No coração, um fusquinha

Ele ronca para caramba quando arranca, quando passa e só fica quieto quando para. Aperta quem está no banco traseiro, deixa os passageiros cheirando a gasolina, mas é objeto de amor de uma legião de adoradores, que não o trocam por nada. Com mais de sessenta anos, mas com jeitinho de trinta, um dos carros mais vendido na história do país, o Fusquinha, tem um dia exclusivo na cidade e dezenas de fãs no Clube do Fusca de Campo Mourão, que se reúnem para botar os possantes para correr.

O Clube nasceu há seis anos, quando dois amigos que passavam tardes conversando sobre seus Volkswagens resolveram que deveriam reunir mais pessoas para… Continuar conversando sobre os carros. “Você ama ou odeia. E quem ama tem assunto, quer saber mais, quer se reunir”, conta o técnico de teatro Maurício Pozza, um dos fundadores do Clube, feliz proprietário de um Fusca ano 70, verde folha, de 1ª série.

A paixão pelos carros e a vontade de ver muitos reunidos foi o estopim para que Maurício, junto com o amigo Sílvio César Walter, começassem a disseminar a ideia do Clube, que começou com o primeiro Encontro de Fuscas, em junho de 2006. “Fizemos um panfleto, tirei xerox e saí espalhando. Onde via um Fusca, uma Brasília, uma Kombi, parava e deixava  recado”, fala Maurício.

E os panfletos fizeram efeito: mais de cinquenta veículos compareceram ao evento convocado no boca a boca e dezenas de apaixonados por Fuscas passaram a se reunir para conversar sobre seus objetos de amor. Com isso, afirma Maurício, vieram também os proprietários de outros carros antigos com motores a ar, seguindo a tendência de agregar todos esses carros antigos com características comuns. Claro que com um pouco mais de status para o Fusca, que deu nome ao Clube. A praça da Catedral ficou repleta de veículos.

Dali em diante, o clube começou a tomar corpo, mas nem por isso se tornou burocrático. “Não tem nem ata de fundação. É para trocar informação, para promover reuniões, não para amarrar as pessoas num compromisso”, salienta Maurício. Por isso também não é cobrada mensalidade e há eventos esporádicos, em geral dois ao ano: uma reunião anual e uma grande viagem. Assim, acreditam os fusqueiros, dá pra todo mundo participar livremente, sem ter a obrigação de participar periodicamente de reuniões, por isso tem dado certo.

Dessa forma, os fusqueiros se reúnem sem compromisso para aventuras Campo Mourão afora. 

Aventuras na estrada

Com o grupo reunido, os fusqueiros já foram para Blumenau-SC, Curitiba e até para o autódromo de Interlagos, em São Paulo, sempre em caravana, acompanhados de um bom churrasquinho na beira da rodovia e um ou outro companheiro metido a mecânico, para garantir que ninguém fique na estrada.

Pozza conta que as viagens são tradicionais, até mesmo porque, entre os dois compromissos instituídos pelo clube por ano, uma delas é a excursão, mesmo que nem todos os membros possam fazer parte. Neste ano, ele conta que parte dos associados participou do 6º Encontro Nacional do Fusca, em Curitiba, mas no decorrer do ano novas viagens podem ser programadas.

Desses passeios, além das fotos, que podem ser visualizadas no blog do Clube (www.clubedofuscacm.blogspot.com), muitas histórias são compartilhadas pelos membros. Medo de percorrer longas distâncias com os veículos que já levam até 40 anos nas costas? Nenhum. “O Fusca, assim como outros carros de motor refrigerado a ar, é desbravador, encara qualquer tipo de situação”, defende Pozza.

Dia próprio

Graças ao reconhecimento conquistado nos primeiros encontros, surgiu a ideia de ter um dia único para o carro na cidade. Aprovada pela Câmara, a ideia virou lei e enquanto os amantes do Fusca de todo o país comemoram seu dia em janeiro, em Campo Mourão a data comemorada é 29 de abril.

O Dia foi instituído por lei, em homenagem à data de partida do ex-prefeito da cidade, Milton Luiz Pereira, que morreu em fevereiro. Pereira deixou o cargo de prefeito em 1967, para se tornar juiz federal, mas, querido pela cidade, recebeu de presente um fusquinha azul, para que não fosse para a capital sem carro, como chegou aqui.

Mesmo com a ascensão na carreira e depois de se tornar Ministro do STJ (Superior Tribunal de Justiça), Pereira manteve o carro e, em 2007, voltou a Campo Mourão para um encontro de proprietários de veículos. O fusquinha azul, diz quem viu, parecia novo. Ele nunca teve outro carro e a admiração dos fusqueiros cresceu ainda mais. Em 2007, no terceiro Encontro do Fusca, conta Maurício, Pereira veio até Campo Mourão mais uma vez e recebeu homenagem do clube.

Paixão antiga

Maurício tem um Fusca 70 que, desde seus 18 anos, faz parte da história de sua vida, com algumas idas e vindas. É com ele que faz seus passeios e onde carrega a esposa e os filhos nos momentos de lazer. Tem outro carro para, justamente, relegar ao Fusca atividades mais prazerosas, não as tarefas do dia a dia.

Como o fundador, dezenas de outros “clubistas” devotam o mesmo amor pelo veículo. Para eternizar a relação, alguns célebres fusqueiros receberam homenagens, como “A Dama do Fusca”, conferido para Maria José Beller Figueiredo, dona Zeca, que circulava com seu fusquinha desde 1968 e morreu em 2006.

E é assim que se perpetuam as histórias de parceria com o carro, que propiciam a continuidade do Clube e também do veículo, que sobrevive mesmo com a expansão da indústria automobilística. Não só sobrevive, como se destaca e começa a virar relíquia.

Um pouco da história e dos carros poderá ser visto no 9° Encontro Mourãoense de Fuscas, que acontece neste ano exatamente no Dia Municipal do Fusca, 29 de abril, na praça da Catedral, aberto para todo o público.

De onde veio o Fusca?

O protótipo do carro que se tornou o mais vendido em todo mundo foi encomendado pelo ditador alemão Adolf Hitler, na década de 30, ao engenheiro Ferdinand Porsche, o mesmo que, anos mais tarde, criou a escuderia de carros de luxo. A ideia era construir um carro popular para uso das famílias alemãs, mas que fosse resistente, além de barato.

Em 1940 o primeiro Fusca saiu da linha de montagem, na Alemanha. O primeiro carro do gênero veio para o Brasil na década de 50, desmontado. Foi só quando a Volkswagen instalou sua primeira fábrica no país que o carro começou a ser produzido em série e, diferente do que muitos pensam, não era o mais barato dos modelos disponíveis. O modelo foi aperfeiçoando com o passar dos anos, mas grande parte das características originais foi mantida. A peculiaridade do carro no mercado também se deve ao nome.

O Volkswagen Sedan, que em boa parte dos países é conhecido por apelidos que sugerem suas formas, no Brasil virou Fusca – fuque ou fuça, para mais chegados -, graças à pronúncia da sigla da fabricante em alemã, VW.

Quer conhecer um pouco mais desta história? Acesse o blog: http://clubedofuscacm.blogspot.com/

  • Por Gracieli Polak
  • Fotos Valmir de Lara

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