“Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena”

Em tempos de solidariedade, Metrópole dirigiu seu espaço nesta edição para quem faz da vida um ato de caridade. Dona Jacira Bueno Machado é daqueles exemplos de vida que fazem pensar o quanto somos capazes de amar ao próximo. Seu modo de vida, construído na entrega diária, fez da sua casa e da sua família o lar de muitos esquecidos pela sociedade.

Sempre de portas abertas, a casa de Dona Jacira está localizada no Lar Paraná e transborda carinho e cuidado, num espaço bem organizado, onde se respeitam a mobilidade e as necessidades de todos os moradores. De perto se percebe que a personagem Jacira é a extensão da sua casa: acolhedora e sempre aberta a novos moradores. Ela não tem convênios e não é uma entidade, vive da aposentadoria de auxiliar de enfermeira e da solidariedade de amigos e instituições que, reconhecendo sua realização, também deram um pouco de si para o bem de todos.

Ele fala que nunca pensou em começar nada e que as coisas aconteceram em sua vida naturalmente, na necessidade de cada um que se aproximava. “Eu trabalhava no hospital e naquela época (anos 70) era muita miséria e pobreza. Os “bóias-frias” acampavam nas fazendas e os filhos ficavam doentes, não tinham acesso a vacinas. Também não havia postos de saúde e a maioria das mães era analfabeta. O meu objetivo era ajudar como se ajuda uma comadre, uma vizinha. A gente tinha a confiança delas. As crianças ficavam internadas e quando recebiam alta elas me pediam para trazer em casa para dar a medicação, fazer a revisão, observar a melhora, depois vinham buscar. E foi acontecendo, uns vieram e nunca foram embora, outros, os pais faleceram. Muitos se casaram aqui mesmo e de vez em quando aparecem porque para eles eu fiquei como sua mãe”, explica.

Jacira conta ainda que no começo ela mantinha as crianças com o que ganhava no trabalho do Hospital, mas, conhecida pelo cuidado que dedicava a elas, começou a receber as doações que ajudam até hoje na manutenção da casa e cuidados com os que ainda estão doentes. “Mas, até hoje é tudo voluntário porque eu nunca quis registrar minha casa. Meu trabalho é totalmente diferente. As crianças que permaneceram aqui, hoje são meus filhos, e a gente é uma família. Se eu registrar perco a identidade dentro da minha casa, não formei um Lar. Se o Conselho Tutelar ou o juiz me pede para ficar com alguma criança que precisa do meu trabalho, esta vem e permanece o tempo que for necessário e, durante este tempo, eu sou mãe, porque eles vêem os outros me chamarem de mãe, então eu continuo sendo a mãe, a tia, a avó”, comenta.

Na casa estão atualmente 11 meninos e meninas para tratamento de saúde. Alguns vieram ainda bebês e outros nem têm chance de recuperação, como os cadeirantes, mas recebem tratamento contínuo e toda a atenção para melhoria da sua qualidade de vida.  Jacira ainda explica como é a relação com as famílias:  “Eu sou bem antes do Conselho Tutelar. A gente fazia este trabalho no companheirismo, no conhecimento, na conquista, e graças a Deus eu nunca tive problemas com mães. Sempre trabalhamos em conjunto porque é uma questão da família e não gosto de impor nada, eu sempre fui contra a coisa obrigada. Eu tenho que chegar e dizer “Eu fiz isso e deu certo. Você quer tentar fazer?”. O ser humano é muito teimoso, mas se pode chegar com companheirismo e amizade. Se enfiar goela abaixo, nada dá certo”.

Recentemente Dona Jacira recebeu o título de Cidadã Honorária de Campo Mourão, em reconhecimento pela obra realizada e já sentiu a resposta da comunidade.  “Agora eu trabalho mais tranqüila, mas tive tempos bem difíceis. Hoje se recorre ao posto de saúde e vai atrás até conseguir a medicação. Antigamente não tinha nada disso. Hoje, graças a Deus, não me falta nada. Tudo sob controle e tudo é válido. Nunca fui acostumada a viver com muito”, conta.


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