Histórias no céu do Brasil

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Piloto há 25 anos, Oelder Furlanetto é mourãoense por opção e tem muitas histórias para contar. Apaixonado por aviação, onde começou muito jovem, já trabalhou no garimpo, no pantanal e encontrou na aviação comercial em Campo Mourão um porto seguro para a vida. Curiosamente ele tem medo de altura e diz que não encara os esportes radicais. Para este experiente navegador, voar possibilita alcançar a paz interior, principalmente quando o cenário à frente é um inspirador pôr do sol. Conversando com Metrópole, ele conta em primeira pessoa mais histórias da vida e das muitas horas vividas nos céus do Brasil.

Paixão. Nunca ouvi ninguém dizer que não gosta de aviação. Já vi muita gente falar que tem medo. Desde criança sempre fui apaixonado. Minha mãe dizia que quando passava um avião em cima de casa, pegava a bicicletinha e ia para o aeroporto. Comecei no Pará, sem carteira, pela aviação de garimpo. Depois vim para o interior de São Paulo, onde tirei minha primeira carteira de piloto privado. Fui para o Mato Grosso do Sul e efetivamente comecei a voar.

Seis mil horas. Há 14 anos trabalho para um empresário de Campo Mourão com um avião de pequeno porte, um modelo executivo da Beechcraft Bonanza. Rápido para a categoria dele e que atende prontamente a empresa, acomodando tripulação e mais cinco pessoas. Já pilotei aviões um pouco maiores e estou com quase seis mil horas de vôos registrados.
Ditado. Sobre aviação se diz que quanto mais se aprende, mais se vive. No inicio você quer voar porque está no sangue, é novo, não tem noção do perigo. Muitas vezes o piloto não conhece o seu próprio limite. A gente vai descobrindo aos poucos, passa a ter uma noção bem melhor, e a respeitar principalmente a natureza.Você tem que ser profissional preservar muito os passageiros, porque a partir do momento que está voando, eles estão única e exclusivamente na sua mão e o que fizer vai estar feito, e não tem volta.

A aviação é praticamente tudo na minha vida, porque é em função dela que vivo. É tudo de bom, porque é o que eu sempre quis na vida.

Pantanal. A aviação é muito dinâmica, ela é fascinante. Eu tive oportunidade de vivenciar a prática na aviação de garimpo, de pantanal. Nelas você realmente aprendia. Hoje está muito informatizado, acho que a tecnologia veio para melhorar cada vez mais. Antigamente a gente se perdia muito e hoje em dia não se ouve mais falar que se perderam.

Voando. Não tenho horário. Posso ficar dez dias parado como também dez dias voando fora de casa. Me comunicam, preparo o vôo e lá vamos nós. O piloto sabe que precisa estar preparado e bem disposto. Deve procurar dormir bem, não beber. Pela internet observa a previsão do tempo para dois ou três dias, olha como estão os aeroportos e se prepara psicologicamente para fazer um voo seguro.

Experiências. Hoje me considero muito conservador. Já fui arrojado, deslumbrado. Por falta de experiência sofri acidentes no começo da carreira, com danos materiais na nave. Isso é muito comum na aviação, principalmente para quem está começando.

No controle. O passageiro sabe quando a coisa não está legal. Mas depois que você já fez a “caca”, tem que manter a calma e enquanto tiver combustível e o controle do avião eu estou voando. Devo raciocinar e pensar qual é a melhor alternativa. Não deveria ter saído, mas já sai e cometi um erro devido ao mal tempo, então qual é a melhor alternativa? É partir e tentar não demonstrar ao passageiro que você está em uma situação difícil.

Onde voar. No norte é uma aviação na floresta amazônica, você depende muito do visual e quem conhece muito a região se sai mais ou menos bem. Aqui é mais seguro porque tem mais recursos. Hoje o GPS tanto lá como aqui está igual, mas se voltar um pouquinho no tempo havia essa diferença grande. Em compensação, o relevo do sul, é mais perigoso, são áreas de montanhas lá são áreas bem mais planas, só que aqui você tem muito mais aeroportos controlados, com recursos melhores.

Vento ou chuva? Os dois. O tempo em si é o inimigo da aviação, principalmente o mau tempo. Exige avaliação rigorosa. A nave que estou voando é muito boa, tem recurso tecnológico, mas não é de ponta para enfrentar o mau tempo. Então tem dessas coisas. Ás vezes você tem o conhecimento, fica limitado pelo equipamento, ou tem ele e não sabe voar com esse instrumento ou não é preparado, não tem habilitação ideal. Ser piloto de avião é como dirigir: você tem a carteira A, a B, tem a C tem a D, então, conforme a experiência, você vai conquistando as carteiras maiores e vai pegando treinamento para voar.

Altura. Eu tenho medo de altura, destas de chegar na beira de um prédio e olhar para baixo. Aí você tem a visão periférica aberta, ou seja você pode ter a sensação de que vai cair. E, dentro de um lugar fechado, dentro de um avião, você não tem a mesma visão. Você não percebe a altitude nem a velocidade, parece que o avião está parado. É diferente. Esses esportes radicais, como paraquedismo, admiro muito quem faz, mas não tenho coragem, prefiro ver de longe. Eu faço caminhada, futebol e exames de saúde por ser piloto comercial e ter mais de 40 anos, a cada 6 meses na escola de aeronáutica. Mas, já estão habilitando clínicas particulares para poder atender, porque a demanda está grande.

Vida. A aviação é praticamente tudo na minha vida, porque é em função dela que vivo. É tudo de bom, porque é o que eu sempre quis na vida. Quando tiver que parar provavelmente farei algo ligado à aviação, mas ainda não consigo me ver sem ser piloto.
Voar. É uma sensação indescritível, de paz interior. Creio muito no poder de Deus pela natureza tão perfeita, tão boa. E voar oferece sensações maravilhosas, seja dos pores de sol, ou nos nasceres do sol. Você teria que vivenciar para ver, mas é formidável.

Estresse. Tem vôos que você faz para algumas regiões muito congestionadas que são estressantes. A carga de trabalho é grande, sem ter essa visão de olhar para fora e curtir um cenário bonito como faz o passageiro. Tem que estar focado no trabalho, porque é conta, é radio, é mapa… e escutando, fazendo sua posição, o controle chamando, avisando onde tem avião. Isso exige muita concentração e confiança de todos os lados. Ás vezes o passageiro não percebe, mas lá na frente o negócio está pegando.

Carona – Uma vez eu estava em Ponta Porã (MS) e o cara me pediu carona para Campo Grande (MS). Era normal na empresa em que eu voava, alguém pedir carona. Falei para o pessoal que ia fazer revisão, se quisessem carona eu sairia de manhã cedo. Na hora da saída um rapaz queria carona eu não o conhecia. Mas, ele disse que era mecânico e a mãe dele estava muito doente, internada. São uns 300 quilômetros até Campo Grande e de ônibus não chegaria em horário de visita. A questão de fronteiras se vê com olhos diferentes. Achei diferente: um cara que mora em uma cidade vai visitar a mãe na outra e voltar no mesmo dia, deveria levar uma sacola e ele estava com uma mala que dava para ir à Europa. Achei que algo estava errado. E, como o Ponta Porã é aeroporto internacional. Falei para o fiscal da Receita que o rapaz queria uma carona mas queria que vistoriasse a bagagem dele já que a história era estranha. O agente suspeitou que o moço estava com drogas e prenderam ele ali mesmo. Se não me atento ao fato da mala, poderia ter transportado drogas sem saber e ser preso como traficante.

Numa fria – Nessa empresa que eu voava no Mato Grosso do Sul, além da erva mate, compravam gado e uma das funções desse avião era atender principalmente nessa área restrita do pantanal, onde só se vai com avião. Se comunicavam com rádio e o pessoal das fazendas ligava para ir negociar. Podíamos chegar antes dos outros compradores, que às vezes precisavam de cavalos, e pagavam o gado melhor. Na ocasião era um lote muito bom, porém no meio do Pantanal e só ia de avião. Fui com o comprador que era um senhor muito conversador, de fazer social, ficar falando à toa, de nome Flávio. Tinha raiva, porque muitos dias nos perdíamos em fazenda porque ele ficava conversando.
Uma vez fomos num domingo para ver o gado, acertar o preço e, se desse negócio, retornar segunda ou terça-feira para carimbar o gado. Saímos para voltar após o almoço e não levamos nada. A única coisa que eu sempre levava era um garrafão de 40 litros de água que daria para uns três dias, porque beber água do pantanal não dá. Por fim, não deu negócio e comecei a chamar o Flavio para ir embora, porque o tempo estava fechando e a pista no Pantanal se faz onde dá para ser feita e a sede da Fazenda ficava á uns 300 metros da pista de pouso. Avisei que tinha que ir embora porque as nuvens estavam fechando. Ele me mandou ir pra dentro do avião que já ia – lá, se chover, não tem como ir embora e se der uma chuva muito forte são de dois, três dias, no mínimo, para secar a pista. Cheguei ao avião e nada do Flavio vir. De repente começou ventar, derrubando árvores. Tive que descer do avião rápido e já amarrá-lo porque estava desprotegido, para não virar. Já não dava mais para voar, com aquele vento não tinha condições. Choveu mais de 90 milímetros, com um palmo de água na pista. Se fôssemos a cavalo demorava uns 5, 6 dias para chegar a beira do rio.
Então tinha que esperar secar a pista. Estávamos sem roupa e sem comida. Era uma fazenda muito pobre e a comida era basicamente carne de caça. Não tinha opção, mas eu ainda tinha algumas latas de sardinha. Dormiam em camas de pau com um colchão de espuma fino e um pano em cima, cheio de percevejo. No avião, tirei os dois bancos e fiz de colchão e me acomodei lá, com calor de 40 graus. Por fim, ficamos até no outro domingo e a àgua que tinha, guardei para mim. O Flavio ficou com diarréia por causa da comida, quase virou do avesso. Eu comia sardinha em lata e emagreci um monte. Foi uma aventura negativa. Não tinha onde lavar a roupa e por causa do calor transpirávamos muito durante o dia. Do mesmo açude onde captam água da chuva, lavam, cozinham e bebem. Quem não está acostumado tem problema sério de intestino. Eu lavava a camiseta e colocava pra secar. Ela ficava dura porque na água tinha sal, mas vestia assim mesmo.

Manicaca – Uma vez decolei de Campo Grande para Coxim (MS) com um advogado. Eu era muito novo na aviação, tinha poucas horas de vôo, mas me achava um super piloto, com um avião que não era preparado para voar naquele tempo. Tinha uma preparação muito básica. Cheguei em Coxim, com o tempo fechado, não via nada. Lembrei que um dos pilotos mais antigo, com aquelas conversas de aeroporto, me disse que se algum dia chegasse na região de Coxim e o tempo estivesse fechado, era só direcionar a proa pro Pantanal, porque lá é mais baixo. Voa cinco minutos e vai descendo até sair por baixo da camada e retorna para Coxim por baixo da camada. Claro que era uma “senhora de uma irresponsabilidade”, porque se estiver colado, você vai bater no chão e não vai ver. Me achando um super piloto, fui. Cheguei lá e estava fechado. Fiz e realmente sai em baixo e voltamos por baixo da camada, consegui pousar em Coxim. Lá havia dois pilotos super experientes de aviões maiores, esperando para seguir para Campo Grande. Eles perguntaram: Você está vindo de onde comandante? Falei que estava vindo de Campo Grande e um deles me falou: como pode? Nós estamos aqui com os aviões maiores e não estamos conseguindo, como você veio? Um olhou para o outro e disse: “Tá vendo, fulano? Deus ajuda bêbado e manicaca (expressão que se usa pra quem é novato na aviação). E falaram : Esse não morreu porque não era dia. Porque o tempo estava muito ruim”. Hoje, eu jamais faria um vôo daquele nas condições e serviu de alerta. Quando deu aquela esfriada me falaram: “Olha não faça mais isso porque é muito arriscado. Poderia ter morrido. Teve muita sorte porque, com aquele tempo, de alguma forma conseguiu, o seu anjo da guarda ajudou para conseguir chegar vivo”.

Tempo fechado – Recentemente, eu estava fazendo um vôo para Curitiba. Fechou Aeroporto de Curitiba, fechou em Navegantes (SC), fechou Florianópolis (SC) e minhas alternativas foram ficando ruins. Retornei para Campo Mourão e o tempo fechou aqui também. Sai para Curitiba e voltei para Dourados. Cheguei lá praticamente sem combustível. É uma sensação muito ruim. Não teve desconforto de pegar mau tempo, ou aquela coisa, que aparece em filme de avião, de chacoalhar. Simplesmente os aeroportos fecharam e eu não tinha alternativa. Foi um dia em que era melhor não ter saído de casa.

 


Sobre o Autor

Regina Lopes
Regina Lopes

É jornalista há 27 anos, editora da Revista Metrópole e jornalista da Prefeitura de Campo Mourão.

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