Reportando histórias


 

Buanezio Aparecido Magalhães, mais conhecido como “Buana”, trabalha há 26 anos na Rede Paranaense de Televisão (RPC) e há 17, é repórter cinematográfico. Há oito anos começou uma nova história na sucursal da TV Cultura de Maringá, em Campo Mourão, onde representa o telejornalismo paranaense, fazendo dupla com outros repórteres da emissora. Membro da confraria Clube da Panela, fez muitos amigos e aprendeu a aproveitar o que a cidade e a região têm de melhor para oferecer, de onde tira muitas das pautas para o dia-a-dia. Entre milhares de fatos que cobriu, Buana selecionou algumas boas histórias que conta com exclusividade para os leitores de Metrópole.

O nome artístico e marca registrada “Buana” surgiu por brincadeira, ainda no começo da carreira, quando era auxiliar de um cinegrafista da RPC, conhecido por “Foguinho”. Buana acompanhou a evolução tecnológica da emissora como operador de telecine, auxiliar de jornalismo e produção de comercial, até assumir a vaga de repórter cinematográfico. No comercial e no início do jornalismo viajou por todo Brasil e pelo Paraná, ganhando bagagem e experiência que hoje dão suporte para trabalhar na Sucursal de Campo Mourão e ter participação efetiva nas produções e coberturas de assuntos locais.

Metrópole: A veia de jornalismo você desenvolveu na necessidade em Campo Mourão ou já tinha antes?

Buana: Eu sempre gostei de estar envolvido com o jornalismo. Sempre fui muito ligado, gostava de descobrir os assuntos, correr atrás, agendar. Em Campo Mourão mais ainda, porque aqui a gente tem que fazer isso, descobrindo assuntos onde nem se imagina. Tenho suporte de Maringá, porque você tem que ter uma estrutura por trás. Então eu acho que já estava no sangue esse lance de produção, gostar de jornalismo, da notícia.

Metrópole: Como você veio para Campo Mourão?

Buana: A pessoa que veio abrir a sucursal teve problemas na família e quis voltar. O José Nascimento, então diretor, me propôs um novo desafio e o Vinicius Costa já estava aqui como repórter. Eles queriam transformar Campo Mourão na segunda maior fonte de notícias e aproveitar melhor as notícias da área rural porque estavam iniciando o programa “Caminhos do Campo”. A proposta foi boa, as minhas meninas estavam começando a crescer e Maringá estava crescendo demais. Achei que era o momento de dar uma escapada e ver como era. Foi uma troca muito boa, bem tranquila e a família adora estar em Campo Mourão.

Metrópole: A grande maioria dos repórteres que estiveram aqui saíram para boas oportunidades na Globo ou outras redes. Você se sente um pouco responsável por isso ou a característica de sucursal ajuda?

Buana: A maioria das pessoas que passarou por aqui estava iniciando, sangue novo. Foi uma experiência e um desafio para todos.  O Vinicius Costa, que está na Record, fala que sente saudades. Campo mourão é uma grande escola porque a gente cobre de tudo, agricultura, política, esporte. Na época da Natália Garay, ela adorou, porque nunca tinha feito esporte e foi um aprendizado por causa da Adap, que foi vice no Campeonato Paranaense. As primeiras imagens do Jean Chera, quando estava na Adap, e que passaram há pouco no Globo Esporte, eu fiz com o Parracho para o Jornal Nacional. Então a sucursal proporcionou aprendizado para mim e para as pessoas que passaram.

Metrópole: E as pautam como surgem?

Buana: Apresentamos sugestões, trocamos ideia com Maringá, eles avaliam se vale e para qual jornal. E tem programas específicos como “Globo Esporte” e “Caminhos do Campo” que têm que ofertar antes. Entre as nossas sugestões mais recentes estão as do final do ano, no “Plantão de Natal”, com pousadas rurais da região e os investimento das propriedades rurais no turismo.

Metrópole: As pessoas interferem nas notícias? Isso te incomoda muito?

Buana: Não chega a incomodar, mas a gente tem que deixar bem claro o que estamos fazendo. Já aconteceu de pessoas indicarem uma pauta, chegar lá e ver que não era nada do que falavam. Mas, de qualquer maneira, virou pauta. Só que a pessoa falava “não,  isso eu não quero falar”. Ela queria o gancho que tinha sugerido, mas aquilo não dava notícia. E há os que perguntavam se íamos cobrar para dar a notícia. Explicamos que jornalismo não é cobrado, que fazemos matérias mostrando o ponto de vista da pessoa que está reclamando e do outro lado. Vamos levar a notícia, mas não cobrar por ela. A parte do jornalismo não tem a ver com o comercial, não tem esse vínculo. Nós vamos atrás da notícia, independente se você fez o bem ou fez o mal, se você é cliente ou não.

Metrópole: Comentavam que o jornalismo da RPC só mostrava Campo Mourão quando havia notícia ruim. Vocês inverteram isso?

Buana: Isso a gente conseguiu e eu acho que é muito legal. Nos últimos anos mostramos muita coisa boa, exemplos bacanas que acontecem em Campo Mourão, como por exemplo, a cultura. É incrível o que se faz com um teatro só, com uma estrutura pequena e é reconhecida no Estado inteiro. Hoje a RPC de Curitiba cobra se não vai ter aquele concurso da mentira, o Festival de Teatro, o circo. Conseguimos mudar a visão de que eram só homicídios, roubo de carga, briga política, desemprego. E hoje a gente sabe que está sobrando emprego em Campo Mourão. Foi um desenvolvimento. Isso é uma evolução, vemos que a cidade cresceu junto com as notícias boas.

Metrópole: O potencial agrícola local te credenciou para aquela “Expedição Safra” aos Estados Unidos?

Buana: Eu acredito que teve um pouco de um agradecimento porque eu sempre gostei de contribuir com o “Caminhos do Campo”. Adoro matérias agrícolas e fui escolhido pela experiência de produção, o conhecimento de como funciona a agricultura. E foi um grande prêmio fazer a viagem. Foi muito legal.

Metrópole: O que viu diferente da nossa cultura?

Buana: Muitas coisas. Eles investem em tecnologia. Em Ohio, um estado do tamanho do Paraná, se produz mais milho que no Brasil inteiro. O agricultor trabalha e consome. Ou seja, investe na agricultura, compra maquinários novos, propriedades com silo. Visitamos algumas casas que são um luxo, não dá para acreditar no tamanho da casa. Mas os filhos estão crescendo e indo embora, escolhendo outras profissões e a agricultura está ficando na mão dos mais velhos.

Metrópole: Como foi o trabalho lá?

Buana: Fui em 2009 e 2010. O trabalho é parecido com o da sucursal, só um câmera e o repórter. Para mim foi como no dia-a-dia, trabalho só em dupla. Rodamos 2.600km em 10 dias. Fomos na Bolsa de Chicago, que é a maior bolsa do mundo de cereais. É como estar em um estádio de futebol muito grande e todo mundo vendendo, comprando. É uma loucura.

Metrópole: Qual foi a pauta que te trouxe mais satisfação?

Buana: Eu me lembro de algumas. Na época do delegado Haroldo Davison, um dia estava tranquilo em casa, já tinha cumprido o horário. De repente ele liga, dizendo que precisava da gente na delegacia, onde acontecia uma rebelião. Os presos botando fogo na cadeia, fazendo reféns e falavam que só paravam quando a Rede Globo chegasse. Situação sem controle. Falei: “Meu Deus, que responsabilidade”. Liguei para a Natalia Garay, que estava aqui, expliquei a situação e ela falou: “Buana, você tá louco? Como que a gente vai lá e vai acabar com a rebelião? Não existe isso”. Falei: “Sei lá. Vamos ter que ir lá cobrir”. Até então não sabia exatamente o que estava havendo.  Então liga o delegado novamente e fala: “Pelo amor de Deus, vocês têm que vir porque senão vai piorar”. Então chegamos e os presos fizeram as reivindicações. Queriam um advogado, mais tempo de sol… Sempre as mesmas coisas. Mas aí acalmou, parou o fogo – porque eles estavam colocando fogo nos colchões do presídio, liberaram os reféns que estavam machucados. Eles batiam o rosto do preso na grade. Eu nunca tinha visto isso. Não sei para quê aquilo, batiam e falavam que iam matar. Um deles estava enrolado em um colchão onde iam botar fogo, que são aqueles presos que cometeram estupro. Eles colocaram esse povo na linha de frente e eu sei que só acabou depois que chegamos e os ouvimos. Gravamos e falamos que ia para o “Jornal da Globo” e de manhã, no “Bom Dia Paraná”. A Natália conversou com eles e o advogado que eles escolheram e os acalmou. Mas pelo jeito, se não tivéssemos chegado eles iam botar fogo na cadeia. E o material acabou indo para os nossos jornais aqui do Estado e para o jornal da rede.

Metrópole: Você já se sentiu ameaçado?

Buana: Nesse dia eu me senti, apesar de que tinham vários policiais ali, ainda era um risco e podíamos virar reféns deles. Senti um pouco de medo numa greve dos agricultores. Muitos deles não entendiam, achavam que estávamos mostrando só um lado da notícia. Alguns agricultores chegaram a ameaçar, dizendo que não iam conceder entrevista ou fazer imagens. Isso em 2005, 2004. O Vinícius estava aqui e aquele ano eu senti o que era uma equipe de dois.

Metrópole: E conflitos com “sem terras”, são traumatizantes também?

Buana: No começo da carreira, em Querência do Norte, cobri um conflito junto com o Sandro Dalpicollo, onde chegaram a matar três “sem terras”. No velório deles ouvimos uma conversa que, saindo dali, iam invadir uma fazenda. Acompanhamos os agricultores na invasão. Foram de carro, trator, moto e começaram quebrando o cadeado da fazenda. Os jagunços atiravam e ficamos no fogo cruzado porque eles tinham muitas armas. Chegou um momento que o Sandro falou: “Buana, eu paro por aqui, você faz o que achar melhor”. Decidi cobrir por detrás das árvores, mostrando o conflito. Via as balas e os tiros passando. Os jagunços fugiram para o mato e eles invadiram a sede da fazenda. Uma cena que nunca esqueço é a comemoração deles, pulando na piscina da casa. Conseguimos entrar no “Fantástico”. E tem uma matéria que eu fiz com o Vinicius Costa, quando fomos cobrir os prejuízos da geada para o feijão, em Barbosa Ferraz. Procurando propriedades para fechar a matéria para o Globo Rural, nos avisaram que uma pessoa tentava suicídio na ponte de Barbosa.  Chegando lá, uma mulher estava em cima do beiral da ponte. Um conversava com ela, enquando chegava perto. Ela ameaçava pular. Comecei a gravar sem parar. O policial falava: “O pessoal da Globo tá aqui, desce aí que você vai conseguir”. Ela estava tentando suicídio porque tinha perdido a guarda de um filho e achava que a vida tinha acabado. O Vinicius entrou na negociação e falava: “Olha Maria, a gente está gravando, vai procurar seu filho e você vai conseguir ele de volta”. Nisso a população de Barbosa foi chegando. Várias vezes ela tentou se jogar. Com o Vinícius tentando entrevistar ela, o policial aproveitou a distração e conseguiu puxar a mulher. Foi uma aflição. Na hora que eu liguei para o meu chefe em Maringá, o Nascimento, eu não conseguia falar de tanta emoção. Pelo fato de a gente conseguir ajudar a salvar sua vida. Porque ela ia se jogar de cabeça da ponte, podia morrer, ficar com sequelas. Aquilo também marcou a minha vida. A hora que eu vi aquele material no ar foi muito emocionante. Eu nunca esqueço.

Metrópole: Na Panela ou na profissão você fez muitos amigos?

Buana: Muitos. No começo o pessoal comentava que é difícil fazer amizade aqui. Hoje não tenho dificuldades, tenho muitos amigos. A Panela tem muito a ver. Além do futebol, tem amizades e os contatos com profissionais liberais ou ex-jogadores, como o dentista Arthur Kiyoshi, que foi jogador profissional em vários times do Paraná, como Atlético e Londrina e conheci o Romerito, da seleção do Paraguai, em viagem com a Panela. É uma honra estar do lado destas pessoas que nunca imaginava que conheceria.

Metrópole: Você gosta de culinária. Como bom cozinheiro inventa receitas?

Buana: Copio mais do que invento. Tem algumas receitas que aprendi na época que morava com a minha avó e comida de avó não tem igual. Na TV você acaba aprendendo com o passo a passo das receitas. Um prato exótico que adoro fazer é língua de boi ao molho. Recebo muitos elogios quando faço, mas eu faço outros também.

Metrópole: Vocês têm uma turma que se reúne para fazer comida?

Buana: Tem um grupo de amigos, o Sílvio do Teatro, o Márcio da Coamo, o Walter Tonelli – Peteleco – que é o mestre cuca. Não dá para competir com ele. E a gente se reúne uma vez por semana para saborear um prato que alguém faz e degustar cachaças.

Por: Regina Lopes
Fotos: Valtecir dos Santos/Fernando Nunes

 


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