José Aroldo: O Gallassini que você não conhece

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José Aroldo: O Galassini que você não conheceSem a menor cerimônia ele entra na mangueira onde estão alojados os bois de uma de suas fazendas e enterra o pé na lama. Sem frescura. Anda pelo pasto mostrando os animais, atravessa cercas de arame, analisa algumas ervas que nasceram no lugar da pastagem. Não contente em dar uma aula sobre bovinos, leva o fotógrafo para ver a silagem dada aos bois, no maior bom humor.

Esse homem, de roupa suja e sapato cheio do barro da Fazenda Lorena, que fica em Farol, há quase 40 anos comanda a maior cooperativa da América Latina, idealizada por ele do zero. Já foi garoto propaganda da Bolsa de Valores de Chicago, recebeu dezenas de títulos e homenagens, representou Campo Mourão em inúmeros países e é unanimidade na gestão do agronegócio. A história de sucesso do catarinense José Aroldo Gallassini quase todo mundo conhece. Por isso mesmo não estamos aqui para falar do presidente da Coamo e suas conquistas, mas, sim, do José Aroldo fora dos limites do maior símbolo industrial da região.

Todo dia ele faz quase tudo sempre igual. Pouco depois das 7h entra na empresa. Almoça em casa com a esposa. Por volta das 18h30 deixa o trabalho. No horário de expediente, se doa inteiramente para não levar trabalho para casa. Faz exercícios, vai ao mercado, compra pão para o café. Aos fins de semana, quando não precisa bater cartão, visita as fazendas e vai à missa. Leva uma vida tranquila, dedicada à família, com muita simplicidade. Fala manso e com todo mundo. Não faz questão de usar terno, a menos que seja realmente necessário. “Sou caseiro. Gosto de ficar em casa e todo dia vou almoçar com minha esposa”, conta.

Marido da Marli e pai da Larissa Lorena e da Letícia Lenara, Gallassini diz que faz questão de passar tempo com as mulheres da família e se esforça para suprir a ausência das filhas – uma mora em Maringá, a outra, em Curitiba. “Os filhos crescem e vão embora, mas fazem muita falta. Hoje sou só eu e a Marli e me esforço para não deixar ela sozinha. Sei que ainda não é ideal, mas é o que posso”, assegura.

Para isso não frequenta bares nem botecos. Não fazia isso há 40 anos, quando era recém-chegado a Campo Mourão, muito menos hoje. Gosta mesmo é dos encontros do Rotary, uma vez por semana. Entre as saídas típicas que faz pela cidade, inclui lugares que muita gente não deve imaginar que frequenta, como os mercados. Portanto, não se admire se cruzar com ele fazendo compras. “Sempre gostei de ir aos mercados, mas agora tenho ido poucas vezes. É sempre bom para verificar como estão expostos os produtos Coamo, se estão sendo bem procurados”, brinca.

E não é só isso. Além das comprinhas de última hora, ele ainda ajuda na cozinha. Conta, sorrindo, que já gastou muito tempo fazendo conservas. “Gostava muito de fazer minhas conservas. Aquelas conservas de pepino, de cenoura. Tem umas de frutas também. É muito gostoso”, ressalta, sem esquecer de dizer que não encontra mais condições para se recolher à cozinha. “Mas faz algum tempo que não faço. Dei uma parada”, explica.

Dedicação à terra

Formado em agronomia e executivo do agronegócio, naturalmente, a ligação de Gallassini com a terra é muito forte. Tanto que, assim que passou a ganhar dinheiro, investiu na compra de terras e na melhoria da produção da região. Tão natural quanto falar da Coamo, para ele, é falar sobre sua propriedade. Com orgulho verifica o surgimento na terra da safra de verão, analisa o crescimento da soja, conversa com seus funcionários de igual para igual e confia no trabalho deles, postura que se reflete também na cooperativa. “Não sou centralizador. Delego funções e espero que elas sejam cumpridas. Por isso também cobro”, salienta.

Reflexo disso está na sua fazenda. Ele visita semanalmente, está a par de toda a situação, mas só gerencia. Até a consultoria de agrônomo é feita por outra pessoa. “Não tenho tempo, então formei uma boa equipe e eles levam adiante. Aqui mesmo, quem presta consultoria é um agrônomo da Coamo, como acontece com os outros cooperados”, destaca. Mas, como diz o ditado, é o olho do dono que engorda o boi. “Acho que por isso meus bois estão magrinhos. Não tenho vindo aqui tanto quanto gostaria”, se diverte.

Apesar do prazer atrelado às propriedades rurais, ele não esconde que elas são, sim, grandes negócios, não áreas de lazer. Por isso, não se incomoda com as acomodações e as casas, que são bastante simples. O maior patrimônio, mostra com orgulho enquanto analisa uma área recém germinada, é a terra fértil da área. A pecuária faz parte de um projeto de diversificação de renda e de melhor uso da propriedade. E se alguém pensa que cooperativa para ele é só a Coamo, muito se engana. “Faço parte também da Cooperaliança, cooperativa de carnes lá de Guarapuava”, pontua.

Percorrendo as curvas da Fazenda Lorena e levantando poeira vermelha na lavoura, ele conta feliz que tem sido parceiro da filha na gestão da terra. Larissa, que é dentista, diz, cada vez mais se interessa pelas fazendas. O nome da propriedade foi uma homenagem a ela. “Mas ela não gosta muito disso, não”, exclama e dá uma boa risada. “A Larissa gosta muito das fazendas, sempre que pode está aqui comigo, tem se interessado cada vez mais. Acho que é ela que vai cuidar daqui”, completa.

Além da fazenda de Farol, eles cuidam juntos de outra propriedade, em Iretama. Essa também já teve nome de filha, Letícia, então não há ciúmes. Em Campo Mourão ele mora em um apartamento no centro da cidade. A escolha, ressalta, tem muito a ver com a segurança que o local propicia.

Segurança e saúde

José Aroldo: O Galassini que você não conheceSetentão, para se manter ativo e preservar a saúde, o empresário, há cerca de 20 anos, passou a se exercitar de maneira mais séria. Faz caminhadas diárias depois do expediente na Coamo, normalmente com colegas de trabalho e amigos. E comemora as metas alcançadas no treino diário. “Conseguimos baixar o tempo do percurso para menos de uma hora”, conta animado ao Guerra, um de seus seguranças particulares.

Para onde quer que ele vá, seguranças o acompanham. A escolta, justifica, é pelo alto posto na cooperativa. Nesses anos todos, relata, nunca passou por nenhuma situação de perigo, mas houve ameaças que justificaram a companhia dos profissionais. Mas a necessidade não altera seu jeito de ser, garante. “Não deixo de fazer nada. Vou a todos os lugares que quero e mantenho uma boa relação com eles. Ele está sempre por perto, mas é bem discreto”, afirma.

A preocupação com segurança, em relação à saúde, é pequena. Aos 72 anos ele esbanja vigor, mas se dedica para isso. Há pouco mais de dois anos, depois de uma cirurgia no coração, afirma que parou de beber, até mesmo socialmente. “Não posso tomar nem mais uma cervejinha, um uísque. Agora é só água mesmo”, brinca. Se ele se sentiu resignado com a situação? “Não. Se eu tivesse me sentido amargurado por isso, não teria ficado sem beber”.

Para se preservar cuida da dieta e diminuiu até a frequência dos churrasquinhos em família. “Tudo tem sua época e acho que esse tempo mais animado passou. Hoje não vejo mais muita graça em fazer certas coisas”, analisa. Outro passatempo que lamenta ter parado foi com as podas em seu pomar. Também não encontra mais tanto tempo e disposição, mas sente saudade da atividade. Apesar disso, os muitos compromissos não são motivo para lamentos. “Quando a gente gosta do que faz, agenda lotada não é problema”, afirma.

Mourãoense de sucesso

Há quase 40 anos na chefia da Coamo, ele não pensa em se aposentar tão cedo, nem mesmo diminuiu a carga de trabalho com a passagem dos anos. Assim como qualquer funcionário, cumpre horário e, diferente do que muita gente pensa, dispensa muitas regalias que o posto lhe confere.

No escritório da Coamo, dezenas de títulos decoram a parede do chefe, que não faz questão de usar ternoCiente da responsabilidade que tem com tantos agricultores, muitos daqueles que acreditam naquela sua ideia, quer manter a trajetória de sucesso. Se afastar da chefia da empresa, por contra própria, não é uma opção. “Dois motivos podem me afastar da Coamo: o primeiro é a saúde. Quando eu não aguentar mais, não vai ter jeito. O segundo é a vontade dos cooperados. Se eles não me quiserem mais, acharem que estou gagá, aí eu saio. Ir embora, por outro motivo, isso não vou fazer”, brinca.

O segredo para o sucesso na empresa, para ele, é simples e o que garante tranquilidade para poder se afastar e levar a vida tranquila que leva mesmo sendo um alto executivo: delegar funções às pessoas competentes e cobrar delas bons resultados. Por isso não pense que ele deixa de viver a vida fora da empresa. Não passa mais tempo na sua sala que o necessário e suas férias são religiosas. De 20 de dezembro a 20 de janeiro a rotina é a mesma de muitos mourãoenses: o litoral de Santa Catarina. “Normalmente sigo direto para Balneário Camboriú. Gosto muito de lá”, resume.

Voltar para Santa Catarina, além das férias, nunca esteve em cogitação, salienta. Desde que escolheu Campo Mourão para viver, a cidade tornou-se sua também. “Fiz questão de vir para cá, mesmo sem conhecer. Tinha um trabalho e tinha um projeto, mas, nunca imaginei, em nenhum momento, conquistar tudo que conquistei. Deu certo”, admite, sorrindo.

 

Fotografia: Fernando Nunes


Sobre o Autor

Gracieli Polak
Gracieli Polak

Gracieli Polak é jornalista e blogueira, especialista em escrever sobre quase todo assunto – especialmente os que lhe agradam.


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