.

Samuel Castro, 13 anos. “Toco violão e aprendi muito de percussão. A música é paixão de família, mas aqui evoluí muito. Tenho até vontade de formar uma banda. Com os professores aprendi samba, bossa nova e conheci a obra do Chico Buarque e, além das músicas lindas, foi uma aula de história do Brasil”.


Sobre o Autor

Regina Lopes
Regina Lopes

É jornalista há 27 anos, editora da Revista Metrópole e jornalista da Prefeitura de Campo Mourão.


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