Meio século fazendo a cabeça das mulheres mourãoenses

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Pequena no tamanho, mas grande na coragem, a cabeleireira Paulina Tanahashi Matsuguma comemora os 50 anos na profissão, sem largar de suas escovas.

São 50 anos entre escovas e tesouras, fazendo penteados, cortes, permanentes, na eterna busca de deixar as mulheres cada vez mais bonitas. Assim foi que a cabeleireira Paulina TanahashiMatsuguma escreveu seu nome na história de muitas mulheres mourãoenses, as embelezando para o dia a dia ou para ocasiões especiais, conquistando gerações de clientes. “Tem famílias inteiras que fazem o cabelo comigo. Veio a mãe, aí veio a filha, depois a neta e até a filha da neta”, conta.

Com a autoridade de quem conhece boa parte das mulheres da cidade, Paulina conta que nasceu em Horizontina, no Rio Grande do Sul, mas ainda menina chegou à região de Campo Mourão. Seu pai, japonês, resolveu buscar novos rumos, junto com outras famílias também japonesas e vieram parar aqui. Por um tempo moraram na região, mas por segurança, decidiram se mudar para Campo Mourão. Aos nove anos ela conheceu a cidade, mas foi morar no campo. Até os quase 18 anos trabalhou na roça, plantando e colhendo verduras. Foi aí que decidiu que queria uma profissão para si. “Queria um Fusca pra mim, mas meu pai não quis me dar. Então decidi: vou ter uma profissão para poder comprar o que quiser”, lembra.

Boa costureira, nem pensou em se especializar em fazer roupas para os outros. Percebeu que tinha talento com as mãos e, com ajuda do cunhado, se mudou para Apucarana para aprender a trabalhar em salão. Chegou lá com o salão lotado, sem saber o que fazer. “Aprendi muito rápido, foi a minha sorte. Em pouco já sabia fazer tudo e até recebi uma proposta para ser sócia do salão, mas decidi voltar e abrir o meu próprio salão aqui”. E assim fez.

Abriu uma porta no centro da cidade e os clientes não tardaram a chegar. Desde sempre, colocou sua plaquinha “Salão Paulina”. Não pensou em colocar outro nome. “Poderia até colocar um nome bonito, da moda, mas iam acabar dizendo que era o salão da Paulina, o salão da Maria… É assim que fica”, pontua.

Tempos glamourosos

Naquele começo do salão, relembra, os tempos eram outros, a cidade era mais glamourosa. Para os grandes bailes, mulheres vestidas ricamente, as damas da sociedade, vinham até o salão com vestidos luxuosos. E a moda era outra também para os cabelos, os penteados demandavam não só atenção, mas também muito jeito. “Hoje qualquer um pode ser cabelereiro, basta aprender a técnica. Tem produto para tudo. Naquela época eu fazia tudo e só tinha laquê”, destaca.

Mesmo com o laquê pesado e os volumes à “la Brigitte Bardot” da época, Paulina conta que as mulheres marcavam ponto no salão toda semana para pentear o cabelo – e faziam o penteado durar por toda a semana. Perfeccionista e detalhista, a cabelereira conta que pentear não era só um ofício, mas uma arte, por isso mesmo, no seu salão tinha quem fizesse outras funções, mas a cabeça de todas as clientes passava pelas suas mãos. “Trabalhava até meia-noite, atendia muita gente e dava conta de todo o trabalho. Não tinha quem fizesse os penteados, então as obras eram só minhas”, se diverte.

Outra data bastante disputada era o 7 de setembro. “Todo mundo queria estar arrumado para o desfile”, fala. Dando conta do trabalho ela foi aumentando o salão, que passou por vários locais até que, há cerca de três décadas, comprou o terreno em que está hoje. Ao longo do tempo, com a clientela crescendo cada vez mais, foi contratando ajudantes, muitas delas bastante novas, para ensinar o ofício. “Era uma oportunidade para que as meninas aprendessem uma profissão. Muitas ficaram por um tempo comigo e depois abriram seus próprios salões”, conta.

Oportunidade para aprender

  Ainda hoje ela emprega meninas que desejam aprender a trabalhar em salão, mas pelas restrições trabalhistas, hoje só maiores de 16. “E com boas notas na escola”, pontua. Apesar da pouca idade, o requisito para trabalhar no salão é um só: fazer direito. E ela pega no pé. “Todas são treinadas, se especializam”, conta.

A sobrinha Sheila Fushiki Ferri, hoje uma das profissionais do salão, começou a observar muito cedo o trabalho da tia. Aos nove anos, mais ou menos, já ficava espionando o trabalho e aprendendo, se especializando. Hoje, assim como Paulina, sabe fazer de tudo um pouco – e bem feito. “Ela é bastante exigente, mas é amiga, ajuda muito quem está começando e isso também é um ponto alto do salão: a gente ensina as meninas a fazerem, ajuda para que elas tenham uma profissão, por isso não fica num “entra e sai” de gente, temos funcionarias fiéis”, ressalta Sheila. Só da família, quase uma dezena fez do salão seu local de trabalho.

E é pensando na família que o salão sempre esteve repleto de mulheres – só mulheres. O marido de Paulina, Eike, não via com bons olhos funcionários e clientes homens. Quando um homem foi contratado para a equipe, pediu para escolher entre ele ou o funcionário. Venceu. Mas, agora ele relaxou e o salão abre as portas também para os homens, que estão chegando tímidos. São tempos modernos, ela admite, timidamente.

Tempos atuais

Hoje, com tanto produto e tanta moda, principalmente o desejo de ser loira, Paulina conta que o forte do salão está nos tratamentos químicos: tinturas, alisamentos e demais técnicas. “Atendemos toda a região. Tem gente que vem desde São Pedro do Ivaí para fazer com a gente”, conta. Clientes que se mudaram para outros Estados, ressalta, também voltam duas vezes por ano para renovar o cabelo, caso de uma cliente que hoje mora no Acre.

Para atender à demanda, 15 pessoas trabalham no salão, que abre de segunda a sábado e dificilmente tem horários vagos, mesmo no começo da semana. Aos 68 anos de idade, a última a sair, todo dia, continua sendo a dona, que não sabe quando vai abandonar escovas, pentes e secadores.

Nos últimos anos, conta, ela tem tentado, com sucesso, se distanciar um pouco do trabalho, principalmente porque tem confiança na equipe, mas acredita que se manter ativa é a fórmula para encontrar tanta disposição, mesmo com 50 anos de trabalho pesado, trabalho este de que ela nunca reclamou e que nunca faltou. “Desde que abri meu primeiro salão, lá na década de 60, nunca me faltou trabalho e espero que nunca falte. Hoje minha família já cansou de pedir pra eu parar de trabalhar, ninguém mais fala, mas vou continuar nesse meu ritmo”, defende. “Só sou pequena, mas coragem eu tenho de sobra”, finaliza.

 

 


Sobre o Autor

Gracieli Polak
Gracieli Polak

Gracieli Polak é jornalista e blogueira, especialista em escrever sobre quase todo assunto – especialmente os que lhe agradam.

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