Tiago Silva, mente inquieta

Ele já foi garçom, servente de pedreiro, montador de móveis e parabólicas, artista de circo, assistente de padeiro, professor de informática e assistente de livraria. Até na roça já trabalhou, ajudando o pai, que é agricultor. E tudo isso com apenas 25 anos.

Apesar da pouca idade, Tiago Silva, o ilustrador e chargista do jornal Correio do Cidadão, há mais de dois anos é presença certa nas páginas do impresso com seu humor afiado e traço preciso, marca que começa a se espalhar Brasil afora, com presença marcante nos grandes salões de quadrinhos do país. Sobre o trabalho, a vida e a inspiração, o desenhista, que também é músico e sonha se jogar de cabeça no jornalismo, recebeu Metrópole para um bate papo descontraído.

O traço

Tiago é careca, de expressão um tanto quanto tímida, meio divagante. Olha meio de lado, aparentando constante desconfiança. Diz ele que é só a timidez mesmo, com a voz baixa e mansa, contrastando com a imagem rocker que preserva, que por outro lado, também contrasta com suas origens.

Nascido em uma comunidade rural do município de São João do Ivaí, a 80 Km de Campo Mourão, Tiago cresceu no sítio. Graças ao esforço do pai, cansado da vida sofrida na roça, foi estimulado desde cedo a buscar outro caminho e por isso a família se mudou para a cidade. Assim como você, fez os primeiros desenhos por volta dos quatro, cinco anos, quando começou a se alfabetizar e, apesar do talento, não era elogiado pela qualidade do trabalho na escola. “A professora só me elogiava porque fazia rápido”, lembra.

Diferente da maioria, ele continuou desenhando e desenhando até ficar mais rápido. O traço também ficou mais preciso. Aí surgiu outra situação. “Todo mundo na escola queria que eu desenhasse, até os professores. Era exploração”, brinca. Sendo explorado, Tiago cresceu em meio aos desenhos e pendeu principalmente para o lado dos mangás. Também pintou quadros para as vizinhas e as tias, fez painéis na escola, mas sempre brincando de desenhar. Tinha um pé nas artes e a vontade de se dedicar a elas, mas não tinha tido uma grande chance. Até que ela parou na sua frente.

Fuga com o circo

Com a verve artística alimentada generosamente pela juventude, aos 17 anos Tiago resolveu ir embora com o circo. Assim, só com a vontade, juntou uma trouxa e se uniu a uma companhia de circo teatro, que por três meses tinha acampado em sua cidade natal. Ali ele conheceu a trupe, fez amizade, participou de uma oficina e se destacou em uma peça apresentada pelos artistas e também por moradores.

“Nossa! Quero viver essa vida – pensei”, conta. Largou o emprego, a faculdade e, contra vontade da mãe, seguiu viagem com o circo. Com a trupe passou por Lunardelli, Barbosa Ferraz e Fênix e aprendeu muita coisa. “Entendi que é preciso dar valor para as coisas. Todo dia tinha peça, mas nem todo dia tinha público, então nem sempre a gente tinha dinheiro. Não tinha conforto também. Para eles, que sempre viveram essa vida, é diferente”, explica.

Seis meses depois da ida, a volta. “Eles foram muito receptivos, sempre me trataram bem e me convenceram a sair, porque aquilo ali não era vida para mim, não é vida para quem não nasce ali”, reitera.

Tiago voltou para São João, mas as lembranças ficaram. “Minha mãe me xinga até hoje”, brinca. Em casa outra vez, o chargista voltou para a faculdade de Administração, que cursava em Jandaia do Sul e partiu para alguns empregos, entre eles o de ajudante de padeiro. Desenhos, só de brincadeira.

Novo começo

Há cinco anos, namorando uma mourãoense, o ilustrador quis mudar de cidade e, para ter um motivo palpável, tentou vestibular na Fecilcam. No dia da prova o namoro acabou, mas ele veio ainda assim. Cursou só um semestre de Administração na nova faculdade, mas o curso foi muito importante para duas coisas. “Na primeira semana conheci a Mayra, que é minha esposa, e nesse semestre percebi que o curso que estava fazendo, definitivamente, não era para mim”, pontua.

Durante esse período de descoberta de Campo Mourão, o cartunista ficou um ano sem desenhar e foi aí que resolveu começar a estudar para poder fazer charge. Dedicou atenção especial para Laerte, Angeli, Glauco e Henfil. Queria aprender a fazer charge. “Comecei a fazer, mas achei que ficavam muito ruins, com traços de mangá”, conta. Nem por isso desistiu e foi estudando mais até que começou a ficar conhecido.

Criou um blog com seu trabalho, que era só um hobby. Para se sustentar, passeava por diversos empregos, até que surgiu a oportunidade de publicar suas charges no jornal Correio do Cidadão. “Comecei a mandar charges duas vezes por semana e fui conquistando mais espaço. O pessoal gostou, fui criando minha marca”, revela.

Enquanto o trabalho começava a ganhar destaque, Tiago não parou. Foi aprendendo novas técnicas e experimentando novos gêneros de desenho. Fez ilustrações, caricaturas, cartoons, diversos tipos de experiências.

Dessas, selecionou desenhos para inscrever em salões de humor pelo país. No Salão de Humor de Piracicaba, maior vitrine de cartunistas da América Latina, entre dois mil artistas de 40 países inscritos e 200 selecionados, emplacou duas tirinhas.

No Salão de Caratinga-MG, participou com caricaturas e cartoons. “Esse salão também é muito importante e reúne grandes nomes, todos na cidade natal do Ziraldo”, observa.

Foco nas charges

Apesar do espaço conquistado pelas ilustrações, o foco do artista agora é para as charges. “Ela chama muito a atenção. O Henfil, na época das Diretas Já, comovia muito mais gente com uma charge do que qualquer outra manifestação”, afirma. É isso que ele tem buscado aplicar no seu trabalho, que foca questões nacionais e, em algumas ocasiões, questões locais. Apesar da repercussão, Tiago tem pegado mais leve nos assuntos mourãoenses. “Aqui teria muito impacto, mas a publicação é difícil. Então me dedico mais aos assuntos nacionais”, alerta.

O fato de um grande número de cartunistas retratar o mesmo momento – analisa Tiago – não é problema, porque cada um tem sua maneira de expressar e quando a charge é boa, se destaca. Mas o que seria uma charge boa? “É aquela que você olha e dá risada, mas que, depois, faz pensar e gera discussão”, defende.

Para fazer bons desenhos na charge ele gasta pouco tempo, meia hora mais ou menos. “Desenho com nanquim e faço a finalização no computador, mas estou sempre rabiscando. Antes andava com um bloquinho na mão só para isso”, explica. Para que a ideia da charge surja, vai a manhã inteira. “Preciso ler muito. Sento na minha cadeira e passo por um roteiro dos melhores sites de informação, lendo tudo que encontro. Às vezes passo a manhã inteira nesse exercício”, diz. Como há alguns meses passou também a desenhar charge esportiva, os sites de esporte engrossaram a lista, já extensa, de política, mas ele não reclama, não.

Na redação

Tanta informação à volta trouxe novas inspirações para o futuro. Sem experiência alguma na área, Tiago passou a fazer parte da redação do Correio do Cidadão e, além das charges, colabora com a diagramação, fazendo ilustrações e infográficos e, vez ou outra, algumas matérias. Aí ele revela um sonho. “Estou trabalhando aqui faz um ano e é aqui que estou me realizando. Sempre quis ser jornalista e pra mim é questão de honra conseguir formação na área, para trabalhar em impresso”, revela.

O desejo de escrever, sugere, completa os outros meios pelos quais ele se expressa. Além dos desenhos, charges, cartoons e todo tipo de ilustração, ele também é baterista na banda Errorama. Também escreveu poemas. A vontade de ver seu nome impresso, de participar do processo artístico e midiático, o seduz. “Gosto de fazer parte disso tudo. Ia me sentir muito frustrado se ninguém soubesse o que eu faço, se não fizesse parte. Tenho orgulho de ver meu trabalho na mão das pessoas, esse reconhecimento que só quem tem, conhece”, confidencia.

Texto: Gracieli Polak

Sobre o Autor

Metrópole Revista
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Revista de variedades.

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