Colocando Sid Sauer na parede

Seu nome é Sidirlei (Sid) Sauer Walter. Dono de um estilo único, bem humorado e crítico, jornalista dos mais respeitados no interior do Paraná e formador de opinião dos mais considerados, Sid Sauer há 10 anos criou o site Boca Santa – que, podemos dizer, já era um Blog, antes mesmo que o mundo falasse em Blog. Ele recebe diariamente mais de 200 e-mails e tem cinco mil visitas diárias, muitas delas de outros países. Sua audiência é composta basicamente por internautas que se identificam com a cidade e a região. Este ano estreou no rádio, pelas ondas da Musical FM de Campo Mourão.

 

Por que sua ligação com Campo Mourão é tão grande?

Sou de família pioneiríssima.  Meu bisavô, o alemão Jorge Walter liderou a primeira expedição a este Município de que se tem notícia. Ele veio em 1890, saindo de Guarapuava. Fixou residência com a família em 1910, há 100 anos.  Já havia outras famílias aqui, mas as primeiras expedições foram as dele. Meu avô nasceu aqui, meu pai, eu, meus filhos. Tenho um vínculo muito forte com a cidade e não consigo viver em outro lugar. Minhas raízes têm a ver com a história.

Como você se tornou jornalista?

Desde adolescente fazia um jornalzinho em casa para os meus colegas, que era o Vice-Versa. Tinha até logotipo: dois “Vs” enormes. Circulava às sextas-feiras e durou por 75 edições. Fazia as notícias na máquina de escrever, em uma folha de papel sulfite dobrada. Chegou a ter seis páginas e os títulos eram feitos com pincel atômico. Eu inventava notícias, brincadeiras. Tinha 14, 15 anos. Uma das matérias que mais deu repercussão, principalmente com as meninas da escola, é que o futuro Menudo era mourãoense: eu peguei a foto de um velhinho muito feio e coloquei lá. Era assim: eu recortava as fotos e colava. Eu fazia um exemplar só que passava para todos os colegas verem.

Como foi parar na Tribuna do Interior?

Noeli, uma prima trabalhava lá. Um primo vendo que gostava de jornal, me levou para conhecer.  Eu vi aquelas impressoras, achei fantástico. Queria ficar lá. Para não atrapalhar, comecei a ajudar na dobra do jornal, que era semanal, no sábado à tarde. Depois meu primo começou a entregar o jornal e eu ia junto. Quando surgiu uma vaga para entregador me chamaram. O jornal era no sistema linotipo. Comecei a acompanhar, a ajudar na revisão, lendo o que escreviam, e comecei a escrever. Fiquei lá por … anos.

Qual a sua graduação?

Não tenho diploma de jornalista. Fiz faculdade de Letras. Comecei e, quando a Tribuna virou diário, tranquei. Voltei depois de quatro anos para terminar, quando já estava na Folha de Londrina.

Esse texto ácido, esse formato com uma pitadinha picante, essa ironia de onde vem?

Nossa família é bem assim, bastante “sarrista”. De tirar sarro em si próprio, nos parentes. Tem uns humoristas, aliás, muito bons. Você morre de dar risadas das conversas. Acho que eu tenho um pouco disso.

Esse texto mais humorado começou na Tribuna?

Comecei numa coluna chamada Bandagem, criada pelo Humberto Schwabe, que tinha um pouco do espírito de que eu gosto. O que é bandagem? Um curativo que tampa a ferida e o Humberto me explicou isso. Era Bandagem entre aspas, uma ironia. A idéia era mostrar as coisas erradas, em uma coluna séria. Depois, quando a Valdete da Graça começou a fazer, por ironia, entrou um pouco de graça, não só colocava o problema, mas falava dos fatos pitorescos da cidade. Eu estava na Tribuna nesta época, era um piazão e comecei a ajudá-la, quando vi estava fazendo a coluna.

E sua passagem como sócio da Tribuna?

A Tribuna era do Zeca Boiko, ele resolveu vender e a Dorly Thomé, que era gerente, falou: “Vamos ter que comprar, é nossa chance”. Ela chamou os funcionários chaves: o Bira (composição), a Noeli (administrativo) e eu na redação. Eu tinha 10%, mas a Tribuna não tinha nada, só nome e um fusca usado velho. Eu fiquei de sócio por um ano e meio.

Como foi a transição para o Boca Santa?

O jornal era diário, trabalhoso. Não aguentava mais e fui para o Jornal O Estado do Paraná por um ano e pouco. Também tive uma passagem relâmpago pela Assessoria da Prefeitura e, por 10 anos, estive na Folha de Londrina, sempre em Campo Mourão. Nestes 10 anos de Folha voltei um tempo para a Tribuna como colunista da Bandagem, até que ela acabou.  Foi quando resolvei criar o site Boca Santa, trabalhando ainda na Folha de Londrina.

De onde vem o nome Boca Santa?

Quando trabalhei no Jornal O Estado do Paraná, tinha uma vez por semana um caderno semanal, da região Noroeste (Umuarama, Campo Mourão, Maringá e Paranavaí) e por sugestão do Donizete Pereira, comecei a fazer uma coluna tipo Bandagem neste caderno. Não lembro porque coloquei Boca Santa. Talvez porque gosto muito da ironia. Em Curitiba tem a Boca Maldita, aqui é Santa.

Mudou o formato alguma vez?

Mudou pouco. Quando comecei, simplesmente era a bandagem na internet. Acrescentei a foto denúncia, que também teve origem na Tribuna. Com o tempo essa foto denúncia virou balãozinho, porque eu gosto do humor.

Porque essa identificação com política?

Eu adoro política, assistir horário eleitoral, comício. Gosto de ficar desse outro lado, nunca participei diretamente.  Adoro abrir a caixa do Correio e pegar santinho, as pessoas ficam bravas, eu gosto.

Tem gente que acha que o Sid é da situação. Outros falam que é da oposição. Onde o Sid fica?

Na política de Campo Mourão me relaciono bem com todo mundo. Eu gosto de estar lá na prefeitura, todos os dias vendo as coisas. Seja quem for o prefeito quero estar lá. Claro que, quem é prefeito aparece mais vezes, porque é mais divulgado. Um dia eu brinquei com o Augustinho Vecchi: “O senhor fala que eu sou do lado do Rubens Bueno. O Rubens Bueno fala que eu sou do seu lado. O Tauillo fala que eu sou do lado do Nelson, que fala que eu sou Tauillo. Estou em crise existencial, não sei o que eu sou, hahaha”.  Vejo que o político, em geral, aceita ser criticado, ele está mais preparado. Me dou muito bem com os prefeitos da região, por exemplo. E eu tenho um espaço no Boca Santa onde eles são muito criticados, tem município que nunca tem elogio, só crítica.

Como filtra isso? O jogo de cintura é complicado?

Tem que ter jogo de cintura mesmo. Às vezes as pessoas me falam: “Sid, a Boca Santa já foi mais crítica”. E foi mesmo, a minha parte. Porque não tinha a bronca virtual. Mas, tem coisa que não preciso falar: que tem buraco nas ruas de Campo Mourão, os leitores estão falando. Ou que tem buraco nas ruas de Peabiru, que fechou Hospital em Mamborê, os moradores falam. Na minha área eu acabo divulgando os eventos dos municípios, as festas. Adoro ir às festas regionais, dos pratos típicos. Como faço isso sem compromissos, os prefeitos respeitam a gente.  Sempre falo: “Divulgue coisas boas porque as ruins estão mandando para mim”.

Quando alguém divulga no site, acontece algo no sentido positivo? Sai no Boca e uma semana depois foi resolvido?

Com certeza. Já recebi e-mail das pessoas que criticam e depois mandam agradecendo, dizendo que foi bom, resolveu. Já aconteceu várias vezes, em Campo Mourão e na região.

Quantos acessos você tem e quantos e-mails recebe?

Pelo contador tenho uma média de cinco mil visitas por dia, de segunda a sexta-feira. Final de semana cai um pouquinho.  Recebo e leio mais de 200 e-mails, com certeza.

Tem muito e-mail falso? Criado de propósito para o cara não aparecer?

Tem muito. A pessoa nem se dá ao trabalho de criar nada, simplesmente coloca algo assim: ze@uol.com.br.

Responda de verdade, quantos processos já rolaram na sua vida?

São poucos. Processos correndo tem dois. Um por uma nota que eu fiz e outro com uma nota na bronca virtual. Nas Causas Especiais foram dois, mas que desistiram. Neste caso as pessoas queriam que eu revelasse a fonte, quem mandou as informações.

Sempre trabalhou à noite? Porque escolheu assim?

Estou trabalhando à noite ainda, até o fechamento. Pela proposta do site é difícil ir adiantando durante o dia. O que eu consigo às vezes é ler os e-mails. No final do dia, começo da noite, junto tudo, vejo prioridades e vou colocando.

Já filtrou carta de amor enviada para a Bronca Virtual?

Sai de tudo lá. Aparece denúncia de traição e tem coisas que a pessoa ainda fica brava porque não publiquei. Eu falo que devia guardar para daqui a 30 anos publicar. Mas eu deleto. As pessoas querem saber quem escreveu o quê.  Eu não dou importância para quem foi.  Qual a diferença se foi o Zé do Lar Paraná ou João do Jardim Alvorada. Minha preocupação é se aquilo tem fundamento.

Como saber quando vale a pena dar crédito?

É feeling mesmo. Analiso e resolvo se publico. Aprendi uma coisa: toda denúncia tem um fundo de verdade. Às vezes coisa que pareceu absurda, deixei de publicar, depois descobri que era verdade. Tinha pelo menos um fundo de verdade. As pessoas têm que entender o seguinte: Ali é um espaço de participação, não são matérias jornalísticas, onde se tem que ouvir o outro lado, averiguar. É um fórum de debates. As pessoas estão questionando, podem se enganar, estarem erradas, terem entendido errado. E cabe a quem tem a informação correta repassar.

Não rola uma coisa de divã de psicólogo?

Acho que rola, porque na bronca os que saem, 40% são sempre os mesmos. Tem cara que manda todo dia, não sei onde ele arruma tanta coisa. Parece que ele acorda e pensa: “O quê que eu vou mandar hoje?”.

Sobre o estresse que rola com alguns leitores, já foi ameaçado fisicamente?

Não, esse tipo de agressão não. Geralmente do pessoal que reclama que eu publico nota na Bronca. Mas, eles são quem menos pode reclamar. O cara manda 10, 15, 20 e-mails, eu publico, ele se anima e já escreve coisa que não devia, aí não publico. Então insinua que estou vendido.  Não é assim.

E essa história de ser o 11º vereador?

Esse foi um título dado pelo professor José Pochapski faz tempo. Eu estou em toda sessão da Câmara – mais que alguns vereadores. Vou às audiências públicas e nelas geralmente só vão os envolvidos nas comissões. Eu estou sempre presente. Acho que é justo o título (risos).

Como enxerga a cidade hoje como cidadão?

Gosto de Campo Mourão. Nasci aqui, sou apaixonado pela cidade e a região. Mas penso que, por ser uma cidade do nosso porte, ainda somos muito dependentes do poder público. O poder público faz acontecer, se não faz, não acontece. Penso que tínhamos que nos libertar disso.

Nos falta coragem de assumir que somos Pólo de uma microrregião?

Não existe integração. O Fábio Dalécio, prefeito de Ubiratã, presidente da Comcam, falou que ele lê Boca Santa todo dia porque é o único meio de comunicação que chega à região inteira. TV  de Campo Mourão não pega lá, jornal de Campo Mourão não chega lá. Ele fica sabendo das coisas pelo site. Falta essa integração regional. Outra coisa que acho, é que a região não gosta de Campo Mourão. Falam que é arrogante. Do lado de Goioerê eles gostam mais de Umuarama, pro lado de Ubiratã eles gostam mais de Cascavel. Acho que a gente peca. Por exemplo, a questão da Santa Casa: Ora, não somos Pólo regional? O Pólo atrai. Atraímos pacientes para a Santa Casa e falamos mal, que só mandam doentes. Eles se sentem ofendidos porque eles também vêm fazer compras aqui.

O que tem de bom em Campo Mourão?

Eu gosto da cidade inteira. Não tem nada específico, gosto do porte da cidade. Eu que ando a pé, vou para todo lugar. Ás vezes vou a uma cidade maior e vejo que teria dificuldade de viver lá. Gosto de tudo perto. Acho um absurdo andar de carro numa cidade como a nossa. A sede da Metrópole para mim é longe (2,5Km) está fora da minha rota (risos).

Como o Sid pessoa é?  Você lê, escuta música?

Não estou lendo mais nada, só e-mails da bronca virtual. Não tenho tempo, trabalho 16/18 horas por dia. Raramente assisto TV. Minha rotina é só trabalhar. O e-mail toma muito tempo. Música, ouço pela internet enquanto trabalho. Gosto de MPB, principalmente Chico Buarque. Mas sou bem eclético: gosto de Roberto Carlos, tenho ido às baladas sertanejas universitárias. Acho que tem coisas legais, para quem gosta de dançar é bom, até eu danço. Não gosto de dirigir. Nunca tirei carteira, aprendi a dirigir, mas dirigia mal.

 

SID por Sid

“Uma vez vi no horóscopo chinês que eu sou cachorro. Vi isso em 1982, tinha 12 anos e nunca esqueci. Estes dias eu fui num sebo em Guarapuava e abri um almanaque deste ano, e a frase é exatamente assim: “O cachorro nada espera da vida, mas é fiel, sincero e honesto e nunca trairá quem nele confia”. Eu gostei, sou um cachorro (risos).

 

Como você se tornou comentarista da Musical FM?

Há seis anos o Elói Bonkoski me chamou, também conversei com o Fernando Nunes. A idéia de levar os comentários da Boca Santa para o rádio, eu sempre tive vontade, mas fugia destas coisas. O Elói chegou a marcar um piloto pra mim. E nem lembro que desculpa eu dei, e não fui. Fuji mesmo. Para eu falar no microfone é terrível, fora da minha realidade. Mas fui ficando velho, não sei, dei algumas entrevistas nas rádios, tevê e agora a oportunidade voltou. O Luiz Donizete tinha uma pressão do Elói para reestrear o jornal 100. E ele queria montar uma equipe, com mais pessoas, e insistiu comigo. Fui gravar o piloto na casa, no estúdio dele, talvez isso facilitou. Gravei e na hora já ficaram animados, que estava muito bom. Fizemos o piloto do jornal inteiro.

Como constroem a pauta?

À noite, na véspera, passo para eles por internet, os assuntos que tenho que gostaria de comentar e até para ver se estão falando a mesma notícia. Procuro chegar uns 20 minutos antes para trocar idéia e eles saberem o que eu vou falar e, eventualmente, fazer umas perguntas.

Como é a real?  A vida inteira você teve tempo de filtrar, como é agora falar “na lata”?

Estou meio perdido, até propus à Rádio se não queriam que eu gravasse, se não queriam que eu escrevesse e lesse, porque não estou lendo. E eles falaram: “Não, Sid, está bom assim”. Estou gostando, só que eu me perco. Faço minhas anotações e, o que era pra falar no final, no meio já falei. É complicado. Espero que melhore com o tempo.  Ainda estou bastante nervoso, ainda não falo com naturalidade.

Como estão sendo as respostas?

Até comentaram: “agora você é o Arnaldo Jabor, de Campo Mourão” (risos). Tiveram uns dois dias que achei legal. Eu entro três vezes no ar e sempre tem uma coisa que acho que poderia melhorar.

Como é o Sid comentando?

Sabe que fiquei até constrangido nos dias dos primeiros pilotos, porque ouvi assim: “Sid, você vai ser o Tchan do jornal. O diferencial é você”, o que me deixou um pouco assustado – nunca trabalhei em rádio. Não sei se vai ser bom. Mas tem sido muito legal. Eu viajei e precisei gravar o programa. Somei o tempo dos três comentários e brinquei: “Nossa! Só estou trabalhando 3 minutos por dia!”. Porque no rádio é espontâneo, rápido, e eu estou acostumado à imprensa escrita, sair do evento, ir para redação escrever…

E, essa história de acordar cedo?

O que me motivou a aceitar logo de cara, foi que minha vida estava muito bagunçada. Uma vez vi uma matéria na TV sobre trabalhar em casa, que é muito bom, mas tem um problema sério na disciplina. Você perde a disciplina e foi isso que aconteceu comigo. Uma coisa é fechar a Boca Santa às 11 da noite, outra é às 4, 5 horas. Quando vi estava fechando às 8 horas da manhã. Varava a noite. Vi que meu dia estava muito curto, não estava conseguindo ir a alguns eventos. Estava complicado. E na rádio tem que disciplinar, acordar cedo, dormir cedo, o que não estou conseguindo, ainda estou dormindo bem tarde, mas 6h30 tenho que estar em pé.

Você tem um banco de memória?  Você escreve uma parte que faz história. Pretende um dia escrever detalhes do que publica?

Nunca pensei não. Mais para frente, quem sabe, quando eu ficar velho (risos). A Boca Santa hoje é um banco de dados interessante, oferece acesso a todas as edições dos últimos 10 anos.

O Boca é um blog ou um site?

Eu brinco que o Boca é um blog antes de existirem blogs. Quando fui fazer, o Euro Maciel fez o lay-out inicial. A internet era discada, e falei para ele que não queria algo que ficasse lento, que a cada clique travasse tudo. Então Boca Santa era uma página só. E depois começou bronca virtual, os comentários dos leitores. Mas era um blog antes de existirem blogs. Hoje muitos chamam de blog e não deixa de ser.

Você pensa em se atualizar, colocar vídeo, mudar o espaço?

Eu fico muito em dúvida, porque quando Boca Santa era para ser uma coluna de jornal, atualizado com resumão do dia. Eu fico em dúvida se eu faço várias atualizações por dia da minha parte, não da Bronca. Tem hora que dá vontade, mas vai me sobrecarregar. Tenho que pensar melhor.

Você se sente mais respeitado por ser o Sid da Boca Santa? As pessoas têm medo de você?

Se têm, não deveriam. É uma coisa boa, está indo bem, que é bem acessado, as pessoas tem valorizado.  A gente é super respeitado sim.


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Metrópole Revista
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Revista de variedades.

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