Mila BariStar

A publicitária mourãense Mila Salvadori descobriu, como barista da maior rede de cafeterias do mundo, a Starbucks, um jeito de viver a cultura americana atrelada a uma das paixões brasileiras, o café.

 

Mila Salvadori Solverson, barista trainer da rede Starbucks Coffee Company, na cidade de Ukiah, Califórnia(EUA), é a entrevistada de Metrópole para a sessão out side dessa edição. Formada em Marketing e Propaganda pela Unopar, de Londrina, iniciou sua carreira na V8 Comunicação, em 2003, onde atuou em várias funções: de “copywriter”, tráfego, a planejamento. Morando nos EUA desde 2005, quando foi fazer uma experiência como au pair, Mila resolveu se mudar definitivamente do Brasil em 2007, já casada com o americano Tom Solverson. De visita ao Brasil com a família, Mila fala da vida fora do país e do trabalho como barista em uma das mais importantes companhias da América.

 

Morar nos Estados Unidos

Sempre tive curiosidades em relação ao país, desde pequena, vendo fotos, filmes, histórias. Sempre gostei muito de viajar e quando a oportunidade do programa de intercâmbio surgiu, não pensei duas vezes. A proposta era morar com uma família por um ano – nada melhor do que isso para conhecer de perto os costumes desse povo. Ser Au Pair foi outra história… Nunca pretendi ser “live-in nanny”  de ninguém, mas essa era a menor parte do trato, e meus “host-parents” (com os quais mantenho contato até hoje) foram os melhores anfitriões que um intercambista poderia ter, então tirei de letra! Eu e meu marido começamos a namorar enquanto eu morava em Fairfield, com minha “host family” – Fairfield está a duas horas a leste de Ukiah – e quando eu voltei para o Brasil ele veio junto.  Depois de um ano nos casamos e achamos que seria mais oportuno me mudar para os EUA com ele.

 

A cidade e o trabalho

Moro numa cidade pequena (18 mil habitantes) chamada Ukiah. Fica em Mendocino County (um dos maiores condados produtores de vinho, no norte da Califórnia, juntamente com Napa), a duas horas ao norte de São Francisco.  Sou Barista Trainer no Starbucks Coffee Company – SBUX. Sou primeiramente barista – faço bebidas baseadas em café –  vendo café em grão e treino outros baristas.

 

Atmosfera Starbucks

O que primeiro me atraiu ao Sbux foi o café. Resolvi voltar – e, conseqüentemente, tentar uma vaga – por causa da atmosfera do lugar. Em todas as lojas era sempre recebida como se fosse a melhor amiga da equipe que estava atrás do bar. Sempre sabiam o meu nome e a minha bebida favorita. Mas o apelo da empresa, como empregadora nos EUA, foi o fato de ser uma companhia que oferece benefícios para “hourly-partners” (pessoas que recebem por hora trabalhada) que trabalham meio período. Para ganhar benefícios nesse País você precisa trabalhar cerca de 40 horas por semana. Saúde aqui custa muito caro. O Sbux oferece tudo isso praqueles que só podem trabalhar 20 horas, por exemplo. Tenho quatro baristas em idade escolar (16 e 17 anos) na Loja (a lei não permite que trabalhem mais de 26 horas por semana) e todos eles recebem seguro saúde.

Caminho Percorrido

Trabalho no Sbux desde abril de 2008. Sou a barista mais antiga da minha loja – que chamamos de Airport Park, por estar localizada próximo ao aeroporto. Preenchi uma ficha assim que me mudei para Ukiah, em janeiro de 2008. Não tinha pretensão de trabalhar numa cafeteria, mas precisava de um emprego e não aparecia nada em Propaganda. Mandei currículos para muitas agências. Porém, me mudei para os EUA logo quando a crise econômica começou a abalar o País e recebi inúmeros emails e cartas agradecendo o interesse, elogiando meu currículo, mas também se desculpando e explicando o motivo pelo qual não podiam me contratar nem como trainee. Fui chamada então, em fevereiro, para trabalhar na mesma loja onde o Tom trabalhava, o Mervyn’s (loja de departamentos). Após alguns meses no Mervyn’s fui chamada para uma entrevista no Sbux e, em abril, comecei a trabalhar lá. Mantive os dois empregos por três meses e desisti do Mervyn’s quando o Sbux me pediu para ficar tempo integral.

 

Opções no Menu

Café coado no filtro temos três diariamente: médio (Pike Place Roast), forte (um diferente a cada semana, cerca de 10 em variedade) e descafeinado. Mas contando com as bebidas de café expresso, é possível criar até 87 mil combinações desde o mais simples como o Pike Place Roast a mais excêntricos como os do Starbucks Reserve, que seleciona entre milhares e utiliza apenas os grãos excepcionais- são cafés de lugares exóticos, com notas de fruta, pouca acidez e, às vezes, até raros. No menu mesmo estão bebidas mais populares, cerca de 100, entre cafés, chás e bebidas geladas.

 

Formação Trainer

Durante o treinamento assistimos vídeos e temos material de leitura basicamente sobre serviço ao consumidor. Depois dessa parte começamos a por a mão na massa. Eu tive três “learning coaches”, cada um me ensinou um módulo. Aprendemos sobre grãos, como preparar o café com perfeição, como operar a máquina de espresso (expresso), todos os ingredientes, e aí as receitas para as bebidas. Uma vez que aprendi como operar as máquinas (moedor de café, a super cafeteira, a máquina de espresso, a prensa francesa) ficou  mais fácil. Temos os cartões de receitas bem perto do bar, para quando a memória falha. E, no mais, temos clientes bem peculiares, que pedem a bebida baseando-se em ingredientes que oferecemos, e não pelo nome.

 

Construção de carreira

Quando somos contratados, ganhamos o “Coffee Passport”, onde descrevemos cada um dos cafés que o Sbux oferece após fazermos uma degustação. Já completei quatro passaportes desde que comecei e já completei um passaporte de chá também. Já experimentei praticamente todas as bebidas do menu e mais as nossas próprias criações, ou as de um ou outro cliente, que nos deixam curiosos. Além disso, todos os anos introduzimos as bebidas sazonais, que mudam sempre. Até porque, é uma das coisas que aprendemos no treinamento: para oferecer, é necessário conhecer e descrever.

Sou a barista mais antiga da minha loja. Foi me oferecido o cargo de supervisora de turno quatro vezes, porém, precisei recusar por não ter disponibilidade para trabalhar a qualquer hora do dia por causa da Berlin (filha). Levando isso em consideração, minha gerente me ofereceu o cargo de “barista trainer”, e justificou, me dizendo que sou uma ótima barista, tenho atitude e amplo conhecimento do que fazemos, sendo bom exemplo para os outros baristas. Fui a primeira “barista trainer” do distrito.

O “barista trainer” aprende sobre novos procedimentos e produtos e treina o restante da equipe e os baristas novos.

Dificuldades do  ofício

Lidar com consumidor no ponto de venda é difícil. Você precisa vestir a sua cara de Starbucks e entrar do outro lado do balcão com nada mais na mente. É claro que eu adoro o serviço e fiz inúmeros amigos entre meus clientes. Outros compartilham suas histórias com a gente e assim nos tornamos a parada diária dessas pessoas, antes de começarem seus dias. Porém, muitos nem dizem bom dia, não agradecem, e reclamam se você colocou duas doses de baunilha na bebida ao invés de duas e meia. Já tive problemas com um ou dois clientes mal humorados, mas apenas me desculpo, sempre sorrindo e sendo agradável.

 

Boa remuneração

Penso que sou bem remunerada, tendo em consideração a quantidade de serviço. O salário mínimo da Califórnia e o segundo mais alto do País (oito dólares por hora). O Sbux paga como salário inicial um pouco mais que o mínimo (por hora). E ainda tiramos gorjetas. A cada seis meses temos uma avaliação e, se de sucesso, um aumento. Sou a barista mais bem remunerada da loja, ganhando um pouquinho mais que meus supervisores (que tem menos tempo de casa que eu), porém bem menos que minha gerente.

 

Retornar a publicidade

Adoraria voltar para uma agência, mas gostaria de fazer isso no Brasil. Nesse tempo que estou nos EUA observei que aqui a publicidade, propaganda e marketing são muito agressivos – no sentido ruim da palavra – e “jogam baixo”. Todo mundo processa todo mundo por qualquer coisa, inclusive anunciam isso na TV. Concorrentes falando mal de concorrentes em rede nacional: parece que precisam diminuir o outro para parecer melhor. Não acho legal. Propaganda bacana, inteligente, de qualidade, acontece só uma vez por ano, no comercial do Super Bowl.


Sobre o Autor

Metrópole Revista
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Revista de variedades.

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