Intercâmbio: país novo, vida nova

Por um ano, os jovens aprovados no intercâmbio do Rotary experimentam viver em uma nova cultura, com novos pais. Os pais que ficam, recebendo outros jovens, também acumulam boas histórias para contar.

Eles têm entre 16 e 18 anos e uma sede fantástica de conhecer o mundo. Para começar, resolveram experimentar,  passar um ano fora do aconchego da casa dos pais, geralmente do outro lado do mundo. Experimentando um novo lar, uma cultura completamente diferente e se comunicando, esses jovens cumprem os objetivos de um dos programas de intercâmbios mais tradicionais do mundo, o do Rotary International.

É por meio dele que alguns jovens mourãoenses estão descobrindo novos mundos, enquanto estrangeiros aprendem a viver em Campo Mourão. Metrópole conversou com intercambistas brasileiros, estrangeiros e também com as famílias que tão bem recebem os jovens, como se fossem os próprios filhos.

Graziela Titon Calderari, em 1994, embarcou às cegas para um intercâmbio na Turquia. Na época, as informações que conseguiu sobre a nova cidade foram em uma velha enciclopédia. Habituou-se à cultura nova e se comunicava com a família, no Brasil, por meio de cartas. Hoje, 18 anos depois, os jovens que passam pelo mesmo processo, conhecem as novas famílias antes mesmo de viajar e se comunicam diariamente com os pais por programas de computador, com voz e imagem em tempo real. Os tempos mudaram e Graziela, a intercambista de 1994, hoje coordena o programa de intercâmbio no Rotary Araucária em Campo Mourão.

De acordo com Graziela, hoje qualquer jovem, rotariano ou não, pode se inscrever para o programa de intercâmbio, que abrange cerca de 80 países e que, em 2010, foi responsável por oito mil jovens. De Campo Mourão, por exemplo, há jovens no México, França, Nova Zelândia e Tailândia, entre outros países. Para o programa, que abrange hospedagem gratuita durante um ano em várias famílias em um novo país, os jovens precisam passar em um teste, que inclui redação, inglês e uma entrevista. Os aprovados passam por treinamento para chegarem aos novos lares preparados para a experiência e cientes das regras que devem seguir. À medida que os pais candidatam seus filhos, pondera a coordenadora, também devem ofertar hospedagem para outros jovens e também outras pessoas interessadas.  E a experiência pode ser muito boa para os dois lados. Acompanhe os depoimentos dos intercambistas brasileiros, estrangeiros e dos pais que recebem jovens em casa.

João Felipe Lopes Resende – Está na Tailândia

“Nos últimos sete meses venho vivendo neste país incrível e experimentado a cultura exuberante da qual este povo se orgulha tanto. Falar sobre a minha experiência aqui deveria ser muito fácil, levando em conta tudo o que já vi e aprendi, mas na verdade é algo muito difícil. O que mais me seduz na cultura tailandesa é o próprio povo em si, muitas vezes explicado pela frase “Mai pen rai” – que, a grosso modo, seria traduzida por “sem problemas” – porém, para eles, é muito mais que uma mera frase, é um estilo de vida a ser seguido. Aprendi que esta frase pode significar muitas coisas, dentre elas, que, para tudo na vida há sempre uma saída. Minha mente mudou drasticamente. Para estas pessoas, respeito é algo extremamente importante em suas vidas, e é passado de geração a geração. É algo pelo qual me sinto muito privilegiado em poder fazer parte e ver com os meus próprios olhos.  Estou na Tailândia, que é conhecida como a terra do sorriso. Então você pode imaginar, eles sempre estão sorrindo, são pessoas acolhedoras e muito, muito educadas. A dificuldade no começo era total, com comida, língua e costumes. Porém, agora a maior de todas para mim é a língua, pois aqui falam muito inglês, também nas minhas famílias, o que dificulta o meu aprendizado com a língua, mas devagarinho estou falando. A comida no começo foi uma grande barreira, perdi cinco quilos em três meses, mas me acostumei e ganhei meus quilos de volta com mais uns outros. Essa experiência de viver um ano longe da família é horrível, porém o aprendizado é enorme. Você cresce, amadurece, sai de casa um adolescente e, com certeza, volta um grande homem. Volto em 16 de junho”.

Nicole Szychta Chiroli – Está na França

“Minha maior dificuldade aqui foi com a língua, porque cheguei e tinha alguma noção por ter feito algumas aulas. Mas vir pra cá sozinha e cair na língua assim é muito difícil, não entendia praticamente nada. Então foi muito complicado aprender, fazer amigos, me comunicar com as pessoas e tentar explicar o que eu estava sentindo. Mas a comida é muito boa e os costumes são diferentes, tive que me adaptar a algumas coisas. Essa experiência vai com certeza marcar a minha vida, porque é realmente uma experiência única. É incrível a quantidade de coisas que você pode aprender sobre respeito, sobre os outros, sobre o mundo e sobre você mesmo em um ano longe de tudo. Também aprende a dar valor ao próprio país, à família, a tudo. Não há lugar como o lar. Paris é uma cidade maravilhosa, faz jus em ser a cidade mais visitada do mundo. Volto dia 29 de junho”.

 

 

 

Thales Adriano – Está no México

“Minha maior dificuldade no começo foi a comida, que – como boa comida mexicana – sempre vem bem carregada de pimenta. Mas isso foi questão de dois meses, até me acostumar e tolerar a pimenta. Hoje já posso comer qualquer tipo de pimenta sem problemas e me encanta a comida mexicana. O idioma, ainda que muito parecido, no começo dificulta muito, até porque na rua, para pedir informação, as pessoas não falam devagar, pensando se vai entender ou não. Assim como a comida, é questão de tempo, até pegar os macetes da língua, as gírias, as expressões, e já poder se comunicar melhor. Essa experiência já marcou minha vida. O intercâmbio foi e continua sendo maravilhoso para mim. A experiência de vivenciar algo novo, aprender um idioma diferente, conviver com pessoas de outros costumes e qualidades, sem dúvida, é inesquecível.”

 

Marie Griffoul – Francesa

“Morei na casa do Márcio e da Adriana Chiroli e estou agora na casa da Lia Maria. Vim para o Brasil porque queria aprender um novo idioma e conhecer uma cultura diferente. Então, por que não? As pessoas aqui são muito vivas e muito legais, são muito mais quentes do que na França, por exemplo. No colégio, os alunos são muito animados. Lá você tem que ficar quieto ou o professor vai ficar irritado. Acho que me adaptei bem aqui. Fiz amizade e acho que falo bem o português. Não tenho muitos amigos brasileiros porque é complicado fazer amizade quando todo mundo já tem um grupo de amigos, mas fiz alguns e eles são legais. Acho que cresci mais do que percebo. Estou menos tímida, mais positiva. Será um ano inesquecível para sempre.”

 Márcio e Adriana Chiroli –   “Marie Griffoul, francesa, chegou à nossa casa em agosto de 2011. Recebemos a Marie porque ela veio no lugar de minha filha Nicole, que foi para a França, na mesma época e porque já havíamos recebido intercambistas anteriormente e achamos essa experiência diferente e construtiva.  A diferença cultural é a maior dificuldade, mas, com um pouquinho de tolerância de nossa parte e persistência por parte dos intercambistas, tudo acaba dando certo. Minha mulher, Adriana, sabia falar um pouco de francês, o que ajudou na comunicação inicial, mas isso não é um item fundamental para receber intercambistas. O importante é o bom relacionamento. O melhor pra nossa família, desta experiência, é justamente saber que jovem é jovem em qualquer parte do mundo e que é possível a convivência com uma pessoa, dentro da sua casa, que não é da sua família, mas que acaba como se fosse”.

Lisa Jane Clark – Neozelandesa

“Escolhi o Brasil porque meu amigo ja esteve aqui e ele disse que foi o melhor ano de sua vida. Ele amava as pessoas aqui, porque todos são tão simpáticos e acolhedores, muito parecido com a Nova Zelândia. Minha família aqui é legal, tem realmente ajudado a ajustar tudo, porque são adoráveis, assim como meus amigos.  Acho que uma das maiores lições que eu vou ganhar com esta experiência é que nada é estranho, apenas diferente. Acho que há um monte de grandes diferenças entre a Nova Zelândia e o Brasil, mas, com certeza, uma definitiva é o alimento. Amo a comida aqui, nunca provei comida tão surpreendente na minha vida. Quando você se muda para um país diferente, você tem que ter a mente aberta. Você não pode estar sempre comparando as coisas em seu novo país, à maneira que você faria  de volta para casa. Você não pode pensar que são estranhas, porque elas não são, elas são apenas diferentes do que você está acostumado.”

Fátima Ferraz – “Estou recebendo dois adolescentes: a Lisa, da Nova Zelândia e o Tee, da Tailândia, e gostando, porque também temos muito para aprender com eles. A única dificuldade é a comunicação, porque não domino o inglês, mas acaba sendo divertido, mesmo porque a Lisa tem muito interesse em aprender. Ela procura participar de tudo em minha casa, faz amizade com os amigos da família. Como minha filha está na Nova Zelândia, me coloco no lugar da outra mãe e compartilho, sem mesmo conhecê-la, o amor que só as mães sabem sentir. Pensei que, como mãe coruja, iria sofrer muita saudade da minha filha, mas como divido esse amor, tenho saudades, mas sem sofrimento. Até voltei a estudar inglês. Essa energia boa deles nos anima”.

Cláudio Luís Resende – compartilhou com Ambrózio Paitach e Janete Lopes a hospedagem de mexicanos e tailandeses

“Acho o intercâmbio uma oportunidade fantástica pra esses adolescentes “descobrirem” o mundo, novas culturas, novos idiomas. No caso do João, meu filho, ele já falava inglês. Agora fala thai também. E, de quebra, está aprendendo um pouco de espanhol, com um amigo intercambista mexicano que está na Tailândia. Até hoje recebi um tailandês, o Hill, e um mexicano, o Victor. A relação foi bem tranquila. Os meninos se comportaram e se adaptaram muito bem durante todo o tempo que estiveram comigo. A parte legal é poder dividir um pouco do brasileirismo com esses estrangeiros. Enquanto estiveram comigo, eram meus filhos, mesmo: iam à escola, almoçávamos e jantávamos juntos, visitávamos amigos, saíamos pra sorvetes, pizzas, almoços na casa da vó, viagens. Acho bacana que meus filhos (inclusive meu netinho também, o Bernardo, que hoje tem 3 anos e mora comigo) aprendam a dividir o espaço da casa com outras pessoas.”

Francisco (Chisco) Bermudez – Mexicano –

“Gostei muito de conhecer novas pessoas, aprender novas coisas. Também gostei muito de morar com diferentes famílias. O povo brasileiro é muito acolhedor. Também gostei da minha escola, porque meus amigos são muito gente boa. No Brasil, gostei mais dos churrascos e das minhas famílias brasileiras. A adaptação foi fácil, porque o povo brasileiro e o povo mexicano são quase iguais. Vou levar um monte de lições desse tempo que estou aqui, principalmente porque aprendi a valorizar as pessoas”.

 

 

Adriano Lima e Vilmara ja hospedaram 2 mexicanos e 1 tailandês 
“É um programa que tem um objetivo excepcional: a troca de culturas e de conhecimento dos jovens. Eles nos acompanham em nossas viagens e no nosso dia a dia, não nos atrapalham em nada, ao contrário, suprem um pouco a falta que nosso filho faz. As dificuldades foram se eliminando aos poucos. No início achamos que seria difícil receber um jovem estranho. Como seria? Mas daí nos ambientamos com os três, nos encontramos, jogamos futsal, viajamos juntos, é muito bom. Difícil é a saudade do nosso filho, mas está pra voltar em breve. Conosco eles são tratados como filhos mesmo. Usam o quarto do Tales, os games, vão à escola, comem o mesmo que nós. Nossa rotina não foi alterada. Eles é que tem que se ambientar conosco.”

 

AnnMarie Cantu – Americana – “Gostei do Brasil porque é um país lindo e as pessoas são muito abertas, vivas e divertidas. Aqui algumas pessoas vieram conversar comigo sem nem me conhecer, por exemplo. A cultura entre o Brasil e os Estados Unidos é muito diferente, mas acho que me adaptei bem. A lição que eu vou levar de volta para os Estados Unidos é que eu posso passar por qualquer situação difícil enquanto eu ficar focado e tentar o meu melhor. Agora sei como falar três línguas, fiz muitos amigos que eu adoraria voltar para visitar. Outra coisa que eu vou levar de volta é que não importa onde eu esteja, há sempre pessoas que estão dispostas a ajudar os outros. Enquanto você está disposto e de mente aberta para coisas novas, não terá nenhum problema em passar por situações difíceis.”

Francielli e João Pedro Simonelli –  “‘AnnMarie mora conosco desde fevereiro. A filha de um amigo rotariano está fazendo intercâmbio e, apesar de não pertencermos à entidade, nos dispusemos a participar do programa. Não há dificuldades de relacionamento com ela porque ela já fala bem a língua portuguesa, pois está no Brasil desde agosto do ano passado. Ambos temos afinidade, ela é como uma filha para nós. Ela está sempre presente nas programações familiares e religiosas. Saímos todos juntos para atividades de lazer.Para nossa família, há a vantagem de aprimorar a língua inglesa e conhecer melhor a cultura de outros países, em função de outros intercambistas que acabam frequentando nossa casa. Acredito que ela vá levar na bagagem para casa a cultura brasileira e os amigos que fez durante a estadia.”

Ygor Eduardo Almeida Gomes – Está na Tailândia

“A Tailândia é conhecida como a terra do sorriso. Então você pode imaginar, eles sempre estão sorrindo, são pessoas acolhedoras e muito, muito educadas. A dificuldade no começo era total, com comida, língua e costumes. Porém, agora a maior de todas para mim é a língua, pois aqui falam muito inglês, também nas minhas famílias, o que dificulta o meu aprendizado com a língua, mas devagarinho estou falando. A comida no começo foi uma grande barreira, perdi cinco quilos em três meses, mas me acostumei e ganhei meus quilos de volta com mais uns outros. Essa experiência de viver um ano longe da família é horrível, porém o aprendizado é enorme. Você cresce, amadurece, sai de casa um adolescente e, com certeza, volta um grande homem”.

 

Cleo Almeida Gomes – Recebeu três intercambistas –     “Na minha casa já recebi três intercambistas e logo irei receber mais uma. A primeira foi uma jovem de Taiwan, a segunda, uma jovem mexicana, o terceiro, um jovem da Tailândia e logo mais, uma canadense. O relacionamento é diferente com cada uma, afinal, cada uma tem sua cultura. Para mim e minha família, esse gesto de receber jovens que não conhecemos assusta no início, mas, com o passar dos dias, o grande carinho surge naturalmente. Para mim, esses três jovens que passaram pela minha casa farão parte da minha família para sempre. Resolvi visitar meu filho, que está na Tailândia, e foi uma experiência inimaginável, porque nunca pensei em fazer uma viagem tão longa sozinha. Da viagem estou maravilhada e ao rever meu filho pude notar o quanto ele amadureceu.”

 

  • Reportagem Regina Lopes
  • Texto Gracieli Polak
  • Fotos Acervo pessoal
  • Colaborou Claudio Resende

Sobre o Autor

Metrópole Revista
Metrópole Revista

Revista de variedades.

0 Comentários



Seja o primeiro a comentar!


Deixe uma Resposta


(obrigatório)


Nunca mais perca uma postagem. Informe o tipo de conteúdo que você deseja receber e ganhe um cupom de desconto para uma compra na metropolestore.com.

Fica tranquilo, não enviamos spam.