Confraria Reserva Especial: a arte de degustar Vinhos

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O outono chegou e a Metrópole antecipa o clima de aconchego que os meses mais frios do ano trazem. Embarque com a gente e conheça as pessoas que se dedicam a apreciar a bebida em Campo Mourão.

Viña Cristina e Bibiana Colleto, safra de 2006,Vinícola Trapiche. Produzido em Mendoza, na Argentina, o malbec tem aroma muito frutado, delicado, elegante. Os taninos são equilibrados, a aparência ideal, o sabor macio. Pronto para a degustação”.

A avaliação é do médico Alexandre Rezze, que reuniu amigos para uma rodada de bons vinhos e conversa animada, especialmente
para a Metrópole. A pauta da noite? A paixão pelos vinhos e os prazeres da degustação entre amigos. É nesse clima que iniciamos
uma série sobre os apreciadores de vinho que participam de grupos de degustação em Campo Mourão, as confrarias, e trazemos
boas dicas para os admiradores da bebida de Baco.

Uma Reserva Especial
Aos poucos os casais vão chegando, cada qual com sua garrafa e uma sacola com taças. Os lugares vão sendo arrumados, os vinhos abertos e começa o ritual. Cada um pega sua primeira taça, dá uma balançadinha no líquido, cheira, sente bem o aroma e só depois experimenta.Taça por taça os passos se repetem, com reflexões profundas e aromas e sabores que se alteram a cada nova porção. E, de gole em gole, as opiniões são formadas e o paladar fica mais aguçado: qual o melhor vinho da noite? A resposta não pode ser mais interessante do que o próprio ato de degustar um vinho excepcional.

A Confraria Reserva Especial reúne 19 casais para, pelo menos uma vez por mês, degustar vinhos especiais. A ideia surgiu do convívio entre os amigos Alexandre Rezze, Alfredo Ferrari e Maurício Stefanuto, que juntos com as respectivas esposas, começaram a gostar cada vez mais da bebida. Como o lazer estava ficando sério e a confraria reunia outros amigos, mas não existia oficialmente, segundo Alfredo, ficava difícil organizar eventos diferentes. Foi aí que decidiram convidar outros casais e colocar tudo no papel.

Juntando amigos, criando um estatuto, organizando recepções, o grupo foi se estruturando e com uma peculiaridade: só entram casais. “A gente até brinca que, se alguém se separar, está fora”, fala Alexandre. Mas, por que se reunir para tomar vinho?

Primeiro, claro, pela bebida. Segundo, porque conversar sobre ela também é interessante e prazeroso. “O vinho agrega um monte de coisas e a função da confraria é nos proporcionar experiências diferentes de aprendizagem. É uma troca de experiências. Você aproveita para degustar vinhos que sozinho você não abriria a garrafa e passa a se interessar pela opinião dos outros. E, é claro, você tem a oportunidade de aproveitar os vinhos propriamente ditos”, ressalta Alfredo.

De acordo com Alexandre, as pessoas que gostam de vinho têm nas confrarias uma possibilidade de ampliar seus conhecimentos sobre a bebida, não só pela oportunidade de tomar diversos vinhos diferentes ao mesmo tempo, lado a lado, comparando-os diretamente, mas pela necessidade de estudar sobre a degustação a ser realizada.

Assim, uma vez ao mês, são organizadas recepções para todos os confrades, que seguem temas escolhidos por eles. Isso acontece para que saiam da zona de conforto e experimentem produtos novos, muitas vezes boas surpresas. Para as reuniões são escolhidos temas, como a comparação de vinhos feitos com diferentes tipos de uvas, vinhos com o mesmo tipo de uva originado sem países diferentes, safras distintas do mesmo vinho, um vinho excepcional em meio a outros medianos, vinhos de bodegas diferentes de uma mesma região. “No caso da confraria Reserva Especial os organizadores fazem apresentações sobre os vinhos em data show e/ou impressos com os nomes e características dos mesmos, em uma espécie de ‘aula’ para os demais, citando as características de cada um e o que deveria ser observado, naquela degustação, com mais atenção pelo grupo”, ressalta Alexandre.

Como o objetivo das reuniões é a degustação e a apreciação dos vinhos, ela feita às cegas, para que o preço ou a fama não influenciem nas avaliações. Alexandre ressalta que durante a degustação são discutidas as características dos vinhos, cor, aroma e gosto. “Ao final são computadas as notas e eleito o melhor vinho da noite, com oportunidade de todos falarem suas opiniões e considerações para os demais. Muitas vezes as notas e opiniões são comparadas com notas de avaliações de críticos e publicações especializadas como WineSpectator, Robert Parker, Hugh Johnson, Jancin Robbins, Wine Advocate e outros”, reforça.

A discussão, a comparação – inclusive com a crítica especializada – e o estudo, dizem os confrades, é fundamental para que qualquer pessoa possa crescer dentro do universo que é o vinho.

Em qualquer estação
Além das reuniões formais da Confraria, até mesmo para organizar os encontros da mesma, existem miniconfrarias dentro dela mesma, ou seja, pequenas reuniões de amigos para degustar a bebida e um bom papo. Na reunião especial pedida pela Metrópole, os “fundadores” da Reserva Especial ganharam a companhia de João e Aida Fiorese, Fábio e Patrícia Romanello. Os vinhos degustados foram todos da região argentina de Mendoza, bem encorpados, apesar dos 30º C de temperatura lá fora.

Isso desmente quem pensa que só dá para tomar vinhos mais intensos no inverno. Claro que o frio é um condicionante para aproveitar ainda mais a degustação da bebida, mas os apreciadores não param com suas reuniões, mesmo no verão. “É importante criar um clima. Se está calor, ar condicionado é fundamental”, destaca a anfitriã Valéria Rezze. Outra opção para os meses mais quentes, ressalta Alfredo, é partir para vinhos mais leves, como o branco, o rosé ou os espumantes. Para quem pensa que mulher gosta somente de vinhos mais leves, outra surpresa.“O sabor é muito pessoal e não há grandes diferenças de gosto entre os homens e as mulheres. A gente aprecia junto e vinhos bem encorpados também”, revela Regina Ferrari.

Boas escolhas
Escolhido o tipo de vinho, é só partir para a degustação. Mas o que faz um vinho ser bom?

Primeiro, segundo Alexandre, ele tem de ter aroma e sabor de vinho. Isso mesmo, vinho é feito somente de uva, mas nem por isso pode ter cheiro e gosto de uva.“O vinho tem de ter equilíbrio, dividido basicamente em quatro itens: doçura, acidez, taninos e álcool. Não adianta ser muito leve, ou muito suave com muito tanino”, alerta Alfredo. Além dos bons vinhos, que reúnem todas essas características em harmonia, há ainda os vinhos excepcionais, que oferecem várias percepções ao degustador no decorrer da taça. Não consegue ter tantas percepções quando degusta a bebida? Não tem problema.

aplicativoAlfredo explica que a frequência com que se consume vinho é que faz com que as percepções fiquem apuradas. Ou seja, é bebendo vinho que se consegue apreciar ainda mais a bebida. Desde que começaram a levar a sério o consumo de vinhos, ressalta Fábio Romanello, as análises ficaram mais apuradas. A quantidade de produtos já experimentados também, e com a ajudinha da tecnologia, eles armazenam todas as avaliações nos aplicativos dos celulares – mais de 330 vinhos em 18 meses de uso do aplicativo!

Para ajudar a formar esse paladar, a opinião é unânime: tem de experimentar. Mas é preciso começar pelo que mais agrada. “Tem de curtir tomar o vinho, não se preocupar com avaliações técnicas, em encontrar cheiros que não consegue identificar. Tem de tomar o que se gosta para começar a formar opinião”, salienta João Fiorese.


Vinho, um mundo

Com tantas vinícolas espalhadas mundo afora, é difícil conhecer tudo que as garrafas reservam e cada rolha liberta revela novas sensações. Os vinhos importados ocupam sempre um lugar de destaque à mesa, mas os brasileiros começam a chegar a um patamar mais alto. O problema, segundo os confrades, é a constância do vinho nacional, que sofre com as dificuldades climáticas. Até que se produzam vinhos nacionais excelentes, eles garantem que vão continuar experimentando a quase infinita oferta de produto que existe no mercado.

E para quem acha que depois da reunião todo mundo saiu alterado, mais um engano. “Não buscamos degustar em volume, mas sim apreciar a bebida. São camadas de sensações que se sucedem, é só tomar devagar e apreciar”, conclui Alfredo.

Vinhos da noiteVinhos da Noite
Gran Malbec, 2008, Vinícola Pulenta. Aroma ácido, herbáceo, encorpado. Robert Parker, 91 pontos. R$ 160.
Pequeñas Producciones, Vinícola Escorehuela Gascón, 2008. Exuberante no aroma. Wine Spectator, 88 pontos. R$ 98.
Vinã Jorge Miralles, 2008, Vinícola Trapiche. Aroma muito elegante, frutado, certo toque floral, equilibrado, exuberante. Wine Spectator, 90 pontos; Wine Advocate, 94 pontos. R$ 175.
Viña Cristina y Bibiana Coletto, 2006. Muito frutado, macio, elegante, pronto para beber. Wine Spectator, 92 pontos; Robert Parker, 95 pontos. R$ 185.

Dica de Leitura

Quer conhecer mais do mundo do vinho? Aí vai uma sugestão:

livro : vinhos do mundo todoO Guia Ilustrado Zahar “Vinhos do Mundo Todo”, da Jorge Zahar Editor, explica o básico sobre o tema, a história da bebida, o que é “terroir” (a combinação única de clima, solo e topografia) e contextualiza o vinho histórica e culturalmente, além de destacar os principais países produtores. Para completar, traz análises detalhadas sobre características e sabores de centenas de vinhos, as melhores safras e quem as produz.  Um prato cheio para quem gosta da degustação. R$ 84.

Pilares do vinho – por Alexandre Rezze

O vinho é uma bebida muito antiga, secular e bastante complexa, porém com pilares bem sedimentados que devem ser identificados por qualquer pessoa que queira participar deste universo.

Os pilares do vinho são: o açúcar da uva, conferindo riqueza e frutado; o tanino que se origina da pele e sementes da uva e que estão ausentes ou são mínimos nos brancos, porém é a espinha dorsal dos tintos, dando estrutura e longevidade a eles, percebidos como adstringência na língua (o “marrento” ao comer uma banana verde); a acidez, que confere vivacidade à fruta na boca, especialmente nos brancos em que tem a mesma importância dos taninos para os tintos; e o álcool que dá a consistência e solidez ao vinho. A importância de reconhecer essas características em qualquer vinho que se vai degustar é que do seu equilíbrio advém um bom vinho e do seu desequilíbrio um vinho ruim. Isso é básico.

Por exemplo, se o vinho tem muito tanino e pouca fruta (doce), é desagradável de tomar por ser amargo. Por outro lado, se tem muita fruta e pouco tanino é bom no primeiro gole e depois se torna enjoativo. Deve haver o equilíbrio.

 


Sobre o Autor

Gracieli Polak
Gracieli Polak

Gracieli Polak é jornalista e blogueira, especialista em escrever sobre quase todo assunto – especialmente os que lhe agradam.


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