Minha casa, sua casa, nossa casa

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É livro espalhado de um lado, louça suja na pia de outro. Almoços de prato único compartilhado com muitos amigos,  sensação de liberdade e as inevitáveis festas que atormentam a vizinhança “de família”. É, não tem jeito, cada vez mais Campo Mourão é reduto de repúblicas de estudantes de diversos temperamentos.

Com duas universidades públicas e o surgimento de novos cursos nas faculdades particulares, estudantes da região se mudaram para cá em busca de mais conhecimento. Ao mesmo tempo, gente de bem longe também dá as caras. Nesse intervalo entre o estudo e a saudade de casa, muitos aproveitam a experiência fora de casa para criar novos laços e aprender a se virar em uma nova família, porque é assim que muitas das repúblicas são nominadas. Metrópole conversou com duas delas e entrou na intimidade desses estudantes que vieram para cá em busca de estudo – mas também de muita diversão.

Santa República

Em algumas quadras da Rua Pitanga, no Centro, pra todo lado que se olhe há repúblicas – e de todo tipo que se imaginar. É ali que moram Tarini, Josimara, Francine e Luana. Elas estudam na Unespar/Fecilcam e vieram de cidades da região, de perto, e cada fim de semana, mesmo os que não são prolongados, fazem as malas e vão visitar os pais. Moram juntas não faz muito tempo, tem personalidades distintas, mas estão aprendendo a conviver.

Tarini Ghizoni Ferreti, aos 21 anos, tem larga experiência na vida de república. Desde os 16, quando saiu de Ivaiporã para fazer cursinho em Guarapuava, leva a vida dividindo a casa. Nos quase cinco anos, já morou com cerca de 20 pessoas, em situações que deram muito certo e outras que deram muito errado. “Teve gente que deu muito certo e outras que não foi nem um pouco bom. É gostosa a convivência, mas chega uma hora que não dá certo”, conta.

Josimara Marques dos Reis, que tem 18 anos e veio do distrito de São Lourenço, em Cianorte, está no segundo ano de Turismo e Meio Ambiente. É a caçula da república e já morou com uma colega em Campo Mourão. Para dividir tudo com as garotas, tem outra experiência. “Tenho três irmãos, então não vai ser muito diferente”, espera.

Quando a TPM chega de um lado e de outro, a situação fica perigosa

O vai e vem da rotina, em uma casa com quatro garotas, no entanto, não é muito fácil. Quando a TPM chega de um lado e de outro, a situação fica perigosa. “Eu sou muito festeira, cheia de trazer amigos para casa, enquanto a Josi já é mais quieta, na dela, então chega uma hora que irrita. Mas a gente conversa quando a situação começa a complicar”, diz Tarini.

Casa de sete homens

São sete homens distribuídos em um sobrado rosa, que, se não fossem as mesas espalhadas pelo jardim e as toalhas esticadas nas janelas, até passaria pela casa de uma família comum. Mas não é. A Rumspringa é uma das mais famosas repúblicas de Campo Mourão, daquelas que tem adesivos nos carros, festas para centenas de pessoas, camisetas e canecas para seus membros – pelo menos tinha. “Já quebrou a de todo mundo e olha que nem faz tanto tempo que fizemos”, conta o sorridente Wellington Maidana, 20, estudante de Engenharia Eletrônica na UTFPR, que veio de Campo Grande, Mato Grosso do Sul.

Ele é um dos mais novos moradores da     república, que se formou em 2010.A casa começou quando alguns dos meninos, que moravam em uma pensão, resolveram morar e viver pelas próprias pernas. A ideia inicial foi do estudante de Engenharia Ambiental Pedro Reis, 21, que veio de São Paulo. “Alugamos uma casa e fomos embora, mesmo que a gente tivesse que lavar a própria roupa e fazer comida”, conta. Com a roupa conseguiram um alívio com uma diarista, mas foi por pouco tempo. Decidiram fazer tudo por eles mesmos e aí a bagunça se perpetua até hoje.

Aproveitando a liberdade, os garotos começaram a fazer festas, mas a vizinhança não foi muito agradável. “Demos uma festinha, só para umas 20 pessoas, mas deu problema. Fomos demitidos da casa”, conta Gabriel Cherulli, 20 anos, que veio de Uberaba, Minas Gerais. Com a demissão em mãos, o jeito foi procurar outra casa, mas não foi fácil.

Até encontrarem a atual – ampla e com uma vizinhança “gente boa” – eles penaram, mas agora festam e mantêm um bom relacionamento. “Fazemos um churrasquinho pra eles, somos bacanas, compramos sempre um presentinho depois das festas e, claro, fazemos só de dia. De noite não dá”, defende Wellington.

A Rumspringa

O nome da república é peculiar. Rumspringa, explicam os rapazes, não é apenas uma junção tosca do nome de duas bebidas. Tem um sentido bem mais amplo que isso. “Assistimos a um filme e ele falava de uma vila em que os rapazes saíam para viver a vida, longe dos pais, um período de completa curtição chamado Rumspringa. Não tinha como ser outro nome”, conta Wellington.

E é isso que eles têm feito. A churrasqueira cheia de lembranças de outros churrascos conta isso. Apesar de a casa ser ideal para as festas, eles juram que não tinham essa pretensão quando se mudaram. Queriam no máximo fazer churrascos para os amigos. Aí, em um churrasquinho, um amigo achou que poderia chamar mais pessoas para outra festinha. Quando viram, mais de 300 pessoas estavam no pátio da casa na cervejada de recepção aos calouros e eles se tornaram muito populares. Mas não é só isso, não. Apesar das grades e garrafas de cerveja espalhadas no quintal, eles também estudam e levam a faculdade a sério.

Assim como eles, os outros meninos que habitam a casa, Evandro e Rafael (que estavam fora da cidade, por causa da greve da UTFPR) também moram longe, em outros Estados. O único que mora perto, em Terra Boa, é Vinicius. Arthur Pires, 21, que veio de Santo André, ficou. “A gente mora bem longe, então não tem como ir sempre para casa. Só nas férias e feriados prolongados”, explica.

A saudade de casa, com as amizades, é amenizada. “As festas são para distrair um pouco e também dar uma ajuda nas nossas contas. Em cidades universitárias, como as mineiras, têm muito disso, há uma tradição das repúblicas que continuam sendo levadas adiante. Estamos tentando fazer história aqui”, brinca Gabriel.

E você, aguentaria ser vizinho de uma república? Ou vê com bons olhos quem está nessa fase rumspringa da vida?


Sobre o Autor

Gracieli Polak
Gracieli Polak

Gracieli Polak é jornalista e blogueira, especialista em escrever sobre quase todo assunto – especialmente os que lhe agradam.

4 Comentários


  1.  

    Ah moleque! Nossa queridssima República Rumspringa saindo na Revista!!!




  2.  

    Ah moleque! Nossa queridssima República Rumspringa saindo na Revista!!!




  3.  

    Olá, Fui aprovado em Campo Mourão e estou a procura de uma república. Tem algum canal que posso usar, afim de, pesquisar possíveis vagas?




  4.  

    Olá, Fui aprovado em Campo Mourão e estou a procura de uma república. Tem algum canal que posso usar, afim de, pesquisar possíveis vagas?





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