De músico a luthier, de tudo um tanto

Marcos Rosa é mais um mourãoense cheio de talento que conquista seu espaço fazendo atividades diferentes das que cotidianamente conhecemos.  Autodidata em tudo o que faz, sua maior competência tem sido como Luthier (fabricante artesanal de instrumentos de cordas), mas se destaca também como inventor e músico.  Entrando em seu ateliê, na Rua Bela Vista, no Jardim Pio XII, a primeira impressão é de que o local é um pronto socorro de violões e guitarras, mas conversando se vai descobrindo aos poucos que funciona ali uma fábrica de invencionices.

A Música

Natural de Boa Esperança, Marcos Rosa aprendeu a gostar de música quando ainda morava na zona rural de Campo Mourão, onde ficou até aos 12 anos. Através dos programas de TV, como desenhos animados e seriados, aprendeu a gostar de músicas clássicas e das músicas brasileiras da década de 80: Chico Buarque, Elis Regina, Djavan e outros.  Aos 16 anos, por influência de amigos, conheceu o rock de bandas como Metallica e Nirvana.  Nesta época resolveu aprender violão, para fazer uma música dedicada a uma garota a quem queria impressionar. A partir daí pegou gosto pelo instrumento.

“Eu achava demais tocar guitarra, instrumento que conhecei com uns amigos que gostavam de rock pesado e tinham condições de comprar. Meu pai me deu um violão velho que consertamos, onde eu tocava com uma corda só e que era um fio retirado de um cabo de aço de bicicleta. Aprendi a afinar depois de uma rápida lição que tive com dois bêbados em frente à minha casa. Com as dicas deles e as cordas que meu pai comprou eu afinei meu violão sozinho, observando que as notas se repetiam em algum ponto do braço, acertando, apertando até achar o tom certo. Nunca me importei em estar sempre aprendendo. Eu viajo com a música, ela me causa sensações. Como se sentisse saudades de algo que nunca vi, ou verei, algo que eu nunca vou alcançar. É uma sensação de amor por quem não conheço”.

O Luthier

A luthieria entrou na vida de Marcos quase por acaso, com a guitarra Giannini que ganhou do Pai, e que era torta. Depois de uns improvisos, resolveu pedir a um amigo marceneiro para ajudar com a madeira e, em casa mesmo, fez o braço em canafístula, com a escala – original – de jacarandá, mesmo sem saber a técnica.  Com apoio da família foi comprando peças para que os instrumentos fossem consertados e outros pudessem ser construídos.  Com uma guitarra que montou fez seu primeiro show em 1997, acompanhando a dupla sertaneja Antonio Marcos e Fábio. “Fiz sozinho as escalas, com afinação perfeita dentro do possível, tudo à mão, na garagem de casa. Arrumei morsa e furadeira e um amigo cortou a madeira. A segunda que fiz, vendi para o professor Wilson, do curso de Letras da Fecilcam. O pessoal achou legal e começou a pedir outras. Isso me exigia ferramentas que eu mesmo fui construindo para facilitar o trabalho”, diz.

Marcos diz que foi aprendendo fazendo testes com materiais, seja por intuição ou observando o que tem no mercado, até alcançar o mais perfeito que pode. Em 2010, o negócio deslanchou, com novos investimentos em máquinas e ampliação da área de manutenção, reparos e assistência.  “O instrumento sai daqui novo, às vezes aproveito peças, faço outras. Recentemente vendi três violões para o Acre e presto assistência técnica para a Tagima, maior fabricante de guitarras do País, além de manutenção instrumental para músicos de São Paulo e região”.

O Inventor

Mesmo sem conhecimentos de física ou engenharia,  concebe instrumentos e máquinas. A primeira fresadora, ele mesmo desenhou e um amigo, dono de uma afiação, montou. Agora vai fazer uma que corta em 3D, que é computadorizada, tipo CNC. Ele fez os gabaritos e as escalas que usa a partir da observação e da necessidade.  Hoje também faz os captadores, incluindo a máquina de enrolar fios. “Faço testes ouvindo e calibrando o som. Descobri que a grande jogada é o jeito de enrolar. Saquei ouvindo, desmontando, montando, fazendo cada um a partir das medidas dos carretéis e quantidade de espirais de fio de cobre, finos como cabelo. Vi que isso influencia no timbre. Um número maior de voltas tem maior ganho, enquanto um número menor tem saída mais fraca e brilhante, por exemplo. Com base nestas experiências desenvolvi meu próprio captador, que os amigos dizem não perder para algumas marcas conhecidas. Meu sonho é conseguir chegar ao nível das grandes marcas do mercado como Gibson, Fender, Dimarzio, Seymour Duncan, entre outros”.

Este artista do som também usa o ouvido para pesquisas em madeira, analisando o diferencial de cada uma.  “Alguns pesquisadores até fizeram trabalhos querendo provar que todas as madeiras são iguais, mas quem fala isso não conhece música. Cada material tem uma resposta”, explica. Finalizando, ele lembra que no Brasil encontra-se grande parte das melhores madeiras utilizadas na fabricação dos instrumentos, mas isso é pouco observado. “O brasileiro está bitolado no que vem de fora e se esquece de investir em pesquisas para fazer as coisas aqui mesmo. Nossos produtos também são bons: é nossa madeira que vai para outros países e voltam em forma de instrumentos, custando absurdos”.

O músico

Com sua guitarra rústica – feita de uma estante antiga e captador caseiro – Marcos toca com a dupla sertaneja regional Cleber e Fernando e faz pocket shows de blues no Bar Oráculus, em Campo Mourão. Com essa prática musical diversificada, ele traça um mapa da cidade: “Temos vários espaços e o sucesso de cada um depende da galera que freqüenta. Nos bairros, o funk, o rap e o sertanejo prevalecem. A molecada, em grande parte, não tem gosto formado, vai pela mulherada. Quem gosta do rock, jazz, blues e música brasileira recebe informações mais globalizadas, tem um senso crítico elevado e consegue absorver uma música mais elaborada, ao contrário de alguns sons mais populares, cujas sequências de acordes e ritmos são grudentas e não precisam ser interpretadas . Vejo que o músico que opta por estes estilos não tem oportunidade de se aprimorar ou não tem noção do que é música. Claro que existe música sertaneja, entre outras, de qualidade sim, mas essas foram sucateadas com o tempo, substituindo os verdadeiros cantores por melodyners. Gosto de som inteligente e sempre indico para os mais novos – como o Djavan que toca a mesma música de várias formas, é genial.”

A arte da Luthieria “A manufatura de instrumentos de cordas encerra alguma complexidade de procedimentos e métodos que atravessam áreas do conhecimento inerentes a diferentes ofícios tradicionais, como a de marceneiro, de entalhador, de torneiro, de embutidor e de polidor, conjugadas com saberes elementares de matemática, de geometria e de âmbito musical”.

.Antonio Rodrigues (Musicólogo-Autor Português)


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