Uma vida pelo Karatê

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O perfil de Metrópole nesta edição é de Sebastião “Tião” Galdino, professor de Karatê e orientador social. É uma entrevista, mas poderia render um livro, tantas as histórias que cabem na sua experiência de vida. Como muitos que superam a perda dos pais na infância e a vida difícil da juventude, ele precisou construir seu próprio caminho e foi no Karatê que encontrou um sentido para sua vida, da sua família, e de muitas crianças e adolescentes que, por meio dos projetos educacionais que criou e dirige, encontraram dignidade.

Tião fez do Karatê sua família. Não é para menos, trabalham com ele o filho Renan Galdino (professor), a mulher Ronise Galdino (faixa preta, professora de Karatê e Educação Física) e o ex-aluno Geovani da Silva, que começou ainda criança (faixa preta, professor de Karatê e Educação Física), entre tantos outros que estão sempre por perto. “Considero-me um homem e um profissional realizado. Muitos me ajudaram, como meu primeiro sensei (professor) Admilto Soares Lopes, que me disciplinou e me deu direção, uma vez que eu era órfão de pai e mãe. As conquistas foram fruto de muita dedicação e incontáveis horas de treinamentos e de aulas. Sempre tive pessoas que acreditaram em mim, me ajudaram a levar os projetos em frente: amigos, patrocinadores, alunos e pais que acreditam que o Karatê contribui para a formação do cidadão. Assim, fizemos disso nossa vida”, diz.

Metrópole – Como o Karatê entrou em sua vida?
Tião – Em 1982, por um amigo que treinava na Academia OSS, em Campo Mourão, onde hoje é a Academia Athletic Sport, e me convidou para assistir seu exame de faixa que seria no dia seguinte.

Metrópole – Como era o tipo de trabalho na época? Competição, aulas, hobby?
Tião – Na década de 1980 ainda era um esporte elitizado e as aulas tinham como finalidade o treinamento, com mais ênfase no kumitê (lutas). As competições eram parte principal deste contexto.

Metrópole – A vida de professor passou onde?
Tião – Comecei em 1985 na Academia Apolo. Depois passei por Piquirívai, Academia Shotokan, em 1987, também na Casa da Cultura, Clube Mourãoense, Country Club, SESC, Pré-escola Trem da Alegria, Academia Bruneta, em Mamborê e Clube 10 de Outubro. Como já dava aula em clubes e era federado, fui convidado para montar o projeto do Esporte no Governo do Estado e, posteriormente, os projetos nas escolas e centros de integração municipais.

Metrópole – Quais foram as maiores dificuldades no começo?
Tião – Convencer a sociedade, alunos e familiares de que a proposta do projeto Karatê não estava embasada em promover violência, e sim, na formação de sujeitos participativos na sociedade.

Metrópole – Sua esposa tem participação importante. Como ela se integrou ao processo?  
Tião – A conheci como minha aluna na Academia Shotokan. A proposta de dar aulas no projeto do Estado se estendeu a ela também, que iniciou sua trajetória como professora no ano de 1998, no município de Araruna. Ela é realizada profissionalmente, acompanho o resultado de seu trabalho há 15 anos e, motivada pela convivência com seus alunos, fonte de seu interesse, ela fez Faculdade e Pós-Graduação em Educação Física, para ter melhor didática na formação do cidadão.

Metrópole – Alguns alunos acompanharam você pela vida e também seguem seus passos. Fale sobre isso.
Tião – Um exemplo é o sensei Geovani da Silva que começou como aluno no projeto aos 11 anos, hoje tem 28; ele já faz parte do quadro de professores de Karatê há 12 anos, e o Patrick Simonetto de Andrade, que também começou criança e é faixa preta, atleta e contador.

Metrópole – Como iniciou e evoluiu o trabalho social?
Tião – O projeto do Estado foi o ponto de partida, uma vez que seu objetivo era de cunho social, ou seja, uma novidade dentro da modalidade de Karatê. Conseguinte, fui à busca de mais conhecimento na área social oferecido pela Federação Paranaense de Karatê-do Tradicional, a qual me fez o convite para dar aulas no Projeto Karatê Piá no Esporte, uma vez que eu era filiado. Vale destacar que o resultado das aulas foi positivo e muitas escolas se interessaram por este projeto de cunho social no contraturno escolar. Em parceria com o Estado, começamos em 1997, em uma escola atendendo 100 alunos. Em 2000, eu tive a iniciativa de oferecer o projeto Karatê nas Escolas ao governo municipal e começamos a parceria com o município e celebramos convênios por meio das Secretarias de Educação, Ação Social e Fecam, contemplando oito escolas, para 800 alunos. Hoje atendemos 20 escolas municipais, oito Centros de Integração e uma Associação de Moradores, beneficiando anualmente mais de 2.000 crianças e adolescentes, grande parte usuários do Bolsa Família, contemplando a faixa etária entre os 6 e 17 anos.

Metrópole – Os resultados conquistados mudaram a vida das crianças que atende?
Tião – O resultado positivo adquirido ao longo dessa estrada não tem beneficiado somente os integrantes do projeto, mas sim toda a sociedade, visto que as aulas contribuem para a formação do cidadão participativo. Isso vem sendo comprovado com as mudanças de comportamento dessas crianças e adolescentes que levam consigo a filosofia do Karatê para fora dos portões do projeto. A observação é sempre feita por pais e professores e reconhecida por toda a comunidade.

Metrópole – Como tem sido o respaldo da comunidade e as parcerias?
Tião – Tanto a comunidade envolvida diretamente apoiando os projetos, como os familiares dos alunos que acompanham as aulas e ajudam durante os eventos, como em datas comemorativas, festivais, campeonatos, dentre outros. Os empresários contribuem com patrocínios, a mídia com divulgação, o Conselho da Criança e do Adolescente com recursos financeiros para a aquisição de kimonos, camisetas e materiais necessários para efetivação das aulas e eventos. A Prefeitura Municipal contribui para custear os professores.

Metrópole – Você sempre foi conciliador. Isso é da sua natureza, da disciplina do Karatê ou da necessidade do seu exercício como profissional da área social?
Tião – Acredito que faz parte deste contexto: a educação dos meus pais, a disciplina do Karatê e também a necessidade de promover o meu trabalho. Considero o Karatê um membro da minha família pelo fato de ter contribuído em minha formação enquanto cidadão ativo na sociedade.

Metrópole – Quais os projetos futuros para a modalidade e como esporte de rendimento?
Tião – Faz parte dos meus planos continuar o trabalho da maneira como vem sendo realizado e me empenhar cada vez mais para angariar mais recursos e parceiros para que o projeto ganhe mais propriedade. No que se refere ao treinamento, embora o projeto não tenha como seu principal objetivo a modalidade enquanto rendimento, são muitos os alunos que se destacam e, como a carga horária dos projetos não é suficiente para a formação de um atleta, alguns recebem uma bolsa para treinarem três vezes por semana na Academia de Karatê Exata e passam a representar o município em campeonatos regionais, estadual e Jogos da Juventude. Isso tem sido importante porque temos conquistado muitas medalhas para a cidade nos últimos anos.

Metrópole – O Projeto já foi copiado em muitos lugares, mas em poucos teve o sucesso de Campo Mourão, a que atribui isso?
Tião – À minha dedicação enquanto professor e coordenador, assim como ao comprometimento dos membros que compõem o quadro de professores e ao apoio do município. Porque, se o projeto for rejeitado pela prefeitura, o professor de Karatê não consegue mantê-lo e em outros municípios, tem profissional, mas não tem apoio.

Metrópole – Alguns dos alunos já têm um futuro projetado no esporte e na vida. Se sente responsável por isso?
Tião – Sim, pois vejo projetado nos que iniciaram ainda crianças ou adolescentes, o resultado do meu trabalho. Como os que já falei:  Patrick, Geovani, Ronise e Bruno, que é graduando do curso de Educação Física, veio do projeto e este ano fará parte do nosso quadro de professores. Tem ainda o Justino Nunes Júnior, que quando criança, frequentava a sala especial e aos 18 anos está concluindo o ensino fundamental. Ele teve um grande avanço pessoal e escolar e é um destaque nas competições, com muitos títulos para o nosso município. Essas são algumas pessoas, entre centenas de bons exemplos e histórias a serem seguidos e admirados. É constante alunos que levam seus irmãos menores para assistirem as aulas e que, mesmo antes de completarem 5 anos, são levados para dentro do projeto, atraídos por sua convivência indireta com o esporte. Há anos presencio a modalidade passando de pai para filho, de irmão para irmão. Outro fator relevante que percebemos com a influência das aulas de Karatê é a melhora de alunos diagnosticados com doenças como bronquite asmática, depressão, pacientes de púrpura e falência nos ossos, dentre outras que, segundo relato de familiares, tiveram melhorias significativas, principalmente no autocontrole emocional.

Metrópole – O que mais exige de um aluno? Disciplina, educação, dedicação, outros?
Tião – A palavra correta não seria exigência e sim esperança. Espero deles uma resposta positiva, acredito na mudança comportamental deles. Tudo acontece de forma natural, respeitando as limitações de cada aluno. A educação, a disciplina, a dedicação são preceitos que fazem parte do aprendizado do Karatê.

Metrópole – O trabalho também te levou a ser orientador social. Como se sente acompanhando os que não puderam ter o Karatê como guia?
Tião – É fato que a minha experiência no projeto me deu suporte para outros trabalhos sociais. A função de orientador social também me permitiu refletir sobre os meus dois trabalhos. Observando algumas situações de abordagem concluí que qualquer cidadão está sujeito a ser uma pessoa em situação de risco, consequências do meio onde está inserido. Comparando as duas realidades, eu não tenho dúvidas de que o projeto é um mediador na formação do sujeito. Pois centenas de alunos nos revelaram que mudaram sua vida. Diferente do Projeto, no trabalho de abordagem de rua não temos nenhuma história com final feliz para relatar. Embora me dedique neste trabalho, assim como nos projetos, a mudança não acontece na vida destes adultos, pois a grande maioria é escravo do vício, outros não tiveram tratamento adequado e possuem distúrbios comportamentais, assim como aqueles que perderam tudo e encontraram na rua o seu refúgio.

Metrópole – Quais os planos futuros para o Karatê e sua vida pessoal?
Tião – Minha intenção é encontrar uma forma de garantir a continuidade do Projeto, principalmente para amparar os profissionais. Hoje a luta acontece anualmente com a renovação anual dos convênios e a cada quatro anos solicitando a continuidade dos projetos ao governo municipal, pois, embora o Karatê seja um Projeto de Lei, depende do aval do prefeito ou prefeita. Na vida pessoal, almejo saúde para continuar fazendo história de maneira participativa, assim como contribuir com o futuro do meu filho e continuar a convivência familiar.


Sobre o Autor

Regina Lopes
Regina Lopes

É jornalista há 27 anos, editora da Revista Metrópole e jornalista da Prefeitura de Campo Mourão.

4 Comentários


  1.  

    Tenho muito respeito e admiração pelo trabalho, equilíbrio, bom senso e dignidade deste profissional e ser humano exemplar! parabéns e que Deus te abençõe grandemente em sua jornada!




  2.  

    Parabéns à Metrópole pela reportagem . quem conhece essa família sabe de toda esta dedicação ao Karatê




  3.  

    Tião, Ronize, Renam. Parabéns pra vocês. Fico muito feliz, com seu sucesso.





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