Fraterno Nunes

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Fraterno NunesSentado no banco da praça, ele alimenta as pombas e olha para o nada. O sino da igreja toca, chamando os fieis para a missa, celebração de que ele não faz questão nenhuma de participar. Mas, todos os dias, ali naquele mesmo banco, vê o sol indo embora enquanto a cidade diminui seu ritmo. Poderia ser apenas mais um no banco da praça, um velhinho querido pelas palavras amáveis e amenas. Mas não é, nem faz questão de ser.

Cético, crítico e sem papas na língua, o aposentado – e livre pensador, como se auto denomina – Fraterno Maria Nunes é uma figura emblemática de Campo Mourão, mais que isso, uma das pessoas mais polêmicas da cidade.

Filho de pioneiros da cidade, cresceu junto com as ruas que iam ficando cada vez mais longas. Chegou aqui aos quatro anos e acompanhou a transformação do lugar, por isso faz tantas críticas às transformações da cidade. Vê os defeitos, aponta, não se conforma, mesmo sendo taxado de chato por bater sempre nas mesmas teclas. “Uns gostam de discutir futebol e mulher. Eu gosto de falar de política e religião”, diz. E um desses é o ponto porque tantos se desgostam dele: sua posição quanto à religião.

Opinião radical Fraterno Nunes

Fraterno conta que, com os pais, cresceu dentro da igreja católica. Aos sete anos, por vontade própria, foi até a igreja confessar os pecados que acreditava ter. Tomou a hóstia e seguiu a vida, aliviado por não ser mais um pecador. “Saí de lá com a convicção de que ia pro céu. Veja só”, brinca. Casou na igreja, batizou suas filhas, até mesmo participou de um retiro, com colegas de outras épocas. Hoje acredita que aquilo tudo não era porque havia fé, mas sim, convenção social, foi acostumado desde criança.

Em que momento decidiu que não tinha crença? “Não teve um momento de ruptura, aquele dia que cheguei e disse que não acreditava em nada disso. Isso foi acontecendo aos poucos”, conta. Um fator, no entanto, colaborou bastante para que se colocasse a pensar sobre o assunto.

Há mais de 20 anos, quando voltava de Curitiba com o sobrinho, César Nunes, e um colega do rapaz, entra Iretama e Pitanga sofreu um acidente. Seu sobrinho morreu na hora. “Tinha uma certa fé e até um crucifixo que devia ter ganho de alguém no painel do carro. Toda vez que saía para a estrada, mesmo que fosse daqui de Campo Mourão até Peabiru, pedia, não sei para quem, que nada de mal acontecesse. Naquele dia, antes de sair, pedi a mesma coisa”, relembra. Aquele e o dia em se separou da esposa, conta, foram os piores de sua vida.

Quando era criança, diziam que os crentes, os maçons e os comunistas comiam criancinhas. Hoje dizem que é o Fraterno.

Desconfiado de que as coisas não eram como sempre ouviu falar, começou a estudar com mais afinco aspectos da religião, mesmo sem pretensão. Daí a se tornar ateu, foi um passo. A começar a criticar as religiões e ser odiado, outro passo maior ainda. “Quando me desquitei fiquei com medo de que minhas filhas não conhecessem o pai que tinham e comecei a escrever sobre tudo. Sempre mandei minha opinião para jornais e revistas”, relata. Hoje já acumula 32 livros manuscritos, catalogados e encadernados. Vão ficar para as filhas. “Escrevo para o mundo. Quero escrever para deixar meus pensamentos registrados”, relata.

Louco? 

Radical ao extremo com suas convicções, ele não mede as palavras. Afirma que trata bem quem é educado com ele, mas não faz mais questão de viver de aparências. Se não o tratam bem, não vê motivo para que ele faça o mesmo. Já comprou briga com várias pessoas e é odiado por muitas outras que nem o conhecem pessoalmente, mas que se ofendem com sua opinião. “As pessoas têm medo de ouvir que Deus e Diabo não existem. Eu falo e assino embaixo”, ressalta. Essa hoje é sua grande luta, se fazer ouvir.

Sentado no banco da praça, Fraterno alimenta os pombos todos os dias“As pessoas têm direito de falar que acreditam em Deus, assim como eu tenho o direito de dizer que não acredito”, salienta.  E reforça. “Aceito que as pessoas acreditem em Deus. Acho que é ignorância, mas passa. Agora, acreditar que há representantes de Deus na terra, aí eu acho que a pessoas é curta de inteligência. Podem me xingar por pensar assim”, defende.

Ele tem consciência do quanto isso incomoda as pessoas e dos comentários que fazem a respeito dele e de sua postura, mas não se importa. “Não quero que ninguém mude o que pensa com o que falo. Quero apenas falar”, embasado no clássico pensamento de Voltaire: posso não concordar com uma só palavra sua, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-la. O que defende é que se a mídia dá tanto espaço para as religiões, deveria conceder também para o outro lado.

Aposentado, desquitado e solitário, Fraterno diz que se sente muito feliz. Aprendeu a dirigir motos depois dos 60 anos e, em duas rodas, passou 13 capitais, até que se envolveu em um acidente e deu um tempo nas viagens. Se aposentou muitos anos antes, depois que quase morreu ao sofrer um infarto.

Nos últimos meses teve um AVC (Acidente Vascular Cerebral) e ficou com limitações físicas, mas se dedicou ao tratamento e recuperou praticamente todos os movimentos. “Gastei umas 4 canetas Bic inteiras para reaprender a escrever. Mal conseguia segurar a caneta e agora minha letra está igual à de antes”, conta orgulhoso. Gosta de passar os dias escrevendo e observando o mundo.

As únicas coisas que importam, segundo ele, são suas filhas e a neta, Mariah, de quem faz questão de falar com um sorriso largo. “Precisa só ver a Mariah, coisa mais linda do mundo”, repete. O que não pensa, tão cedo, é em ficar quieto, apesar de incomodar tanta gente com seus pensamentos. “Sou um homem livre, não tenho medo de nada”, conclui.

Fotografia: Gracieli Polak

 


Sobre o Autor

Gracieli Polak
Gracieli Polak

Gracieli Polak é jornalista e blogueira, especialista em escrever sobre quase todo assunto – especialmente os que lhe agradam.


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