Poesia e sentimento no grito

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Ex-padre e ex-professor, Amani Spachinski de Oliveira criou uma maneira peculiar de fazer homenagens pelos eventos na cidade: aumentando os decibéis. Conheça a história do “seu grito” e do homem por trás dele.

Ele já assustou muita gente em eventos públicos com seu grito. Nas reuniões mais formais, lá nos finalmentes, se levanta e dá um berro de acordar a todos. Sua voz cresce e ele declama seu grito, que pode ter várias manifestações, mas torna tudo menos monótono. E é assim, assustando ainda muita gente e conquistando a admiração de muitas mais, que o filósofo e escritor Amani Spachinski de Oliveira pretende se comportar no meio literário de Campo Mourão: bem longe da monotonia.

De voz calma e expressão serena, o escritor é um poço de simpatia. Não lembra nem de longe a figura que sai no meio do povo dando seu grito. Por causa de uma doença terminal, que no fim das contas não terminou com ele, perdeu parte da audição e tem dificuldades para ouvir. Isso o afastou das salas de aula, mas em nada diminuiu sua atividade, seja no campo das letras ou da filosofia.

Amani nasceu no interior do Paraná, na área rural da cidade de Pinhão e, ainda pequeno, passou a morar em Guarapuava com a família. Aos dez anos, mais ou menos, teve a primeira inspiração literária, declamando um poema de sua autoria para amigas da sua mãe. Levou um belo de um “pito”. “Fui declamar para as mulheres, mas a poesia era um tanto marota, pornográfica mesmo”, se diverte.

Continuou a escrever depois da experiência, mas obras mais amenas. Aos 19 anos largou Guarapuava e uma namorada não muito séria que tinha para estudar em Londrina. Ficou quatro anos lá e mais sete em Ponta Grossa, até que se ordenou padre e foi designado para trabalhar em Pitanga, onde por dois anos se dividiu em muitos para dar conta de 47 capelas e muitas pastorais. “Foi um tempo que não parei para pensar em mim, mas me envolvi com muito trabalho. Quando me olhei, não estava bem, não estava feliz e pedi para sair da igreja”, conta.

Como era jovem, acredita, o bispo na época não deu muita atenção e pediu para que ficasse mais uns meses. Aí a vida dele tomou outro rumo. Continuou a executar seu trabalho, mas sem o peso da batina. Saiu da igreja em dezembro, casou em janeiro.

Querendo começar vida nova com a esposa Rita, resolveu experimentar novas cidades do Paraná, principalmente aquelas em que não tinham parentes.“Vamos casar e sair pelo mundo, construir nossa vida, foi essa a proposta que fiz pra ela”, lembra. Assim moraram em Cascavel e até em Campinas (SP). Depois voltaram para Pitanga, foram para Guarapuava e Nova Tebas, até chegarem a Campo Mourão. Sem desprendimento na hora de fazer as malas, acabaram criando raízes na cidade, que adotaram como nova casa. Já faz 18 anos que residem aqui.

As letras

Depois de largar a vida de padre, o começo da vida de casado não foi fácil em busca de trabalho. “Perguntavam o que eu sabia fazer e respondia que só sabia rezar missa”, se diverte. Com os estudos pesados em filosofia, não foi difícil trabalhar. Com as boas relações que sempre cultivou, foi secretário municipal por duas gestões, em cidades diferentes, na área de saúde.

Em Campo Mourão chegou para comandar o Senac. Aqui logo fez amizades e, interessado em cultivar ainda mais a veia literária e filosófica, foi um dos fundadores da AME (Associação Mourãoense de Escritores) e AMF (Academia Mourãoense de Filosofia). Também participou da fundação da AML (Academia Mourãoense de Letras), da qual também é membro. Pelo envolvimento com as entidades e gosto por escrever e discutir a filosofia, sempre esteve envolvido nesses meios, mas foi por intermédio dos alunos que resolveu, enfim, publicar seus escritos.

Ele conta que foram os estudantes que pediram para que ele passasse para o papel seus ensinamentos, para que levassem uma lembrança dele. Assim foi publicado o “Uma vida e um mundo melhor para se viver”. Depois disso publicou “Anseios d’Alma”, que veio em um momento bastante crítico de sua vida.

A doença

Fazendo doutorado em Santa Catarina, aos 47 anos, Amani estava em Campo Mourão em um fim de semana e simplesmente parou de expelir urina. Foi imediatamente ao médico, que detectou um câncer em estágio avançado. Buscou tratamento no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, e de lá saiu desenganado, com expectativa de, no máximo, dois anos de vida. Apesar da apreensão, o momento foi bom para pensar na vida e escrever.

Os dois anos viraram três, quatro, doze e mais alguns, espera. Seu organismo se recuperou e ele vive uma vida normal. A maior sequela foi mesmo a perda da audição, que o afastou das aulas, mas que não impede que ele dê palestras e continue atuando, principalmente na área de filosofia clínica.

O grito

“Sabe aquela saudade que a gente sente mesmo estando com a pessoa por perto? Não precisa estar longe, é uma saudade sem explicação. Minha esposa estava viajando, mas de repente senti uma saudade, uma vontade de falar com ela. Aí pensei: será que se gritar ela vai me escutar? Fui até a porta de casa, na direção onde ela estava e gritei com tudo que podia”. Assim surgiu o grito.

Como não surgiu ninguém com camisa de força para interná-lo, brinca, ele começou a usar a ferramenta para se libertar. A primeira vez que deu seu grito em público foi na biblioteca. Pegou todo mundo de surpresa. “Ah, assustei muita gente. Continuo assustando, na verdade”, afirma.

Hoje, mais que susto, o grito de Amani é visto mesmo como uma interferência poética, bem vista pelas pessoas. Quem conhece, conta, até espera pela intervenção. Assim ele já deu seu grito em Curitiba, Guarapuava e Umuarama. Faz textos improvisados, mas algumas vezes pensa e escreve alguma coisa antes, como orientação.

No papel, mesmo, está aquele primeiro, feito à mulher. No mais, até mesmo pela sua atuação na filosofia clínica, defende que as pessoas também deem seus gritos, sem medo de chocar as outras pessoas. “O grito é libertador, deixa a alma mais leve. Quem já experimentou sabe o quanto faz bem gritar, bem alto, liberar energia”, conta.

“Meu grito
Meu grito de libertação
Cansado deste silêncio tímido e tolo entre nós
Resolvi gritar para a minha e sua libertação
Eu amo você”.
(Primeiro grito, o único registrado no papel)

 

 


Sobre o Autor

Gracieli Polak
Gracieli Polak

Gracieli Polak é jornalista e blogueira, especialista em escrever sobre quase todo assunto – especialmente os que lhe agradam.


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