Dakar. Eu cheguei lá!

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Um dos maiores incômodos que eu tinha. Resolvi neste começo de ano.

Incrível como o Rally Dakar, antigo Paris-Dakar, Lisboa-Dakar, Granada-Dakar, mas, simplesmente Dakar é tão conhecido no mundo todo. No Brasil, acredito que devemos muito à família Azevedo, o André e o Jean, afinal, o André completou este ano vinte e cinco anos de participação neste, que é o maior rali do mundo. Até brinquei com ele em Mar del Plata, disse que quando ele fez sua primeira participação eu tinha pouco mais de 2 meses de vida. É, parabéns pra ele.

Era desconfortante pra mim, quando perguntam com o que eu trabalho, digo que sou fotógrafo, especializado em automobilismo. De cara perguntavam: “Você já fotografou o Dakar”? – Juro que era ruim responder que nunca tive a oportunidade de ir. Neste momento, alguns dias depois de ter completado o evento, sou sincero em escrever, com águas nos olhos: Sim eu já fiz o maior rali do mundo!

Quando sai de Campo Mourão, dia 26, após o Natal com a família, estava com o coração apertado por dois motivos. Um por não ter ficado tanto tempo com minha família e com amigos, e outro devido a muita apreensão. Afinal, eu estava a caminho de um de meus sonhos profissionais. O maior rali do mundo. Na bagagem levava algumas temporadas de Brasileiro de Rali, Copa Peugeot e o mais próximo de lá, 6 anos de Rally dos Sertões. Juro que eu achava que 6 Sertões na bagagem iriam facilitar muito, mas, mesmo sendo o segundo maior rali do mundo, infelizmente ainda “falta chão” pra chegar próximo a grandiosidade do Dakar.

Este ano o percurso foi de Mar del Plata, litoral Argentino, até Lima, capital do Peru. Foram mais de nove mil quilômetros em 14 dias de competição, passando pelo Deserto do Atacama, Cordilheira dos Andes e mais dezenas de paisagens indescritíveis.

Quando cheguei em Mar del Plata, logo fui para o Bivuac, que é onde se concentram todas as equipes, estruturas de apoio e organização. Comecei a andar, andar, andar e a ficar assustando com o tamanho daquilo. Tudo na minha cabeça eu comparava com o Sertões, e sempre me impressionava mais e ficava apreensivo também.

Na virada do ano, quando já estava tudo pronto na camionete, para seguirmos viagem no meio da noite, rumo ao primeiro dia de rali, dei um abraço apertado no meu grande amigo e mestre Haroldo Nogueira, fotógrafo super experiente a quem eu dediquei inteiramente o meu rali. No abraço emocionado agradeci por ele estar me dando aquela oportunidade. Oportunidade que faltava para eu encher o peito e dizer: Eu sou fotógrafo de rali!

O primeiro dia, entre Mar del Plata e Santa Rosa de la Pampa já começou anormal, com fotos com o Atlântico ao fundo, e muita areia. Eu ainda estava um pouco nervoso e apreensivo em ver os carros de rali com mais tecnologia do mundo passando pela minha frente. Ver ícones como o francês Stephane Peterhansel, que neste ano sagrou-se pela décima vez campeão da competição. Depois que acabamos de fotografar, cerca de seis horas e depois de muito andar, fomos embora, estávamos indo pro carro cedo até, cerca de 16h, isso se não fosse pelos mais de 600km que tínhamos que rodar naquele dia ainda. E foi já neste primeiro dia que comecei a ver, a diferença de qualquer outro rali, para este. Tudo é longe. No segundo dia, chegamos tarde no ponto desejado pra fotografar, e não tinha nada legal por ali. Preparei meu colete de fotografia com muita água e umas bolachinhas, e falei: “Vou caminhar…” E foi o que fiz, eu estava muito empolgado por estar lá, então precisava de algum ponto ótimo de fotografia, não importasse o quanto tivesse que andar, e comecei andar, andar, andar… umas três horas depois encontrei um lugar que me agradou muito. Fiquei por lá, as motos que largam antes, já estavam no final. Mas eu queria mesmo ver os carros. Quando passou o primeiro  eu já abri um sorriso gigante. Tinha acertado na escolha. Fotos maravilhosas, talvez as melhores do rali. Aliás, o rali tem um ponto muito forte, que é a solidão no meio do nada. Gosto muito disso, me ajuda a criar, pensar na vida, e pensar em tudo. Eu estava a uns 20km de qualquer pessoa, sozinho, sem nada, só eu, barulho do vento, uma paisagem anormal, e de tempo em tempo um carro passando e deixando a sua marca no chão de pedras. Depois de ter andado tanto é que eu pensei: Vale a pena. Vale cada passo. Vale cada “Volte sempre a Campo Mourão. Boa viagem”. Somos criados para o mundo, e ele nos espera.

A partir do segundo dia já comecei a ficar mais esperto com a rotina. Comecei a seguir o lema que temos no Sertões: Quando der pra dormir, durma. Quando der pra comer, coma. Quando der pra ir ao banheiro, vá e beba água o tempo todo. Tudo isso, mesmo sem vontade. Esse é o lema. Cada minuto é tempo valioso para o físico.

No quarto dia, já estávamos entrando nos Andes, andamos por lindas estradas. Lembro-me que pedi para parar o carro pra ligar a câmera externa que tínhamos. Ainda comentei: “Para o carro, preciso gravar esta estrada pra minha mãe ver. Ela gosta de estradas bonitas”! – Era sinuosa que nem uma cobra, no pé das cordilheiras, coisa linda. Chegamos em um leito de rio, estava meio seco. Ele se enche no final do inverno, com água de degelo. Vi a primeira cena impressionante para quem gosta do esporte. Estava com o olho na câmera, fotografando três motos que vinham juntas naquele largo rio seco, quando lá atrás, surgiu um Hummer, carro do príncipe do Qatar e até então, atual campeão do rali, Nasser Al-Attiyah, que veio passando por cima de tudo. Aliás, se os motoqueiros não fossem espertos, poderiam estar lá até hoje. Foi lindo, passou pelo “risco” de água que eu estava fotografando como se nada tivesse acontecido, como uma bala tascante. Só quem gosta e quem já viu pode saber o que senti na hora.

Neste dia conhecemos um peruano, que quebrou a moto pouco antes. Veio se arrastando até nós. Parou e ficou tentando arrumar a moto por um bom tempo, e quando fomos embora e o deixamos, ele disse uma ótima frase: “Pelo menos uma coisa boa disso tudo. Eu vou embora”! E isso era apenas o quarto dia. Tinham mais dez.

Lá, os pilotos de moto e quadriciclo sem dúvida são os que mais sofrem. Imagine você, em uma moto, andando em um terreno desconhecido por mais de 400km? Não é fácil.

Mas para compensar o cansaço, entre a fronteira da Argentina e do Chile cruzamos pelo Paso de San Francisco, onde fica um lago chamado Laguna Verde. Simplesmente a paisagem mais linda que já vi em toda minha vida. Inigualável, muito emocionante, poderia passar o dia vendo aquelas paredes de rocha com um imenso lago com tonalidade esverdeada e com montanhas de gelo ao fundo. Dá vontade de meditar, mesmo sem nunca ter feito isto antes. Pena que na circunstância que estávamos tínhamos tão pouco tempo.

Costumo dizer que existe a crise do sétimo dia no Rally dos Sertões, incrível que sempre no sétimo dia todos já estão de saco cheio, todo mundo brigando com todos. Vontade de ir embora, e é quando bate o arrependimento. Mas, justo no oitavo dia no Dakar é de descanso. Dia sem competição. Resolvemos parar em uma cidade magnífica chamada Taltal, na beira do Oceano Pacífico, costa do Chile. Tivemos o prazer de ver o lindo pôr do sol, e comer um bom e tradicional Ceviche, que é peixe descansado em suco de limão e outros temperos. Existe uma briga entre chilenos e peruanos pra dizer onde foi criado, mas ambos são ótimos, o peruano tem mais pimenta. Se não fosse um dia desses de descanso, acho que metade desistiria.

A partir deste dia de descanso já começou a ser muito automático, o cansaço, mesmo depois do Ceviche era tanto, que já pensávamos diferente. Víamos mais a “luz do fim do túnel”… o fim do rali. Claro que todo dia tinha algo diferente e espetacular. As dunas de Antofogasta no Chile, a paixão por rali dos Peruanos de Nazca, tudo era bonito de ver, mas o que eu mais queria era chegar em Lima.

Último dia. A sensação de dever cumprido era tão grande que não cabia dentro de mim. A felicidade de ter feito parte do maior rali do mundo, e ao mesmo tempo o alívio de ter acabado se misturavam. Fomos direto para a tão esperada rampa de chegada, onde os competidores sobem para ser premiados. Aí é champagne, papéis picados, gelo seco, luz negra, qualquer coisa que refere-se a festa. Muita alegria em todos, competidores choram apenas por ter completado, mesmo que no pelotão de trás. Eu, o fotógrado Haroldo Nogueira e o grande companheiro e motorista Ralph Gallas estávamos na mesma alegria.

Rally Dakar. 34 anos de história. Agora posso falar que já fotografei o maior rali do mundo. E cada vez mais tenho certeza de uma coisa. Somos criados para o mundo, e ele nos espera. Todos nós. Vamos descobri-lo.


Sobre o Autor

José Mário Dias
José Mário Dias



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