Ney Piacentini

Ator profissional há 30 anos, Ney Piacentini se diz um projeto fracassado da mãe Lourdes, que o queria padre. Nascido em Campo Mourão, onde ainda tem família, concedeu entrevista à Metrópole nos intervalos do Fórum Municipal de Cultura EM 2011. Contando histórias da vida, falando da sua inquietude pessoal e das lições que aprendeu, se mostra um brasileiro que faz da cultura seu oxigênio.

Ney é ator da Companhia do Latão, participou de programas de TV, cinema, filmes publicitários e peças teatrais. Como ator e produtor teatral ganhou respeito e à frente da Cooperativa Paulista de Teatro se firma como um dos expoentes políticos da classe artística no país, atualmente debatendo as mudanças das Leis de Incentivo, especialmente a Lei Rouanet, do Ministério da Cultura.

São Paulo

Morando em São Paulo desde 1985, Ney Piacentini fala do que já viveu por lá e a importância da cidade em sua vida, seja na construção da vida pessoal ou da carreira que já alça vôos internacionais. Para o ator, São Paulo tem a cultura de um país inteiro. “Eu conheci o Brasil depois que eu fui pra São Paulo. Ela é ao mesmo tempo inóspita e hospedeira, não tem essa coisa, ‘ah! que fulano é caipira’ – ou nordestino, japonês ou preto. Isso não impede a miscigenação cultural. A briga pelo espaço é que é muito violenta. Sofri com isso, muitas vezes questionei o  que que eu estava fazendo nessa cidade. Me lembro que uma vez o Nilmar (irmão) foi me visitar e quando eles pegaram a estrada, chorei muito. Pensava: ‘Por que que eu fui sair de Campo Mourão? Lá eu tinha minha família, estava protegido, agora estava na arena dos leões, tentando encontrar espaço em uma cidade que tem muita competição’. Com o passar dos anos, uma mudança de visão e de postura, a busca pelo espaço não ficou tão difícil”.

Ney buscou novas maneiras para sobreviver, driblar os sonhos e vencer as distâncias entre os desejos e a realidade que experimentava no começo da carreira. “Enquanto eu estava querendo fazer sucesso, ficar famoso, me comparar com os paulistanos que já tinham estruturas familiares, sofri muito. Quando eu procurei outra forma de me deslocar na metrópole, procurar meus iguais, começar da base, recomeçar, eu me senti mais em casa, encontrei outras famílias e isso me fez estar onde eu estou hoje,  pertencente a um momento, do país, de São Paulo e de Campo Mourão. Então as fronteiras estão mais permeáveis”.

Fora do eixo.

A conversa com Ney flui rapidamente e já falamos sobre a produção cultural nas grandes cidades ou no eixo Rio-São Paulo e no interior; do distanciamento e das possibilidades de produção, para alcançar o público e cumprir a missão que a cultura tem de anunciar sempre uma boa nova para as pessoas. O ator argumenta que a descentralização é necessária e está em curso. “A concentração chegou ao limite, não consegue mais viver em grandes cidades. A cultura do eixo, se não se retroalimentar fora, fica autofágica. Cabe a nós levar adiante esta idéia, vamos misturar tudo, fazer com que os interiores e as capitais se mesclem. Quero que isso aconteça, eu e muita gente”.

Ney exemplifica os esforços falando da experiência à frente do projeto da Mostra Latino-Americana, que realiza com outros parceiros há seis anos. “É uma luta monumental que travamos para levar adiante, com debates sobre a produção dentro e fora dos grandes centros urbanos da América Latina. Desde a primeira Mostra promovemos encontros de redes de cultura, instituições civis e governamentais. No segundo ano nós fomos mais ousados, a Petrobrás dobrou o patrocínio e trouxemos conselhos e ministérios de cultura de vários países. No terceiro ano fizemos o encontro das associações civis porque queríamos que os brasileiros abrissem o olhar para os próximos. Não adianta a gente querer se comparar ao teatro europeu, a desproporção é gigantesca, então vamos começar olhando para os próximos aqui. No quarto ano a gente tentou um segundo encontro sobre essa possível criação de uma Liga Latino-Americana e trouxemos o Iberescena, que é um fundo ibero-americano para as artes cênicas. Ano passado criamos o Instituto Internacional de Teatro-ITI, sessão Brasil, que é ligado à UNESCO e promove o Congresso Mundial de Teatro, porque, de novo, a Petrobrás entrou com a maior parte de patrocínio na Mostra e este ano fizemos o encontro dos ITI’s da América Latina, com participação do Secretário Geral do ITI no mundo, que botou a gente, naquela semana, no centro do mundo”.

A produção cultural

Ney fala ainda da dificuldade que as produções brasileiras têm de circular, viajar para outras localidades e mostrar seu trabalho. “Aproveitando o momento de enxergar de interior para cidade grande, vejo que temos problemas continentais, comparando à Europa, onde você circula muito rápido. O que percebo é o seguinte: muitos conseguem produzir no Brasil. Muitas manifestações culturais estão ganhando autonomia e falando de igual para igual – o que já é um avanço – porque o cara vai com custo próprio, com custo local. Mas, circular é um grande desafio”.

Da sua experiência como ativista da cultura nacional, comenta os debates que mantém com diretores de grandes órgãos, como a Fundação Nacional de Artes-Funarte, presidida pelo ator Antônio Grassi. “Eu tenho um olhar de cima sobre isso, baseado em conversas e falas públicas de alguns dos nossos parceiros, como o presidente da Funarte. A idéia seria que a Funarte promovesse a circulação; municípios e estados, a produção. O Estado promoveria a circulação interna; a Federação, a circulação nacional. Mas se percebeu que muitas regiões do país careciam de fomento à produção. Na Câmara Setorial de Teatro forçamos uma mudança, então a primeira coisa que a gente fez, que ainda está em vigência, foi o fomento à produção – ao menos em Teatro – e nós já temos um projeto chamado “Prêmio Teatro Brasileiro”, que é um programa de fomento, não de premiação, que está no Pró-Cultura, no projeto de reforma à Lei Rouanet, no artigo 66. Regulamentado, vai fomentar a produção de núcleos continuados e circulação das companhias”.

Conhecido até como Kid Pastinha, profundo conhecedor dos mecanismos e das leis de incentivo à cultura do país, Ney lembra que a Secretaria de Cultura do Paraná está acenando que pode colocar cerca de 50 milhões em fundos públicos e 20 milhões em renúncia fiscal para projetos de incentivo, conforme declarou o coordenador de incentivos da pasta, Maurício Stunitz Cruz. “É uma revolução. Isso é uma grande mudança, é um compromisso, porque o maior estado do Brasil, São Paulo, destina hoje, para os eventos, 20 milhões através de fundos e 80 milhões via renúncia fiscal. O Paraná pode dar uma aula para o país”, explica.

Ney lembra, no entanto, que ter recursos não é tudo. “Dei aulas, cursos, clínica de formatação de projeto e criei laboratório de formatação de projetos dentro da Cooperativa. Mas a Regina Galdino, que é diretora Teatral, um dia me falou: ‘Ney, o negócio não é ensinar a fazer projeto, o negócio é saber fazer um bom teatro’. Falei: ‘Você tem toda a razão’. A partir daí começamos a fazer fóruns artísticos para saber qual é a carência das companhias, se em técnica ou conteúdo, para aprimorar o fazer estético. Porque o grande barato é estético, o público se encanta, rejeita, adere ou dá importância pelo que vê, pelo olhar, pelo que sente, entende, raciocina. Sem qualidade artística não tem cultura. Arte: esta é a premissa número zero”.

Sobre a arte, Ney fundamenta, respaldado nas resoluções da Câmara Setorial de Teatro da Funarte, que a formação dos artistas tem sido cada vez mais essencial, através de uma boa escola de artes cênicas – pública, de preferência – e ainda a formação do formador. “Não se pode pensar em formar só artista, tem que se pensar em professor de ballet, de teatro, de artes plásticas, de fotografia. O ensino das artes dentro da escola é que vai fazer a cabeça da galera para depois querer, pelo menos, se interessar, ter repertório para discutir; então a formação é um grande eixo”, e complementa: “A produção é um segundo grande eixo. Sem produção, para que formar, como é que você vai difundir e circular?”.

Cinema e Novelas

Com recentes experiências no cinema nacional, como “Lula, o Filho do Brasil” e “Trabalhar Cansa”, o entrevistado faz um breve retrato do cinema, das novelas nacionais e das mudanças culturais a caminho. “Temos a cinematografia ganhando espaço com grandes produções nacionais, ora de cunho religioso, ora saindo das hostes da emissora comercial que aposta um pouco no vício do olhar do brasileiro. Já, as médias e pequenas produções do cinema nacional não estão chegando às pessoas. Enfim, a gente tem que dizer que a Rede Globo prestou um grande desserviço, sabe por quê? Porque ela foi bem sucedida, criou o maior projeto cultural do país, um projeto de identidade nacional, o problema é que as bases desse projeto são questionáveis, são criticáveis. O país está mudando e as novelas não acompanham a expectativa cultural que o país está vivendo e a radicalização desse meio é BBB, que está se esgotando. As TVs educativas estão à míngua e tem muita coisa boa nelas. Eu tenho orgulho de ter participado da história da TV Cultura de São Paulo, na passagem das décadas de 80 a 90, apresentando o Programa Revistinha, que conseguiu uma transformação na linguagem televisiva. Ganhamos o Prêmio APCA de melhor programa infanto-juvenil durante dois anos e viramos selo do correio brasileiro”, diz.

O ator de cinema

Ampliando o debate sobre cinema, Ney fala sobre sua atuação na sétima arte, como se vê nas telas e como tem sido o processo de atuar em tão diferentes meios. “A migração do teatro para o cinema, para mim não é natural, não é fácil. O cinema é muito mais concentrado, estamos muito mais sujeitos a demonstrar os erros, diferente do teatro, que a pessoa não está com o olho pregado na tela. No filme “Lula, o Filho do Brasil” teve muita preparação, eu quase não falo no filme, mas o processo foi importante. Eu coordenei a Assembléia, sou advogado do Sindicato. No “Ópera dos Vivos”, por 25 minutos, personifico Magalhães Pinto, ali eu estava mais ligado no personagem, apesar do estilo Glauberiano. Você não pode querer mostrar muito serviço, senão você dança. Esses dias passei vergonha em uma cena minha na novela “Ana Raio e Zé Trovão”, na época tinha preocupação de não conseguir, a imaginação tem que estar a serviço da situação e não as caretas a serviço da ilustração”.

Ampliando horizontes

Aos 50 anos de idade, 30 de profissão, Ney fala sobre o processo televisivo e as dificuldades de conciliar as propostas com a formação e a vivência com a Companhia do Latão. “É difícil entrar na Globo, se não tivesse obcecado pelo meu trabalho no Latão, poderia ir com mais facilidade, mas vi que como ator, cidadão, não poderia entrar na Globo pela Malhação. Fazendo televisão, poderia fazer um pé de meia, com certeza. Se fosse uma minisérie, da literatura, como ator-cidadão, seria mais fácil. Sou um ator plural, vejo que um ator tem que fazer qualquer coisa, ele metamorfoseia vários tipos de pessoas a serem interpretadas. Mas, nós, artistas, somos melhores que os veículos, a Globo nos envolve, nos enquadra, com seu padrão americano de casting. Quando fui fazer o teste do Carandiru, foi muito suor, pancadaria, ficamos em laboratório, como se estivéssemos dentro da cadeia. Me escolheram para fazer o coronel da invasão – com meu perfil eu não poderia ser um bandido. Mas na época, tinha Festival em Curitiba, fui para lá por causa da Companhia e desisti do filme”, explica.

Companhia do Latão

A maior expressão da vida artística de Ney é a participação na Companhia do Latão, vencedora de importantes prêmios nacionais e internacionais onde é co-fundador.  Misturando a sua vida com a da Companhia, o ator desdobra-se em contar histórias e impressões: “O Latão é a coisa mais cara da minha vida artística, pois foi dele que eu parti para outras coisas. Eu, com o Sérgio Carvalho e o Marcio Marciano, respeitando alguma ordem de chegada, somos os fundadores da Companhia. E tem a Helena Albergariam, esposa do Sérgio, que além de ser minha principal parceira em cena, trabalhamos juntos mais do que quaisquer outros parceiros – Ela esteve em Cannes recentemente, pois protagoniza o filme “Trabalhar Cansa”. Eu faço parte do filme. O Martin Elchemeier é outro grande pilar da Companhia do Latão, ele é músico, gosta do trabalho coletivo, é ator, dramaturgo, diretor, ele trabalha mais junto ao Sérgio. Nosso trabalho musical é intenso, temos CDs lançados e alguns a lançar”, define.

“Temos no Latão atores, colaboradores, uns vem, outros vão, outros voltam. É desta forma. É um celeiro de gente muito inquieta, temos várias dramaturgias escritas. Desta forma tranquila, fomos criando um capítulo importante da história do Teatro Brasileiro. A gente é pequeno em relação à grande escala, à produção dos célebres, dos grandes nomes da televisão que fazem teatro. A estrada também é uma vocação nossa, há 15 anos viajamos por vários Estados. A Companhia tem interesse na pesquisa de conteúdos, em interferir na sociedade brasileira para que ela melhore, temos uma missão, um modo de atuar na contramão. Nossa base é realista, não queremos imitar, estamos almejando o realismo dialético, há sinais, em nossas oficinas, workshops”, complementa.

Fazendo um paralelo entre sua experiência como homem de teatro e a formação pessoal, Ney justifica porque optou por estar na Companhia. “Existem diferenças em nossa formação, mas estamos juntos, trabalhamos coletivamente. Eu já tinha uma cultura agregadora, de poder me juntar com os outros, que eu vivi em minha infância. Tive uma grande educação pública, joguei todos os esportes de quadra e também futebol de campo. Sempre tive dentro de mim o associativo, não gostava de individualidade. Adorava ir a jogos, não aguentava ficar fora, por isso fui fazer teatro de grupo” explica.

Trajetória de Vida

Os caminhos percorridos, para Ney, foram difíceis e também gratificantes, muitas lições de vida e amadurecimento que culminaram com uma vida dedicada à arte. “Eu saí daqui com 13 anos para fazer Colegial fora, sabedoria dos meus pais Lourdes e Avelino. Fiquei três anos no colegial, em Curitiba, foram os piores anos da minha vida, me vi como caipira, fui discriminado. Aprendi muito no Positivo e estudei em vários lugares – e fiz alguns amigos. Na família, fui um dos que mais demoraram para terminar a faculdade. Passei por Psicologia, Engenharia e Educação Artística, em Florianópolis. Lá, sequestrei uma professora dentro da Faculdade de Educação Artística da UDESC. Foi sério. Não me conformei de ela me dar uma nota baixa. Eu já era ator, tranquei a porta da sala de aula e não deixei ela sair enquanto a gente não resolveu. Depois fui para São Paulo”.

O ofício de trabalhador em artes e cultura foi sempre denso. Em 30 anos, Ney atuou de várias formas, sempre buscando novas maneiras de se inventar e estar feliz com o que vivenciava. “Quando perdi o elo do teatro, trabalhei com publicidade, fiz uns 200 comerciais de televisão, não me sentia bem. Quando fui fazer “O Legítimo Inspetor Perdigueiro” – com Antonio Calloni, Paulo Gandolfi, Maicon Human, entre outros – o Calloni falou para mim que a próxima peça tinha que ser mais densa. O “Legítimo Inspetor” era muito brincalhona. Já via em mim a vontade de dialogar com a sociedade. Estou escrevendo um livro, a primeira vez que estou fazendo isso e falando isso: “O Trabalho do Ator na Companhia do Latão”, comecei a escrever, mas não sei quando vai sair.

Concluindo mestrado sobre Eugênio Kusnet, o ator disse que mudou a forma de ver o ofício e abrem-se novas perspectivas. “Eu tive um click quando decidi o meu mestrado. O Sérgio me disse que isso mudou a forma de eu ver meu ofício, a orientadora do mestrado disse que algo estava acontecendo comigo ator, pois ela me via atuar. Não preciso dirigir agora, vou começar escrevendo ou dando aulas, com mini curso na escola SP de Teatro. Comecei com uma palestra e fiquei sabendo que os alunos gostaram. Eu tenho tendência estética para dirigir, eu luto contra isso, por ser resultadista. Hoje já consigo ver o resultado, como consequência do processo ou, como diria Fernanda Montenegro, o sucesso é uma consequência do trabalho, não um objetivo”, explica.

Volta às raízes como homem de teatro

Participando pela primeira vez de debates na cidade onde nasceu, sobre a questão cultural, Ney se sente à vontade, como cidadão mourãoense, para falar o que sentiu frente às iniciativas que conheceu como o Fórum de Cultura e o Fetacam.

“Algo que não consegui falar no Fórum é que a qualidade artística é a nossa galinha dos ovos de ouro. Me preocupo com a qualificação do teatro mourãoense. Quando eu venho a Campo Mourão, vendo “A Paixão de Cristo”, olho a Igreja, os vitrais, vejo o cenário, eu tenho visão de diretor. Poderia ajudar, como também à Escola de Circo, onde as mães participam muito. Achei um fenômeno uma mãe se manifestando no Fórum, sem nunca ter falado em público. Assim chegamos no coração das pessoas. Esta escola de circo tem sim uma tradição”, expressa.

“No Fetacam eu vim experimentar algo do Kusnet com um pessoal bem mais jovem. Acho que o Festival precisa renovar o formato de premiação, com todo respeito às pessoas, a arte tende mais à solidariedade. Eu fui criticado em São Paulo pelo Prêmio Cooperativa Paulista de Teatro, quando foi criada uma questão diferenciada, valorizando elenco, e não individuais. Quero ser um colaborador, sou mourãoense, minha família contribui com impostos aqui. Devemos provocar fisicamente o despertar cultural nas pessoas, nessas participações em workshops, eventos, você vê muitas coisas diferentes. As pessoas tem que ter humildade para aprender, quem vem de fora pode deixar informação aqui, para crescer”, finaliza.


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Metrópole Revista
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