Gente que cuida – parte 2

    Elvira Maria Schen Lima atendeu Metrópole em um dos abrigos da cidade – na Rua Araruna – no que se   pode dizer “mar de cachorros”. No local estão recolhidos cerca de 100 deles e ela estava lá com outros voluntários, em meio às vacinas, remédios e cuidados especiais.  Artista plástica e desenhista de uma fábrica de pijamas, Elvira trabalha no atelier Oficina de Idéias, mas nos últimos anos tem se dividido, ocupando muitas das suas horas – inclusive as noturnas – se dedicando a atender cães abandonados nas mais diversas situações: doentes, atropelados, esquecidos.

A história com os animais abandonados começou há 15 anos com Tininha, uma cadelinha simpática que apareceu esfomeada na porta do atelier: ela tinha sido apedrejada em uma obra, onde tinha dado cria, e pedia socorro. “Acabou nos adotando e mora embaixo da minha mesa de trabalho. Hoje tenho o atelier em casa. Tininha e a companheira Pretinha – 4 anos – moram com minha família, um gato e outros sete cães – todos Sem Raça Definida (SRD), que nos adotaram em diversas circunstâncias”, lembra.

Elvira começou quase que por acaso e, como um ímã, atraía animais feridos, acidentados ou maltratados. Ela fala que, por gostar dos animais, observa todos que estão por aí e acaba por se envolver, porque as pessoas ficam sabendo da sua atuação e contam umas para as outras. Apesar de ser importante referência para a causa, Elvira atua apenas no voluntariado, mesmo tendo em 2004 ajudado a fundar a Sociedade Protetora – Apasfa, cuja presidente é Maria Helena.

“Nunca tive jeito para a parte burocrática, então faço o trabalho de recolher os atropelados, verificar denúncias de maus tratos e, sempre orientada por um médico veterinário, aplico injeções, faço medicação, limpo bicheiras. Muitos querem fazer, mas não têm “estômago forte”; eu nunca tive problemas com isso, meu amor por eles é maior”, explica.

A continuidade do atendimento prestado por Elvira e outras pessoas nos abrigos precisa de mais voluntários, mas também é necessário que donos assumam a responsabilidade por seus animais. A maioria dos voluntários tem pouco tempo ou simplesmente se assusta quando vai a estes locais e tem que enfrentar muita sujeira. “Estes animais se apegam às pessoas que cuidam deles, são muito carentes. A maioria já teve dono, eram paparicados quando filhotes, mas foram colocados para fora porque a sujeira cresceu e a despesa também“, comenta.

Elvira lamenta ainda que pessoas comprem ou adotem animais por impulso, sem pensar nas consequências, ou lembrar que são criaturas dependentes, que preferem passar fome ao lado dos donos a serem doados a desconhecidos ou abandonados no meio do caminho. “O número de animais velhos – às vezes cegos, abandonados – é grande. Isso nos traz algum sofrimento, pois ninguém quer adotar um animal no fim da vida e eles ficam tristes, morrendo deprimidos e doentes nos abrigos”, fala.

A “protetora” acredita que a melhor solução para isto seria educar as crianças e, nas escolas, conscientizar sobre a posse responsável e o meio ambiente e ainda os presidentes de bairros cobrarem dos moradores que mantenham animais dentro de seus terrenos, cuidando da limpeza e da saúde.

Apesar de muitos já se sensibilizarem com a causa, os abrigos ainda têm necessidades a serem supridas. Na cidade estão vários pequenos abrigos e dois maiores, mantidos por voluntários, que fazem “vaquinhas”, para pagar as despesas, mas é tudo muito precário. Tem faltado muita ração, especialmente dos filhotes – que são as mais caras – e ainda medicação para várias doenças e acidentados, inclusive para o controle de pulgas, carrapatos e doenças de pele, além de materiais de limpeza. Mas o mais difícil ainda é a ajuda financeira para as despesas com clínicas veterinárias.

Elvira sugere que as pessoas que querem ajudar e não podem adotar diretamente, podem visitar os abrigos, brincar com os animais, ajudar a observar possíveis problemas, levar para passear, enfim toda ajuda é bem vinda. “A mais urgente ainda é que cada um assuma sua responsabilidade com o seu animal e o meio ambiente”.

As pessoas telefonam porque querem saber onde levar e como ajudar os bichos abandonados ou doentes nas ruas. Mas os abrigos estão superlotados, mal se consegue ajudar os que estão sob seus cuidados. “Ninhadas abandonadas ou cadelas que dão crias em terrenos baldios a gente recolhe, planejamos castrá-las para que não continuem a procriar, mas alguns abrigos estão contaminados por doenças difíceis de tratar e como não são abrigos corretamente planejados, a coisa fica difícil” conta Elvira.

Ela pede que as pessoas façam sua parte, pelo menos alimentando os que moram na rua pois, bem alimentados, dificilmente ficam doentes. Se já estiver doente, ajudá-lo como puder, pois não há como dar conta de todos que estão por aí. “Gostaria de aliviar o sofrimento de todos, mas para isso precisaríamos de ajuda do poder público, que alega ter outras prioridades. Se não começarmos a resolver os problemas agora, eles crescerão desordenadamente e a saúde e limpeza públicas serão muito prejudicadas”, analisa.

A adoção ainda parece ser o caminho mais curto para dar dignidade aos animais. Os que adotaram aprenderam muitas lições como vimos na edição 2 de Metrópole,  retratando gente que praticou esta boa ação. “Muitas pessoas tem aparecido nas nossas vidas e nos ajudado. Sem elas não existiriam abrigos, nem a associação; jamais poderíamos realizar tanto. E tem um “São Francisco”  a quem devemos um agradecimento especial, pois sem o comprometimento desse médico veterinário – que aceitou fazer os tratamentos e cirurgias para receber conforme arrecadássemos – não teríamos feito nada.  Mas, a cada dia, mais pessoas estão se engajando e acredito que, com o tempo, muita coisa vai melhorar. Agradeço a todos que colaboram com essa bicharada e, aos que ainda vão colaborar, um obrigada adiantado”, finaliza Elvira.

Tininha a Preta

Há alguns anos um amigo simpático à causa nos emprestou seu sitio, para colocarmos uns animais recolhidos. Como a Tininha e a Preta ficavam perambulando nas ruas quando abríamos a porta do Atelier e, pela idade já avançada da Tininha, resolvemos mandá-las para esse lugar com receio de vê-las atropeladas. Levamos pela manhã, com o coração partido, mas certas de que era melhor e mais seguro para elas.  Propus-me a visitá-las todos os dias até se acostumarem com a mudança, afinal, lá era um paraíso para eles: os animais entravam num açude, nadavam e viviam na maior parte do tempo livres, correndo em meio às árvores, num cenário muito legal.

No dia seguinte fui cedo ao local e, pra minha tristeza, encontrei uma cachorra amarela morta (que pensei ser a Tininha) e nem quis olhar direito, tamanha a minha tristeza e sentimento de culpa por tê-las levado pra lá. O Seu Irineu, que cuidava de todos, me disse que havia encontrado ela morta logo cedo. Já imaginei que, de tristeza, a Pretinha tinha fugido quando viu a amiga morta. No sitio moravam uns 120 animais, muito parecidos fisicamente, mas nem me importei com isso, só pensava no que teria acontecido com a Preta, se ela apareceria um dia.

Passaram-se sete meses exatamente. Estávamos abrindo o atelier para mais um dia de trabalho, olhei pro outro lado da rua e a Pretinha, que já acreditávamos morta, apareceu abanando o rabinho, na maior simpatia. Quando me viu, gritava, chorava, pulava como uma maluca, e saía em direção à rua, como se nos chamasse pra ver algo. Tomou um pote de água, deitou e descansou como se há muito tempo não o fizesse. Depois de alguns minutos saiu pela porta correndo e, em seguida, voltou com a sua velha companheira, que, com certeza, tinha ficado pra trás pra descansar pois,  além de tudo, tem artrose. Quase desmaiei de alegria e susto ao ver que a falecida estava vivinha. A Preta – ágil e esperta – veio com ela, do sítio, em sete meses, com certeza, lentamente ao lado da amiga que andava devagar pelas dores. A Tininha emagreceu muito, mas voltou inteira. Agora, com o atelier em casa, a tenho junto dos meus outros companheiros e vou cuidar dela até o finalzinho, de verdade.


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Metrópole Revista
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