Uma visita ao “Horáculo”

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O inverno bateu à nossa porta e é com esse friozinho que Metrópole dá continuidade à série de degustadores de vinho de Campo Mourão. Nesta edição, visitamos o Horáculo, que reúne um grupo de amigos todas as semanas para degustar vinho e conversar sobre a vida, mas em um lugar diferente: uma adega subterrânea.

Olhando do lado de fora, dificilmente alguém acertaria o que abriga a construção inusitada perto do Parque do Lago. No terreno bem cuidado, apenas uma pequena elevação e uma porta solitária delimitam o local, especialmente projetado para dar melhores condições de abrigo para algumas centenas de garrafas de vinho – e conforto e privacidade para os bebedores. “Muita gente já perguntou se aqui é algum tipo de estação de luz ou de água, alguma coisa assim. Isso aqui é um mistério”, conta o agricultor Horácio M. Pinheiro, dono e idealizador do espaço.

Descendo a escada, já debaixo da terra, a impressão é outra. O local traduz a atmosfera para que foi criado, com iluminação baixa e som bem distribuído pelo espaço. A decoração intimista proporciona a sensação de se estar em um lugar realmente diferente do habitual. Um espaço pensado especialmente para uma boa degustação de vinhos.

A adega, que abriga também uma espécie de pub intimista, é um capítulo à parte para a Confraria do Horáculo, mas nem sempre as reuniões foram feitas no bunker.

Obra inusitada

A ideia de construir uma adega surgiu durante uma das sextas-feiras dedicadas a degustar a bebida, no escritório do advogado Jeferson Peliser. Uma vez por semana os amigos se reuniam e iam ficando até muito além do expediente. Mas fazer essas reuniões em um escritório de um prédio comercial não condizia com a ideia de privacidade que tinham. Nem mesmo os vinhos, que se acumulavam nas despensas de casa, estavam bem guardados.

E foi aí que a adega começou a ser construída – pelo menos na cabeça de Horácio. “A ideia era reunir de oito a dez amigos para construir junto, mas não encontrei quem topasse. Um dia surtei e resolvi que ia construir sozinho”, conta.
Sem sócio no empreendimento, ele e um amigo começaram a desenhar o projeto do bunker. A proposta inicial era de construir o ambiente completamente abaixo do nível do solo, mas, no meio das escavações, barreiras naturais dificultaram o processo. Com muita água e uma laje de pedras, ele achou que era hora de parar por ali, sem complicar mais o projeto, que se arrastou por alguns anos.

Da ideia, para a finalização do espaço, foram quase cinco anos. Horácio conta que foram pelo menos dois, tentando convencer os amigos a investir no projeto de construção. Com a obra iniciada, foram cerca de três anos até conseguir concluir e deixar do jeito imaginado, sem nada para botar defeito.  A inauguração foi em 2007.

A turma das quartas

Adega pronta, o jeito foi levar os vinhos para lá e aproveitar o espaço e os amigos. O espaço é de Horácio, mas o apreço ao vinho é de todos e a confraria se estabelece quase sem nenhuma regra, baseada apenas na boa convivência.

Toda quarta-feira é sagrada para o grupo, que reúne amigos ligados justamente pela bebida. Nessa turma estão os advogados Jeferson Peliser – que antes emprestava o escritório – e André Pacholek, os administradores Demar Pereira e Flávio Henrique Lopes, o empresário Claudinho Santana e o professor Rogério Tonet. “Mas tem muito mais gente que vem aqui, com mais ou menos frequência”, revela Rogério.

De acordo com Horácio, o ambiente foi planejado para abrigar amigos e bons apreciadores da bebida, por isso a adega está sempre aberta para quem, como ele, aprecia a bebida e os bons momentos que ela proporciona. E nesses anos em que está aberta, o movimento foi grande, com antigos e novos amigos que foram se achando.

Um deles é o administrador Flávio Lopes, que hoje recebe o honroso título de presidente da confraria. “Presidente de brincadeira, porque a gente só precisava organizar um pouco a faxina do local depois das reuniões, tratar de questões práticas. Alguém tinha de administrar isso”, se diverte.

Tirando a administração funcional de Flávio, não existem muitas regras para os frequentadores. Para manter a ordem nas reuniões, cada um leva uma garrafa de vinho. A comida eles racham. Nas quartas-feiras só vão os homens, para conversar sobre futebol, música ou para fazer planos de conquistar o mundo.

Bons vinhos

Com uma gama de opções de vinhos de vários níveis e de diversas origens armazenados na adega, há espaço para vários gostos. Horácio tem predileção pelos vinhos europeus, gosto que divide com Flávio. Já André prefere as bebidas espanholas e italianas, enquanto Rogério faz questão de frisar a qualidade de vinhos sul americanos, principalmente argentinos e chilenos.

O professor, além de apreciar a degustação dos vinhos, defende a busca pela qualidade empregada pelos principais produtores para que tenham chegado a esse patamar. “O Dom Melchor, um vinho muito conhecido, é da vinícola ‘Concha y Toro’ a quarta maior do mundo. E eles tiveram a preocupação de, a partir década de 70, trazer cepas de uva e enólogos para o Chile, o que foi elementar para elevar a qualidade desse vinho”, salienta Rogério.

Além da degustação, Rogério aprecia também escrever sobre os vinhos tomados. Lê sobre o assunto e sempre tem uma sugestão. Para isso, segundo ele, é importante a troca de opiniões entre os amigos e também a experimentação de novos sabores. “Se você sente um aroma no vinho que às vezes não consegue identificar é bom falar, compartilhar a impressão. Muitas vezes isso rende algumas risadas, mas a troca de informações é muito válida”, relata.

Elemento vivo

Os vinhos consumidos na adega são diretamente relacionados aos gostos pessoais dos frequentadores. Como cada um traz uma garrafa por reunião, a variedade é grande. Na coleção particular de Horácio, então, há garrafas de diferentes origens e também variadas safras do mesmo vinho. “O barato do vinho é isso, uma garrafa nunca ser igual à outra. A cada ano o vinho é diferente e isso é maravilhoso”, conta Rogério.

“E é por isso que se guarda. Para poder comparar, verificar o estágio de desenvolvimento do vinho”, ressalta Horácio. E aí se justifica todo o esforço em construir a adega: para dar condições para que os vinhos se desenvolvam em condições ideais.

E quais são essas condições ideais? “Mínimo de variação de temperatura, umidade e pouca luz. Se tem muita luz incidindo na garrafa, ela sofre alteração. No subterrâneo é mais fácil manter a temperatura com pouca variação”, explica Horácio, que não se arrepende nem um pouquinho do investimento feito na adega. “Tem vinhos que comprei logo depois de vir para a adega que estão maravilhosos.

O vinho é um elemento vivo. Ele nasce, amadurece e envelhece. Conservá-lo em condições ideais faz com que essa vida seja prolongada e melhor apreciada”, defende.

O vinho é um elemento vivo. Ele nasce, amadurece e envelhece. Conservá-lo em condições ideais faz com que essa vida seja prolongada e melhor apreciada”. Horácio Pinheiro

Centro das atenções

Dentre os muitos assuntos discutidos na adega, um dos principais é o próprio Horácio, de onde vem o nome da confraria, decidido durante a visita de Metrópole. “É o Horácio que acaba influenciando tudo que a gente conversa aqui. E, se o Horácio não vem, o assunto acaba sendo a ausência do Horácio”, conta Jeferson.

No rol das brincadeiras, os amigos costumam escrever atas em um caderninho que mantêm a várias mãos. Ali são registrados acontecimentos de Campo Mourão, visitas inusitadas e algumas ideias. “E as frases célebres do Horácio”, brinca André.

Acima de tudo, a adega, ressaltam os amigos, é um lugar para se pensar e para conversar sobre tudo. Com vinho junto, tudo fica ainda melhor. “O vinho é a forma mais elegante de se embriagar. E a gente bebe vinho para ficar alegre, para expandir a mente”, conclui Rogério.

 

Quer aproveitar o inverno e começar a degustar vinhos?
Confira as dicas do Horáculo:

  • Experimente um Merlot. O vinho é ideal para quem está começando.
  • Sinta o aroma com cada uma das narinas. Acredite, a percepção é diferente.
  • Prove diferentes vinhos: só assim você descobre do que realmente gosta.
  • Reúna amigos para suas degustações. A companhia é uma boa aliada, além de tornar a bebida ainda mais agradável.
 

Vinhos da noite
Por Rogério Tonet

  • Quinta da Terrugem 2006 (Portugal). Excepcional vinho alentejano, equilibradíssimo e de boa persistência. Aromático na boca, de média potência, complexo, sabores de frutas negras e a presença do tostado do carvalho.
  • Dom Melchor 2008 (Chile). Primeiro vinho ultra Premium sul americano, é comparável (quanto à qualidade) aos grandes vinhos franceses, tanto que já figurou entre os 10 melhores vinhos do mundo da revista especializada “Wine Spectator”. Predominantemente Cabernet Sauvignon, traz todas as características desta uva, aroma animal, couro e “estrebaria” e na boca é persistente e apesar de potente e “tânico”, é aveludado no final.
  • Tikal Natural Malbec 2011 (Argentina). Um Malbec argentino muito peculiar, diferente dos Malbecs padrão. No nariz frutado e na boca tem um sabor metálico que aparece. Interessante, em especial por ser procedente de vinhedos de manejo orgânico.
  • Marques de Casa Concha Merlot 2009 (Chile). Excelente vinho da Concha y Toro e, nesta uva/safra, levou 91 pontos da revista “Adega”. A linha é sempre avaliada acima dos 90 pontos das principais publicações. Vinho equilibradíssimo, boa acidez e os 14,5% de álcool nem aparecem, boa presença de madeira tanto no aroma como na boca, desce “redondo”.
  • Montes Alpha Cabernet Sauvignon 2005 (Chile). Outro clássico, o Montes Alpha, rivaliza com os melhores Cabernets europeus e por um preço bem razoável. Este 2005 estava excelente, no ponto para ser degustado, até “leve” perto dos outros Cabernets da noite.
  • DV Catena Syrah-Syrah 2010 (Arg). Os “DV” são velhos conhecidos do público conhecedor de vinhos. Nesta versão, a uva Syrah vem de dois vinhedos diferentes, o que traz mais complexidade ao vinho. Bastante presença de madeira tanto no nariz como na boca.
 

Dicas para quem está começando:

  • Compre uma taça grande, pode ser de vidro mesmo (aqui na adega, tudo é de vidro), mas precisa ser “bojuda” para deixar o vinho “respirar”. Um bom vinho “melhora na taça”, ou seja, o contato com o ar vai deixando o vinho cada vez mais equilibrado.
  • Esqueça saca-rolhas complicados. Existem três que são importantes conhecer: o saca-rolhas do tipo “sommelier”, ou “amigo do garçom” que é simples, parece um canivete e é o que usamos durante a reportagem. Outro importante é o de lâmina, que deve ser usado com vinhos guardados há muitos anos, para evitar que a rolha esfarele. Por fim, o saca-rolhas a gás, substitui os outros dois, com o inconveniente que precisa ser recarregado, trocando-se a carga de gás.
  • É importante observar a “temperatura de serviço” do vinho. Existem várias indicações de temperatura para cada tipo de vinho. Para simplificar: tintos entre 15 e 17°C, brancos entre 10 e 12°C e espumantes de 5 a 7°C.
  • A afirmação: “vinho: quanto mais velho melhor” é verdadeira? A resposta é categórica: “Depende!”. Vinhos “de guarda”, sim, melhoram com o tempo, pois a oxidação vai “amansando” os taninos e equilibrando o álcool e a acidez. Nesta classe estão os grandes Bordeaux, bons Cabernets Sauvignons e alguns brancos muito especiais. No geral, vinhos tintos com teor alcoólicoDicas para quem está iniciando mais alto (acima de 13,5%) ou de castas mais potentes podem ser guardados por até 8 anos. Alguns vinhos muito especiais, como os grandes franceses e italianos, além dos fortificados como os do Porto podem ser guardados por 40, 50 anos. No geral, os vinhos “modernos”, são produzidos para consumo imediato, não melhorarão com o tempo e duram apenas uns três anos.
  • Como guardar vinhos? Observe duas variáveis: temperatura e umidade. Quanto menor a variação de temperatura, melhor. Idealmente uma adega deve manter-se em temperaturas amenas, nunca acima de 18, no máximo, 20°C. A umidade não deve ficar abaixo de 70%, pois, as rolhas podem ficar ressecadas e racharem. É importante manter os vinhos protegidos da luz. Por isso que uma adega subterrânea é ideal para guarda de vinhos por longo tempo.
  • Compre um decanter, de vidro mesmo. Esse equipamento tem duas utilidades: a) decantar vinhos guardados há muitos anos, pois acumula sedimentos sólidos no fundo da garrafa, separando o líquido que será degustado; b) para deixar o vinho “arejar” ou “aerar”, ou seja, acelerar o processo de oxidação do vinho (que demoraria anos para acontecer com o vinho vedado por uma rolha). Para essa segunda utilidade existem “aeradores” que são peças que são adaptadas às garrafas fazendo o vinho circular, ondular ou borbulhar aumentando o contato com o ar.
  • Degustar vinhos é passear pelo mundo. Procure experimentar vinhos de várias partes do mundo e compare como aromas e sabores variam mesmo se as cepas (variedades de uvas) forem as mesmas.
 

Dicas de vinhos básicosDicas de vinhos básicos, fáceis de encontrar

A ideia aqui é indicar vinhos bons, de várias procedências e cepas, mas sempre de preço acessível.

  • Werry Werry Woods Merlot – vinho australiano, simples e agradável. A uva merlot é ideal para começar a degustar vinhos, pois é “saborosa” e “aveludada”, mas não é tão leve que impeça o iniciante a continuar a procurar vinhos mais encorpados.
  • Estremoz “.COM” – vinho português, da região do Alentejo, bom para conhecer as cepas portuguesas (Turiga, Trincadeira e Aragonês, além da Cabernet Sauvignon). Bom vinho a um bom preço.
  • Alamos Malbec – Típico “best buy” sul americano. Nesse caso, na uva Malbec, a principal casta argentina. Potente, saboroso, com final de boca aveludado. Recomenda-se deixá-lo no decanter por meia hora antes de degustar, principalmente se a safra for recente.
 

Sobre o Autor

Gracieli Polak
Gracieli Polak

Gracieli Polak é jornalista e blogueira, especialista em escrever sobre quase todo assunto – especialmente os que lhe agradam.


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