Fiel do Timão

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Canecas, filmes, chaveiros, lápis, chaves, taco de beisebol, bonecos, garrafas, quadros, camisetas, réguas, escapulários, carteira, bolinha, bala e até um trenzinho feito de Corinthians se espalham sobre a mesa, as estantes, os livros e alguns processos. É um lugar de adoração ao clube, mas também de trabalho: o escritório do advogado Cristiano Calixto, presidente da Associação dos Corinthianos de Campo Mourão e Região.

Com pai santista e mãe palmeirense, comprovando que corinthiano não escolhe lar, ele já nasceu fiel. Com base na própria história, Calixto sustenta uma de suas teorias: “o único torcedor que nasce como tal é corinthiano. Todos os outros viram torcedores de seus times. Está no nosso estatuto”. Tamanha convicção faz de Calixto um dos mais, senão o mais famoso, torcedor do Corinthians em Campo Mourão, presidente, principal mentor e divulgador da Associação.

Criada há dez anos, a Associação conta hoje com mais de 1000 assinaturas, coletadas na maioria por Cristiano, que por muito tempo andava por todo lado angariando fiéis. Apesar de não exigir esforço nenhum de seus associados e ser apenas uma forma de homenagear o time por todas as alegrias que deu aos torcedores, um estatuto de muitas e curiosas páginas foi registrado no cartório de títulos de Campo Mourão, com cláusulas bastante criativas.

Esta peculiaridade atraiu a atenção do colunista esportivo Juca Kfouri, que recebeu das mãos de Calixto uma cópia do estatuto do clube e publicou em seu blog alguns trechos. Entre os destaques, as honrarias merecidas pelos associados, como a de torcedor Gavião, torcedor Fiel, torcedor Mosqueteiro e torcedor São Jorge.  “Está tudo registrado, mas a Associação existe numa informalidade absoluta. Não temos CNPJ, não temos conta bancária”, confirma. Só continuam levando a história de devoção e fidelidade ao time, que supera qualquer explicação. Mas, caso alguém ofenda o Corinthians ou os corinthianos, ele é enfático: “temos até assessoria jurídica para defender”, brinca.

Fiel sofredor

Cristiano nasceu em 1958, quatro anos depois de o Corinthians conquistar o Campeonato Paulista do Quarto Centenário – o Paulista, mas numa versão especial. Castigo ou teste de fidelidade, o clube só ganhou outro título em 1977, depois de 23 anos de jejum, após 11 anos sem conseguir sequer ganhar do Santos. Muito castigo. “Foi a pior época para ser corinthiano”, afirma.

A paixão pelo time, mesmo com o jejum de títulos, nunca foi abalada. Quando Pelé fez seu milésimo gol e todo mundo só falava nisso, ele dizia ao pai que só queria saber dos gols do Timão. Na Copa do Mundo de 1970, enquanto o povo vibrava com a seleção, ele queria mais é saber dos jogadores do Coringão que estavam no México. Futebol sempre significou uma só coisa: Corinthians.

E o amor ao time rendeu uma traquinagem que a mãe nunca descobriu.  “Naquela época era muito difícil conseguir coisas do time, então eu nunca tinha visto uma camiseta oficial do Corinthians. Um dia o pai de um colega meu foi pra São Paulo e comprou uma. Esse meu colega contou lá na escola, mas voltei para sala e inventei para o professor que estava com febre, estava mal. Peguei minhas coisas e fui direto para casa desse meu colega e pedi para mãe dele para ver a camisa. Fiquei lá a manhã toda. Foi difícil sair”, conta.

Aos 16 anos pode assistir a um jogo do time, pessoalmente, pela primeira vez, em uma das inaugurações do Estádio do Café, de Londrina. O Corinthians perdeu, mas a experiência foi emocionante, só não mais que o primeiro título que viu o time ganhar, aos 19 anos, sozinho quando morava em Curitiba. “Chorava, gritava, cantava sozinho no meu apartamento”, lembra. E aonde o Corinthians vai, ele acompanha, pelo rádio, pela TV ou bem mais de perto, nos bons e nos maus momentos.

O único torcedor que nasce como tal é corinthiano. Todos os outros viram torcedores de seus times.

 Torcedor solitário

Tanta devoção fez com que ele, por muitas vezes, fosse ao encontro do time. Já se hospedou no mesmo hotel que a agremiação, conseguiu almoçar junto, fez muitas viagens só para ver o Coringão. Chegou a ir para a casa da sogra, em Campinas, mas deu uma passadinha primeiro no estádio. Na juventude, quando ainda estudava, deixou de almoçar algumas vezes para não ficar sem ver o jogo no estádio.

Também participou do desfile cívico de 10 de Outubro com outros torcedores, trajando a farda alvinegra. “Foi uma inovação. Era para ir muita gente, mas no fim desfilamos apenas uns 15 e gritando nosso refrão: “parabéns Campo Mourão, da torcida do Timão”, conta. Vergonha de se expor de tal maneira na frente de toda a cidade? “Nenhuma. Pelo Corinthians não tenho vergonha de nada. Vou atrás, converso com jogador, pego autógrafo mesmo”, admite.

A paixão é tanta e o nervosismo tamanho que ele prefere ver os jogos em casa. No máximo, com a mulher, Maria Eugênia e o filho, Guilherme, que compartilham a mesma devoção. A paixão do filho pelo Timão enche seus olhos de alegria. “Quando ele era pequenininho, ficava tão nervoso vendo jogo que fazia um bigodinho de suor. É apaixonado pelo time, realizou meu sonho”, explica. Com ele não é diferente. “Sofro, sofro mesmo. Tenho superstição. Conforme a camisa que estou, não assisto”, revela.

Maior torcida

Não se sabe ao certo qual a maior torcida do Brasil, se a do Flamengo, do São Paulo ou do Corinthians. De uma coisa, no entanto, pode-se ter certeza: a maior torcida contra, obviamente, é a anti-corinthiana.

O motivo da rejeição, os corintianos podem até não desconfiar, mas o palpite é que é por causa dessa devoção, vista pelos outros como sem sentido. “Meu pai, aos 80 anos, só agora está começando a entender esse amor sem limite”, pontua Calixto. “A prova desse amor é que, mesmo nos momentos em que ficamos muito tempo sem títulos, a torcida só cresceu. Qualquer outro time, quando está perdendo, joga sozinho no estádio. Com o Corinthians não é assim, a casa fica sempre cheia”, completa.

Mas as gozações, mesmo da mãe, continuam. “Ela, palmeirense, ainda liga no domingo de noite e pergunta inocente o que deu o jogo, só para me provocar”, conta.


Sobre o Autor

Gracieli Polak
Gracieli Polak

Gracieli Polak é jornalista e blogueira, especialista em escrever sobre quase todo assunto – especialmente os que lhe agradam.

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