Impressões Haitianas

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Como sargento do exército brasileiro, ele teve a chance de servir a pátria em um dos momentos mais importantes da história recente: a reconstrução do Haiti. Atualmente vivendo a tranquilidade de Campo Mourão, como INSTRUTOR do Tiro de Guerra 05-019, o sargento Leandro Scapin reviveu com Metrópole alguns dos momentos experimentados durante a missão da ONU naquele País, compondo o Batalhão de Infantaria de Força de Paz (BRABATT 1) NO 15º Contingente Brasileiro na Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti – a MINUSTAH.

Natural de Campo Largo, Scapin ingressou no exército em 1991 em Curitiba. Em 1992 foi para a Escola de Sargentos das Armas (EsSA), em Três Corações(MG).  Desde então percorreu um caminho de formação que passou por Ponta Grossa e a Amazônia, no 17º Batalhão de Infantaria de Selva (17 BIS) na cidade de Tefé, a 600 Km de Manaus, na calha do Rio Solimões, onde fez missões de patrulhamento da fronteira com a Colômbia. Voltou em 2000 para o 20º Batalhão de Infantaria Blindado (20 BIB), em Curitiba, e a partir de 2002 para o 13º BIB, em Ponta Grossa, onde foi nomeado instrutor do Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva (NPOR). Em 2008 retornou para o norte do país, desta vez para o Comando de Fronteira de Roraima, 7º BIS, na cidade de Boa Vista. Em 2011 o Comando Militar da Amazônia organizou a Tropa que compôs o Batalhão de Infantaria de Força de Paz (BRABATT-1), no Haiti.

“Na época eu trabalhava com pagamento de pessoal e fui indicado para participar nesse grupo chamado G1. O meu trabalho nesta primeira fase era levantar voluntários e, em seguida, a documentação deles, como passaporte e visto americano, porque uma das bases da missão no Haiti é nos Estados Unidos”.

A preparação demorou quatro meses, um deles, internado no Batalhão, o que serviu também para a família se acostumar com a ausência. O grupo seguiu viagem em 30 de agosto de 2011 para PortAu Prince, capital daquele país caribenho.  No BRABATT, Scapin exerceu função junto ao G1, seção de logística de pessoal, controle de permanência no país e controle dos “livings” – folgas que os militares têm durante a missão, mas que têm que ser gozadas fora do país.  A missão daquele contingente durou 8 meses, mas o Sargento Scapin retornou após 5 meses e 14 dias, por ter sido nomeado instrutor do Tiro de Guerra 05-019, de Campo Mourão, onde chegou em fevereiro de 2012.

“Lá no Haiti, cerca de 75% do efetivo está atuando em campo. Lá tem que estar pronto 24 horas por dia. Por controlarmos os “livings”, tínhamos que saber diariamente quem estava pronto para qualquer operação e quem estava fora. As entradas e saídas deste pessoal requeriam algumas medidas. Por exemplo, todo deslocamento precisava de escolta, seja para o grupo ir ao Aeroporto ou pegar ônibus para ir até o outro lado da Ilha, porque a condição de instabilidade no país não permite o livre trânsito. A presença da ONU é para assegurar que o país melhore desta instabilidade. Por medida cautelar ou de segurança o militar é sempre escoltado por onde anda”, argumenta.

Apesar do trabalho administrativo, Scapin teve tempo de conhecer de perto o país,através das pessoas com quem conviveu na Base e nos trabalhos de Ação Social que o exército promovia junto às creches ou albergues. “O exército oferece apoio material e se faz presente para mostrar às crianças como uma força amiga, para ajudar a melhorar o País. Depois do terremoto, ele trabalha na manutenção da estabilidade, da paz, não em função de combate. Os militares têm a função de ligar o povo e as autoridades que estão se consolidando, mantendo a segurança deste novo sistema e, é claro, propiciar para o povo algumas rotinas, como campanha de limpeza nos bairros. Porque ainda tem muito lixo e desorganização. Chama os líderes locais para mutirões de limpeza de ruas e praças, conclamando para trabalhar, porque o Exército não deve fazer somente a prestação de serviços, pois não resolveria o problema, estas ações têm caráter educativo. Querem mostrar que são capazes de fazer e é claro que a influência cultural externa transfere um pouco do modo de viver”, comenta.

Apesar da folga – limitada – os militares podem falar sempre com a família ou receber notícias do Brasil, mas a atuação para quem fica na Base é em situação de confinamento. “É um Big Brother. Na Base vivíamos em contêineres, seja para morar ou trabalhar. Eles têm vedação térmica porque o calor chega aos 40 graus. Eles são resistentes e foram umas das coisas que, no terremoto, não sofreram danos. Foram feitos na Itália, especialmente para esse fim”, informa Scapin.

Se a saudade, a distância e a tensão são grandes, a remuneração dos soldados tem suas vantagens porque é acrescida de um valor que a ONU paga em dólares e quem vai para missão tem preferência para ser contemplado com promoções, que, na maioria das vezes, são para os melhores lugares e quartéis do Brasil.

Ele destaca ainda que a situação no Haiti já mudou bastante nos últimos anos e brinca, ressaltando que maior risco hoje é o trânsito, que é caótico, mas que, apesar disso, sempre os militares do Brasil circularam com carros do exército, nunca sozinhos.  “Eles não têm emprego e a violência está controlada pela ONU. O terremoto criou uma situação de unidade na nação, um despertar com uma ação humanitária muito forte.

Entre as coisas mais marcantes que presenciou, o Sargento cita o altruísmo dos Haitianos. “Eles têm problemas, mas não é pela falta de vontade, é pela conjuntura. Vi, nos Haitianos que trabalham ou moram na base, como são empenhados. Me impressionou um dos trabalhadores da Base, que, com U$ 150 de salário, ajudava a família e ainda pagava educação dos filhos e netos. Lá, algumas crianças falam 4 línguas (inglês, espanhol, francês e creole – língua local), mas a educação é paga. Eles têm vontade de mudar, porém têm grandes problemas. São seis milhões de pessoas numa ilha, em situação de miséria. Porto Príncipe, que é pouco maior que Maringá em área, tem 3 milhões de habitantes e não tem prédios. À tarde a cidade é tomada pelo pó devido a existência de pedreiras no seu entorno. O aeroporto é bastante movimentado com voôs vindo dos EUA, Canadá, Inglaterra Alemanha, França e Panamá. Eles têm indústrias de primeira qualidade, como a de laticínios e de café, mas a construção civil é atrasada, que é onde o Brasil entra com sua ajuda.

Scapin diz ainda que a maioria perdeu as casas no terremoto e mora em assentamentos de lona chamados “ID Peace”, localizados perto de rodovias. Em todo o país há muita precariedade de recursos, incluindo muita carência de energia. A agricultura é pequena e o território é íngreme, apenas uma área costeira tem irrigação nas plantações. As praias são belas, mas,devido à instabilidade, o turismo não pode ser explorado adequadamente”, cita.

A presença do Brasil é bem marcante na ilha e os brasileiros sempre são muito queridos pelo povo e têm presença efetiva, principalmente em igrejas e ONGs, como a Viva Rio, que é muito forte. “Nosso País tem se mostrado amigo do povo do Haiti. Ajudamos e ensinamos a fazer, para eles seguirem com a vida deles. O Brasil está presente na engenharia de reconstrução e tem obras de duas hidrelétricas por lá. O exército mostra força de sua indústria, com material bélico, como o carro de combate Urutu e a viatura de tranporte Charrua. Na força de paz temos companhias de engenharia e infantaria com a missão de fornecer segurança às autoridades, bem como patrulhar, combatendo a exploração sexual, o narcotráfico e o tráfico de pessoas, que é muito presente nas cidades”, finaliza.

Saindo do Haiti, Scapin veio para Campo Mourão em fevereiro. Como paranaense, já se adaptou e disse que gosta da região, das belezas, da paisagem, do clima e do povo, que é parecido com o da sua terra. “Me acolheram bem e devo ficar até 2014”, conclui.

 

 

 

 

 

 


Sobre o Autor

Regina Lopes
Regina Lopes

É jornalista há 27 anos, editora da Revista Metrópole e jornalista da Prefeitura de Campo Mourão.


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