O múltiplo “Geraldo da Fiorella”

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Geraldo-FiorellaHomem de múltiplas iniciativas e empreendedor nato, Geraldo dos Santos se confunde com a própria marca que há 21 anos trouxe para o mercado de Campo Mourão, Fiorella. Desta iniciativa surgiram vários empreendimentos, como a panificadora, um condomínio imobiliário, área de lazer, o Cinemaxs e a Arena Metais. Reconhecido com prêmios empresariais, está sempre na liderança de entidades, mas também cultiva orquídeas e cria ovinos. Falando a Metrópole, mostrou que ainda tem muitos planos pela frente e segue com novos sonhos, como criar um projeto de educação ambiental.

Metrópole: O que o motivou a vir para Campo Mourão?
Geraldo: Trabalhei no Banco Itaú durante 11 anos; na agência de Campo Mourão, por 3 anos. Quando eu saí do banco, resolvi montar meu próprio negócio, ter minha própria empresa. Pesquisei algumas cidades, como Toledo, Marechal Rondon, Apucarana e Campo Mourão. E achei que aqui, no ramo de atividades em que eu queria trabalhar, era a cidade que tinha a maior carência na época.

Metrópole: A padaria foi sua primeira opção?
Geraldo: Eu tinha vontade de trabalhar no comércio, a padaria surgiu em função de achar que sozinho eu não iria conseguir nada, precisava de parcerias. Havia trabalhado no banco e tinha habilidade de mexer com o público. Então consegui fazer uma parceria com o Darci, que é meu sócio até hoje, e trabalhava numa padaria em Cascavel. Ele conhecia, tinha o know-how na fabricação e formatação de novos produtos, tinha a habilidade, mas não tinha a de trabalhar com o público, na área de vendas. Então fizemos a parceria.

Metrópole: Você começou com um pequeno estabelecimento, mas já tinha um diferencial?
Geraldo: Foi na Avenida Manoel Mendes, há 21 anos, em 1991. Tínhamos um propósito de atendimento, de produto de qualidade, que foi e é a nossa marca até hoje. Havia padarias na época, mas eram poucos os produtos de qualidade e o bom atendimento. Vimos um vazio nesta área e que poderíamos oferecer diferenciais ao mercado, como abrir a padaria até nove horas da noite e aos domingos, e oferecer uma gama de produtos totalmente diferenciados, com um atendimento idem.

Geraldo-FiorellaMetrópole: Como surgiu a ideia de ampliar o mix com uma lanchonete?
Geraldo: A lanchonete veio quando, em 1998, fomos convidados a montar na área de alimentação do Shopping Piu Bello. Em 2000, quando fechou, nós a agregamos à padaria. Já tinha visitado alguns locais em Curitiba e São Paulo que ofereciam esse mix de produtos. Quando mudamos para esse novo prédio, ampliaram-se o espaço e as possibilidades.

Metrópole: E virou um restaurante, pizzaria…?
Geraldo: Virou um restaurante, lanchonete. Nessa época fizemos uma pesquisa de mercado e pizzaria não existia. O pessoal não saía para jantar, para comer uma pizza. Para você ter idéia, só havia três pizzarias. Hoje deve haver mais de 30 e o mercado está bom para todo mundo. Na época, nossa visão era colocar alguma coisa que atraísse a família. Não queríamos público só final de semana, mas durante a semana. Trouxemos a franquia de frango frito, que foi o carro chefe, mais as pizzas e batata recheada, novidade nossa também. Este grande diferencial começou a atrair clientes e, logo que começamos, o espaço era tão pequeno que faziam filas e aguardávamos sairem clientes, para colocar mais. Isso foi bom para a cidade, pois as pessoas descobriram que podiam investir na noite, em bons restaurantes. E tinha aquilo de que Campo Mourão não prestigiava. E, mesmo quando abri a padaria, algumas pessoas da época do banco, mesmo com o movimento, e fazendo sucesso, diziam: “ó, não se empolga não, que Campo Mourão é assim, depois de seis meses cai e fecha”. Mas não é assim, depende do trabalho.

Metrópole: E você é uma pessoa realizada?
Geraldo: Sou bastante realizado. Gosto do que faço, de inovar, de conhecer coisas novas, de desafios. Leio e viajo bastante também. Uma das grandes escolas é viajar, conhecer conceitos, e a diversidade que existe. Se ficarmos no mundinho da gente, não evoluímos.

Metrópole: Então quebrou barreiras para os que vieram depois?
Geraldo: Lógico, quando abrimos, Campo Mourão tinha seis padarias, em 91, parece longe, mas só faz 21 anos, a população não aumentou muito, mas hoje a cidade tem 45 padarias.
Metrópole: As pessoas aprenderem a apreciar outros produtos também?
Geraldo: Sim, e essa inovação da pizza foi nossa também. Eu queria criar algo de novo na padaria, pois só vender pão não era muito atrativo. E, logo que abrimos a padaria, começamos a vender essa pizza montada, que é um carro-chefe nosso hoje. Vi isso quando estive na Itália, que o pessoal vendia pizza pronta, para comer em casa. E pensei: “olha, não precisa ser uma pizzaria pra fazer isso, pode ser na padaria”.

Geraldo-FiorellaMetrópole: O cuidado com os clientes e a iniciativa do pós-venda, o que significam no negócio?
Geraldo: Queremos os clientes para sempre, a fidelização. Ele só se torna fiel quando está satisfeito. Muitas vezes não fala quando está insatisfeito. Quando você liga descobre pequenos detalhes. Se o produto estava gostoso, limpo. Ele fala que estava tudo certo, mas que o entregador demorou. Então tem que corrigir a falha. São pequenos detalhes que ele não vai falar no dia a dia. E, no pós-venda, detectamos essas falhas e isso é muito importante. Tem empresário que, o cliente mal sai da loja, ele já calcula o quanto ganhou. Eu, antes de ele sair da loja, procuro saber se ficou satisfeito e se vou continuar ganhando, porque ele vai voltar.

Metrópole: E os cuidados com seus funcionários, treinamentos, valorização, de onde vieram?
Geraldo: Eu trabalhei com uma pessoa, depois que saí do banco, durante dois anos, numa indústria de alumínios, e aprendi mais com essa pessoa do que nos 11 anos de banco. Era extremamente humano e observei que ele conseguia dos funcionários tudo. Percebi, então, que, para montar um negócio sozinho, não sou ninguém, precisava de uma equipe junto comigo. Procuro ser o mais humano possível com eles. Fico preocupado também, porque o cliente tem que estar satisfeito e, para isso, o funcionário também tem que estar satisfeito. Então o investimento no grau de satisfação dele é bem grande e, na empresa, um atendimento bom mostra um bom grau de satisfação.

Metrópole: Você ampliou sua política de atendimento para outras empresas. O que o  motiva: o potencial da cidade, a satisfação com os resultados, ou a vontade de estender o que aprendeu para outros?
Geraldo: São desafios, e também “não colocar todos os ovos na mesma cesta”. Temos que aprender a diversificar as atividades e, mais do que aprender, corrermos um risco menor.

Metrópole: Você poderia ter escolhido outra cidade para estes investimentos? Por que Campo Mourão?
Geraldo: Tudo que ganhei, que tenho, consegui aqui. Então seria interessante que investisse aqui, porque é uma cidade de oportunidades. Muita gente ganha aqui, e investe fora e perde grandes oportunidades de negócios. E em Campo Mourão ainda tem muita coisa para se fazer. Ainda há muitos lugares de investimento, muitas chances de grandes negócios.

Metrópole: Além da padaria, que é sua paixão, em qual outro negócio está sua realização?
Geraldo: O cinema. É um empreendimento que não rendeu tanto dinheiro, mas que deu satisfação pessoal. De saber que está proporcionando, principalmente para os jovens, um momento de lazer, de cultura. E também a reciclagem, onde estamos aprendendo, e que tem muito a crescer. Até a comunidade tem muito a aprender. Joga-se muita coisa que poderia ser reciclada. Hoje Campo Mourão recolhe 60 toneladas de lixo por dia e 30% disso seriam reciclados. Ou seja, são 18 toneladas de dinheiro que estão sendo jogados no lixo. Acho um absurdo. Na reciclagem, trabalhamos com pessoas muito simples, humildes, que eram escravos de pessoas que pagavam quase nada. Hoje temos mais de 100 pessoas que trabalham na reciclagem de Campo Mourão com dignidade, que têm sua renda. Acho isso muito importante.
Metrópole: Qual foi o principal fator que ajudou na conquista do prêmio da Federação do Comércio, em 2007?Geraldo-Fiorella
Geraldo: Penso que fazer as coisas pensando no bem. Poderia ganhar dinheiro e ser uma pessoa que faz parte da comunidade. Mas tenho a preocupação muito grande de retornar algo para a comunidade e fazemos, pois ela já nos deu prestígio e tantas outras coisas. Tento ver os problemas e ajudar, na medida do possível. Acho que é isso que pesa mais.

Metrópole: E a experiência com a ovinocultura?
Geraldo: É uma coisa pessoal, pois, temos uma cidade que se denomina a Capital do Carneiro no Buraco e nós não temos hábito ou costume de fazer o prato. Comecei a trabalhar com isso, mas senti uma frustração, pois não temos apoio para que cresça a ovinocultura aqui. Para se ter uma idéia, toda festa há um esforço para conseguir carne. E paga-se caro para fazer o carneiro porque não se fortalece a cadeia produtiva da nossa cidade, da nossa região.

Metrópole: Como participa socialmente?
Geraldo: Fazer parte da sociedade para mim é oferecer alguma coisa de si mesmo, do seu trabalho. No Lar dos Velhinhos dá satisfação trabalhar. É uma entidade com nome, seriedade e pessoas abnegadas e é muito gostoso trabalhar nessa área. O Observatório Social também é importante para nossa sociedade. Você não precisa ser prefeito, ser vereador, para se sentir responsável por sua cidade. Pode se envolver, através do Observatório, e ajudar até mais do que o vereador porque, às vezes, ele fica comprometido e não faz nada. Até, se tivesse uma Câmara mais eficiente, acredito que não precisaria Observatório.

Geraldo-FiorellaMetrópole: E a paixão pelas orquídeas? De onde surgiu?  
Geraldo: A orquídea é hobby, dizem que cada louco tem sua mania. Uma época tive depressão e precisava criar algo fora do trabalho, para descarregar um pouco a tensão. E não me identificava com pescar, jogar bola, essas coisas… E com a flor me identifiquei, no caso com as orquídeas. Comecei, fui me envolvendo. A orquídea é apaixonante, uma terapia. Inclusive pesquiso muito e, quando as pessoas têm algum problema com as orquídeas, me chamam. Vou até lá, analiso, dou ideias, acho isso muito gostoso. No orquidário aqui de casa tem umas 250 e, na chácara, mais ou menos umas 2 mil orquídeas. O de casa é mais para todo dia estar vendo, acompanhando. Na chácara, não consigo ir toda semana, e tem uma pessoa que cuida. Mas é apaixonante. O problema da orquídea é o seguinte: você conversa com ela e, quando ela responde, dá muita satisfação.

Metrópole: Até onde vai a paixão, tem aquelas que são raras, vai atrás disso?
Geraldo: Tenho algumas, assim mais especiais, mas não cheguei ao ponto de fazer loucuras, de pagar valores altos. Existem as que custam 15, 20 mil reais. Não tenho essa loucura. Mas tive mudas de 150 reais que acabaram morrendo e não consegui cultivar. A orquídea é interessante. Quem tiver problema de pressão e quiser entrar nesse caminho, pode entrar, pois descarrega a energia. E é tão gostoso ver que cultivou aquela planta e começa a cobrar dela: “e aí, não vai vir flor?” e ela vem, mostra, como uma relação pessoal. Tenho uma espécie árabe e algumas que trouxe da Tailândia, que são interessantes, pois, no vaso, as raízes ficam aparentes, elas não têm terra, não têm nada, e vivem tranquilas.

Metrópole: E como você consegue administrar tantas tarefas e conciliar o hobby?
Geraldo: O que tive de aprender foi delegar e delego bastante as funções. Hoje, dentro da Fiorella, sou o que menos trabalha. Tenho a visão na hora de coordenar, na área de marketing. Cada um tem sua função e tudo anda bem, hoje só faço a área de planejamento.
Metrópole: E você, consegue fazer aquelas receitas, já se aventurou pra tentar?
Geraldo: Eu não consigo fazer nada. Não sei fazer pão. Gosto de fazer um churrasquinho de vez em quando, mas pão e essas coisas não sei fazer.

Geraldo-FiorellaMetrópole: Você ensina as pessoas a terem uma relação com o pão. Onde aprendeu isso?
Geraldo: Aprendi no dia a dia. Duas cosias que aprendi no comércio. É essa relação do cliente com o produto e o que está fazendo no comércio. Não estou aqui para vender pão, mas para vender serviços para o meu cliente, satisfação. Pão todo mundo está vendendo. Pode ser um serviço mais caro, mas é de qualidade.

Metrópole: E o novo empreendimento como vai ser?
Geraldo: A padaria no outro prédio terá um conceito diferente e já estamos treinando no tipo de atendimento em que vamos investir. Será uma padaria gourmet, mas não terá esse nome gourmet, porque tem coisas que estou aprendendo em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas, que está voltando aquela coisa do empório, armazém, muito forte em padaria. E gourmet parece que se torna uma coisa elitizada. Estive em São Paulo, visitando alguns e então a gente vê que vai ser por aí. Acredito que será uma padaria conceito. Na região não haverá igual, seja em conceito, seja em estrutura, com 1.900 metros de área de venda, estacionamento, etc.

Metrópole: Você também investiu em lazer e descobriu um filão de negócio?
Geraldo: A chácara era para o lazer pessoal, mas as pessoas precisavam de um local e fomos alugando. Há carência deste tipo de empreendimento, voltado ao lazer. Fomos investindo e melhorando. Lá também começamos a criar pavão, que só serve para ornamentar mesmo, com suas penas. A fêmea é feia, só o macho é bonito. Agora estamos vendendo casais para pessoas de outras cidades. E tenho também – e comercializo – pôneis. Os meus são bem pequenos, tenho o menor pônei do Brasil, com 60 cm de altura. Seu nome é Chuvisco e já foram feitas várias reportagens dele. Ele é um animal dócil, simples e exótico também. É a alegria da criançada. Inclusive, temos a ideia de ampliar o que temos lá. Para ao futuro, tenho a ideia de desenvolver um projeto de educação ambiental no local, para levar as escolas. Vale a pena investir, mas no futuro, para quando estiver mais tranquilo.

Fotografia: Fernando Nunes

Sobre o Autor

Regina Lopes
Regina Lopes

É jornalista há 27 anos, editora da Revista Metrópole e jornalista da Prefeitura de Campo Mourão.

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