Fazendo cabeças há 50 anos

0

Antônio-PassadorAntonio Passador é um dos mais conhecidos cabeleireiros de Campo Mourão. Não é à toa. Há 50 anos praticamente no mesmo endereço vem “fazendo as cabeças” de pessoas de várias gerações com seu Salão do Povo. Apesar de fazer a mesma coisa há meio século, Passador tratou de evoluir e, de barbeiro nos primórdios da cidade, se assumiu cabeleireiro e, com uma equipe de 12 pessoas, cuida da beleza de mulheres e homens.

Passador aprendeu a cortar cabelos com o pai aos 10 anos, em Apucarana. Chegou em Campo Mourão em 1963, já casado, e se estabeleceu na Rua Edmundo Mercer, para implantar uma barbearia, que chamou de Salão do Povo. “Escolhi o nome porque tinha uma Casa do Povo lá em Apucarana e era sempre cheia de gente, eu queria que aqui ficasse sempre cheio também”, fala.

Metrópole: Como foi o começo?
Antonio: Comecei com um salão bem pequeno, sozinho. Depois a clientela foi crescendo e coloquei uma pessoa para trabalhar comigo. Com o tempo ficamos em três. Destes, um trabalhou 30 anos comigo e o outro por 15 anos. Muitos outros já passaram e hoje são 12 pessoas trabalhando aqui.

Metrópole: O senhor começou atendendo só homens?
Antonio: Sim, só os homens. Depois as mulheres começaram a ver que os cabelos ficavam muito bem cortados e começaram a pedir para cortar os delas. Para atendê-las fui pra Maringá e fiz um curso durante 6 meses e comecei a trabalhar com o feminino. Hoje faço de tudo no cabelo feminino e continuo fazendo cursos. Esses dias fui a Foz do Iguaçu, num evento internacional, do qual participo há 12 anos.

Metrópole: E sempre tem novidades?
Antonio: Sempre tem novidades. Agora foram tendências de primavera e verão sobre tintura, corte e penteados. Hoje os clientes são muito exigentes. Copiam as novelas, pegam as fotografias de revista e querem o cabelo igual. Então tem que estar sempre estudando, porque a profissão de cabeleireiro é igual a de músico, não tem fim. Quanto mais você estuda, mais aprende, melhor fica o trabalho, melhor atende e mais precisa aprender porque exigem mais.

Metrópole: onde mais busca informação além dos eventos com profissionais?
Antonio: Faço curso em vários lugares, como sou conhecido, os profissionais que sabem onde tem curso bom me convidam. Também me informo por revistas, internet, vejo novelas, DVDs.

Metrópole: Com tanta experiência deve ser fácil acertar o corte…
Antonio: Estudei visagismo. De olhar para o rosto da pessoa eu sei o que vai ou não combinar. Geralmente querem um corte que Antônio-Passadorcombine com seu rosto. Tem aqueles que querem tirar só as pontinhas. Mas a partir do momento que querem, a gente faz esta mudança.

Metrópole: Para o senhor é mais fácil atender homem ou mulher?
Antonio: Acho que todos são fáceis, mas cada um tem o seu jeitinho. Tem que analisar o cliente e pegar o jeitinho, então fica fácil. Com o tempo, as mulheres acabaram tomando conta, mas atendo muitos homens ainda. E aí os homens ficaram bravos comigo, falavam: “só dá mulher”. E eu respondi: “mas aí é que é bom, tendo bastante mulher é melhor”. Quando comecei a trabalhar com mulheres uma foi trazendo outra. Assim formou–se uma clientela grande. E assim também criei minhas filhas, que nasceram nesse local mesmo, viveram aqui, aprenderam comigo e três delas trabalham no Salão.

Metrópole: E, como é trabalhar com elas?
Antonio: Elas pegaram gosto. Nesta profissão tem que ter muito amor e muito carinho no que está fazendo. Porque lidar com gente tem que ser uma coisa muito especial, aprender a ouvir e falar com elas. Hoje elas vivem isso no nosso trabalho e gostamos das pessoas que vêm.

Metrópole: O senhor ainda tem clientes lá dos primeiros anos do salão?
Antonio: Tenho aqueles que estão comigo desde o início. São freqüentes, fiéis. Estou trabalhando com a 3ª e a 4ª gerações. São os pioneiros que vieram e que trouxeram os filhos, os netos, estão trazendo os bisnetos, e assim vai indo.

Metrópole: As características do local mudaram muito nestes anos?
Antonio: Fui construindo devagar, melhorando até chegar ao limite que eu queria. Reformei, hoje está bem montado, bem diferente do começo no salão de madeira, na rua poeirenta.

Metrópole: O que o senhor pode falar dos seus muitos prêmios?
Antonio: Antigamente tinha muitos campeonatos na região e ganhei muitos troféus. Na parede tenho alguns reconhecimentos, e por muitos anos conquistamos o “Destaque do Ano”.

Metrópole: E sua outra paixão, o fusca?
Antonio: Faz 38 anos que esta comigo já. É um do ano 1974, original e não me desfaço dele.  Tenho outro carro, mas o fusca é uma paixão. Ele levou minha filha para nascer, batizar, casar e hoje carrega os netos.

Metrópole: Mas, a primeira paixão é o salão?
Antonio: Sim, porque aprendi desde moleque com o meu pai, que era muito exigente e queria que trabalhasse muito bem, caprichasse no que fazia. Continuo assim e ensinei para muitos que trabalharam comigo, e sigo assim ensinando, explicando e fazendo.

Metrópole: O senhor contribuiu para o crescimento de Campo Mourão. Como vê a cidade hoje?
Antonio: Acho que contribuí bastante.  Tenho muita história para contar. Quando cheguei não tinha nada, me estabeleci com meu trabalho. Comecei sozinho, às vezes trabalhava até as 2 horas da madrugada. Nunca tive preguiça e nunca dispensei cliente. Aprendi com o meu pai que tem que atender o último cliente como se fosse o primeiro, sem demonstrar cara de cansado. Tem que estar sempre alegre para ele sentir que você tem prazer de atender.  E tudo que tenho está aqui, além de filhos, amigos e clientes. Quanto mais a cidade se desenvolver, será melhor para todos.

Metrópole: Nestes 50 anos o que mudou no gosto das pessoas?
Antonio: As pessoas gostam muito de andar com um bom visual, investem bastante em cabelo, sobrancelhas, roupas, calçados. Campo Mourão tem o privilégio de ter bons profissionais que deixam o povo bonito. Acho isso muito importante, me deixa muito feliz.

Metrópole: E o seu lado de “psicólogo dos clientes”?
Antonio: O profissional tem que ter psicologia, saber ouvir. Às vezes o cliente chega com problema, aborrecido. Vamos conversando, vendo o que está sentindo. E quando vai embora, a cara de bravo acabou. Ele sai contente porque nos alegramos e cuidamos dele com carinho.

Metrópole: É esse tratamento que tem feito o cliente voltar nestes 50 anos?
Antonio: Sim, esse tratamento sempre faz o cliente voltar. Ele se sente bem e por onde for vai lembrar da gente. Vários que foram para outras cidades, quando vêm passear, chegam direto no salão para conversar comigo, saber as novidades da cidade e já aproveitam para fazer o cabelo. Saem felizes por terem voltado ao seu profissional antigo.


Sobre o Autor

Regina Lopes
Regina Lopes

É jornalista há 27 anos, editora da Revista Metrópole e jornalista da Prefeitura de Campo Mourão.


Fatal error: Uncaught Exception: 12: REST API is deprecated for versions v2.1 and higher (12) thrown in /home/metropolerevista/metropolerevista.com.br/html/wp-content/plugins/seo-facebook-comments/facebook/base_facebook.php on line 1273