Vez e voz para os imigrantes

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LigianeA jornalista Ligiane Ciola é destes valores de Campo Mourão que encontraram em outros países espaço para mostrarem seu talento. Morando há 10 anos na Brescia, região Norte da Itália, trabalha para a RTB Network, uma TV com cobertura Européia. Com o marido José Carlos Leonel, de Maringá, produz um telejornal diário dedicado aos imigrantes, o TG Multiétnico Multilíngüe, que já foi premiado nacionalmente pelo principal jornal econômico italiano, o “Il sole 24 ore”, como melhor Telejornal de televisão local.

Antes de chegar a Brescia, Ligiane, que se formou em jornalismo na Unimar (Marília-SP), trabalhou na TV Carajás, fez cinema em São Paulo e passou por TVs e agências de publicidade em Maringá. Pouco antes de rumarem para a Europa, realizaram o Programa “Acontece – a Revista Eletrônica de Maringá e Região”, uma proposta nova de jornalismo e cultura, mas “uma idéia que não deu certo”, segundo Ligiane, o que os fez se arriscarem em outras cidades do Brasil e por fim a Europa, “sem idéia do que encontraríamos, chegamos há 10 anos no velho continente”, lembra.

Em princípio, os planos eram de ficar por três anos na Itália, mas logo entenderam que era preciso mais tempo para ganhar a experiência profissional que almejavam. “No terceiro mês na Itália já tínhamos conhecido esse canal e apresentávamos, uma vez por semana, o Telejornal em Língua Portuguesa. Além disso, cuidávamos da edição e produção, devagar colocando a nossa marca no produto”, comenta.

Muito dedicados, em pouco tempo ganharam mais espaço na TV. “O proprietário percebeu a diferença entre o nosso telejornal e os outros e nos ofereceu um trabalho fixo para cuidar das outras edições. O primeiro ano serviu para conhecer a língua, a cultura e observar a sociedade. O trabalho inicial foi dar uma roupa nova para o produto que era pouco valorizado pelos colegas da TV e pela sociedade Bresciana”, diz.

Ligiane fala que, em princípio, a idéia era dar as notícias do mundo, mas descobriram que poderiam misturar as cartas, sem perder a marca, e que seria interessante conhecer os imigrantes que vivem na Itália. “No terceiro ano recebemos a promoção de coordenar todo o projeto. Durante esses 9 anos que estamos na TV o telejornal passou por inúmeras transformações e hoje é muito prestigiado em todo País”, ressalta.

Atualmente, além de cuidar da redação das edições em inglês, francês, chinês, punjabi e italiano, ela também apresenta o jornal italiano e responde pela sessão de notícias na página do Telejornal Multiétnico no site da TV. “Hoje, além de nos dedicarmos a esse telejornal, coordenamos outros programas na casa, ligados ao turismo e religião.

Somos o único canal italiano de TV que dedica um espaço de prestígio aos imigrantes. Os estrangeiros hoje na Itália representam 9,8% da população ativa, são mais de 2,2 milhões de pessoas de várias nacionalidades. Além disso, realizamos matérias cotidianas sobre os estrangeiros presentes no país, para a edição do telejornal tradicional do Canal”, explica.

Voz para os Imigrantes

Trabalhando com imigrantes de muitas nacionalidades, Ligiane afirma que “conhecer pessoas todos os dias é algo maravilhoso, com novas histórias e costumes. Vivo para aprender algo de novo constantemente. Também tenho contato com os imigrantes brasileiros em toda a Europa. São escritores, jornalistas, fotógrafos, músicos, bailarinas, pastores – pessoas que buscam conquistar seu pedacinho de terra e sobreviver nesse mundão. A vida em um País estrangeiro não é fácil. É preciso ser forte e enfrentar todos os preconceitos de cabeça erguida e sem medo de errar, pois é só caindo que aprendemos quais são os verdadeiros valores da vida”, ensina.

Conhecer pessoas todos os dias é algo maravilhoso, com novas histórias e costumes. Vivo para aprender algo de novo constantemente.

Ligiane lembra que muitos têm uma tragédia nas costas, fogem de guerra e da fome e, através do Programa, podem ser mostradas sua cultura e sociedade, com eventos culturais desses povos, movimentos religiosos. “Nós somos conhecidos aqui como jornalistas de estrada, damos vozes aos invisíveis. Sou muito satisfeita de ter esse poder na mão e mostrar a todos essa sociedade. O importante para que tudo isso funcione se chama respeito”.

Dando voz aos imigrantes, a jornalista fala da riqueza que estas etnias significam para Europa. “Nem todos os países conseguem ver assim. Conheço histórias de Senegaleses que falam 4 idiomas e que não têm oportunidade. São graduados e o máximo que conseguem é trabalhar de vendedor ambulante. Falo por experiência de vida. O estrangeiro é visto como força de trabalho. São os primeiros a arriscar a vida em trabalhos perigosos, nas fábricas e construções. Felizmente essa fotografia está mudando com a segunda geração, os estrangeiros que nasceram e foram alfabetizados aqui. Mesmo que na Itália ainda não exista uma lei que reconheça a cidadania aos filhos dos estrangeiros, essa é uma batalha que dura anos no Congresso Italiano. Atualmente, se um casal brasileiros opta por ter filhos aqui, mas se não são descendentes de italianos, os filhos não terão direito à cidadania, somente quando completarem 18 anos poderão escolher se querem ou não se tornar cidadãos italianos”, exemplifica.

Ainda sem data para voltar ao Brasil e com muitos mundos para ver e contar ela fala que a experiência tem sido como um doutorado em qualquer universidade do mundo e que seu trabalho tem sido reconhecido pela sociedade.  “Acredito que o reconhecimento é de 100%, seja no lado empresarial, que é a empresa da televisão, seja pela audiência, afinal de contas são 12 anos no ar – nove deles comigo e o Carlos. É uma receita que deu certo e para os próximos anos planejamos outras transformações. O projeto televisivo muda conforme muda a fotografia da sociedade. O reconhecimento pessoal está em saber que durante esses 10 anos de Itália, construímos uma história rica de conhecimento de novos povos, de sociedade e  honestidade. O importante é acordar todos os dias e dizer: ‘Sou feliz, porque faço o que amo e consigo contribuir para uma sociedade melhor’. Afinal de contas, essa é a nossa missão de jornalista: contar histórias de vida, de luta e sobrevivência no mundo que tenta nos devorar a cada minuto”, conclui.

Mais sobre Ligiane Ciola em: www.rtbnetwork.it e www.youtube.com

Fotos: Acervo Pessoal

 


Sobre o Autor

Regina Lopes
Regina Lopes

É jornalista há 27 anos, editora da Revista Metrópole e jornalista da Prefeitura de Campo Mourão.


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