Missão de fé e esperança

Levar esperança e fé aos cidadãos do interior de Moçambique, na África, enfrentando uma realidade de extrema pobreza, foi a experiência que a odontopediatra mourãoense Bruna Bukowski Pereira, integrante da Igreja Capela do Calvário, viveu em 2011. Entre as muitas lições de vida que trouxe, está a de que, mesmo pobre e abandonado, o povo de Moçambique é acolhedor, solidário nos sofrimentos e ainda têm alegria para cantar.

Foi algo que não esperava porque nunca tinha saído do Brasil, nem feito uma viagem tão longa. Tudo muito novo. Fui por meio de uma amiga da igreja, Delinda Dickerson Witikoski, que tinha esse sonho. Ela é americana e filha de missionários. Ela me chamou para conhecer a África e falar de Deus para aquelas crianças. Como já trabalho com crianças, uni o útil com o agradável e realizei com ela um sonho colocado na minha vida”, justifica.

Em Moçambique já existe um campo missionário da Igreja que emprega pessoas e promove ajuda humanitária, incluindo a alfabetização.  Bruna e Delinda ficaram com a família de Dwith e Lynn Lagore. Ela é enfermeira e atua como se fosse médica do povoado. “Se não fosse ela, não teria nada lá. A saúde é precária. Morrem crianças toda hora, por malária, de fome. Não imaginava que era tanto. Aprendia a não reclamar da vida. Vim de família simples, minha mãe foi uma guerreira de conquistar tudo. Mas lá você vê que aquelas crianças andam 10 quilômetros para chegar na escola que a missão montou. Como chove muito pouco – só uma vez ao ano – eles plantam milho, que é o que dá, para durar o ano inteiro. Então é milho no café, no almoço e na janta. Eles fazem uma farinha desse milho e misturam na água. Fazem um mingau e é só isso que eles comem”, lembra.

As missionárias ficaram 15 dias no Acampamento Missionário conduzido por Dwith e Lynn, que estão há 16 anos em missão perto de Chimoio – famosa pelos diamantes – e de Maputo,  a capital do país, no litoral sul da África. A base dos trabalhos era uma escola local, onde trabalhavam pela manhã, ensinando religião. No período da tarde eram feitas visitas às tribos das proximidades. “A gente falava que tem uma esperança, que a gente deve andar certinho, para não pecar, não mentir, não desobedecer, ir para aula. Usamos como estratégia um livro sem palavras e, através das cores, ensinamos, mostramos que existe uma esperança, associada à vida cristã. Com um guarda-chuva todo colorido a gente andava pelas tribos e eles nos seguiam para aprender mais. Eles também nunca tinham visto escovas de dentes. Quando eu levei ficaram todos encantados, nos acolheram muito bem”.

O foco não era a odontologia, mas através dela, Bruna viveu uma das situações mais marcantes em sua passagem pela África. ”Queria ter ajudado mais. Eles precisam muito. Você vê o sorriso lindo, mas muita precariedade. Não tem nada. Penso que da próxima vez vou levar algo, fazer algum trabalho de intervenção mesmo, deixar montado um espaço para cuidar deles. Quando cheguei lá, um senhor estava me esperando porque não aguentava de dor. Até levei escova, flúor, pasta de dente e um macro modelo para orientar a escovação, mais para fazer a prevenção. Tentei atender, improvisando com alguns instrumentos e a ajuda da Lynn, mas não deu certo, foi uma judiação. Acabamos levando à cidade para tirar o dente, em um consultório caríssimo”, relata.

“Dormíamos em barracas no acampamento onde tem cozinha, banheiros e área de atendimento. O pessoal do Canadá foi que abriu o local. Tem gente lá o tempo todo e é aberto para quem quiser ir lá ajudar, não só como missionário, mas também como médico, dentista, enfermeiro. Eles até levam estudantes do Canadá como estagiários, sem remuneração. Foi uma alegria grande poder ter ido participar desse sonho da Delinda, aprendendo e crescendo”, fala emocionada.

Impressionada com a vida das pessoas nas tribos e cidades perto de onde ficou, a dentista relata situações do cotidiano de extrema pobreza e falta de recursos, resultado de uma guerra civil de 17 anos que destruiu as estruturas existentes. “Uma das consequências da guerra foi que não vimos um cavalo, na época mataram quase todos. Eles conseguem produzir ovelhas, galinhas, e cabras. Quem tem um boi ou um cabrito é próspero. Teve um senhor para o qual compramos um bode e uma cabra. Custou uns 25 reais, mas para ele foi o melhor presente do mundo. A guerra acabou com muita coisa lá e eles não têm noção de nada. Eles não tem muito conhecimento, ateiam fogo e vão queimando o resto de mato que tem. É como se fosse um serrado lá. Para ver animais só indo em parques, porque acabou tudo”, conta.

A situação das tribos e a extrema miséria também impressionam na narrativa da mourãoense. “As moradias precárias favorecem a proliferação da malária. E lá tem altos índices de pneumonia e de queimaduras entre crianças, porque de dia é muito calor e à noite é muito frio e eles fazem fogo dentro das casinhas para se aquecer. A água vem de poços que o governo abriu, só que é muito longe. Então você vê criança desde pequenininha carregando baldes na cabeça e um monte de gente na beira da estrada, andando ou sentados assistindo o dia amanhecer e ir embora. O comércio mais perto é uma feira em uma cidade próxima e eles vendem de tudo: roupas usadas, chinelos. A maioria na base da troca porque não tem o dinheiro. Se R$1 para nós é pouco, para eles é muito dinheiro. Uma diferença absurda, mas vejo que o que ainda mais precisam é de esperança”, comenta.

Apesar do cenário triste e da falta de perspectivas, a missionária avalia que foi uma vivência muito positiva e pode observar que o povo ainda tem alegria e é capaz de demonstrar muito amor ao próximo. “Eu pensava: meu Deus eles ficam o dia inteiro aqui em busca do nada porque não têm trabalho, não têm expectativa de vida, porque não tem como eles crescerem. Mas ao mesmo tempo têm uma alegria diferente da nossa. Mesmo com aquela pobreza, são felizes, têm ânimo. Aos domingos na igreja as mães colocam os bebezinhos nas costas, ficam pulando e cantando. Não sei de onde vem tanta força. E as vozes delas são lindas. As famílias têm muitos filhos e têm um amor muito grande por cada um, demonstram isso. Os irmãos mais velhos cuidam dos mais novos e se veem aquelas crianças pequenas já com os irmãos nas costas. Eles acabam amadurecendo muito cedo pela responsabilidade e se casando. Vivem isso com naturalidade”, analisa.


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