Cidadão do mundo, hippie, alma cigana

Rótulos podem falar sobre pessoas, mas nem sempre as apresentam como realmente são. Nesta edição de Metrópole você vai conhecer José Geraldo Duarte Trombini – o Zezo. Um filósofo nascido em Campo Mourão, que mora na cidade de Cesky Krumlov, perto de Praga, na República Tcheca. Gerenciando um hostel (Albergue da Juventude) ou se assumindo como hippie, ele passa boa parte do ano viajando, só ou com amigos, em vans que percorrem festivais culturais da Europa. Assim, já esteve em 47 países e se permite dizer que é apenas um cidadão nascido no Brasil. “Não sou nacionalista. Gosto de lá como de cá. Nesta escolha não tem valores de Estado, posso apreciar os países e as pessoas sem colocar fronteiras. Hoje o Brasil é uma ilha do outro lado do mundo, venho rever a família, mas sempre estou voltando para algum lugar. Movimentar é a minha base”, afirma.

Descendente de alemães, croatas, e italianos, este mourãoense diz que nunca pensou em estar onde está, mas chegou nesta opção de vida por “acidente”. Quando era criança, o pai, que viajava muito, mandava postais de vários lugares do mundo, mas isso nunca o fez imaginar aonde iria. Ainda bem jovem, estudante do Colégio Integrado, resolveu cursar Filosofia na PUC, em Curitiba, por ser um curso que não o incomodava.  “Era uma disciplina que pedia isolamento e contemplação, que eram características muito pessoais que já tinha. E, ouvindo blues, lendo Nietzsche, resolvi me aprofundar, aproveitando uma oportunidade de ir para a Alemanha, aprender alemão e fazer mestrado sobre este autor”, diz Zezo.

Mas, o que se via como uma grande oportunidade acadêmica, não passou da segunda semana, quando Zezo avisou a família e a faculdade que não voltaria mais e rompeu com o que conhecia até então. “Acabei, depois de alguns dias, encontrando um grupo de teatro da Dinamarca em um hostel onde havia 12 pessoas, uma de cada país, morando e trabalhando juntos. Esse grupo me apresentou ao jazz, ao teatro, à musica e às possibilidades de viajar. Descobri que é mais fácil viajar do que ficar parado num lugar”.

Morando há 11 anos na República Tcheca, Zezo lembra que viaja sempre de acordo com as estações. Ganha no verão para poder se sustentar durante as demais estações. No inverno segue para uma casa na montanha, ao Brasil ou Israel, mas a rotina é passar por pelo menos três países a cada ano e, assim, já viajou por 47 países e aprendeu a falar quatro línguas.

Viajar é Conhecer

Passando por tantos lugares, o nosso filósofo diz que estar nestes países é mais que fazer turismo: “É mais amplo, é interessante estar no café, na panificadora, no dia-a-dia, ver de perto a cultura de cada local. As pessoas mais interessantes de cada lugar não viajam. Para mim turismo é ilusão, não é adquirir cultura. Consomem o que se vende como bom, bonito, o que é mais cômodo. A indústria de turismo é uma faca de dois gumes. As pessoas fazem turismo, em sua maioria, para contar aos amigos e tirar fotos, não sabem direito o significado das coisas que vêem. Essa idéia de cultura é a maior balela, a pessoa volta mais arrogante, reforça mais seu País”, afirma.

Falando sobre o país onde mora, Zezo lembra que na República Tcheca a aceitação dos estrangeiros é melhor do que em outras nações, onde já há muitos imigrantes; ali a vida é mais fácil. “A classe média é gigantesca e Praga, a capital, é a cidade mais bonita da Europa, tem 67 albergues da juventude, mais do que em todo o Brasil e, em Cesky Krumlov, uma cidade do tamanho de Peabiru, onde moramos e trabalhamos, tem 17”, explica.

Filosofia de Vida

Ao mergulhar no universo de Nietzsche, Zezo encontrou uma noção de valor que se encaixa na vida que escolheu. “Na filosofia de Nietzsche, o bem e o mal são relativos. Se na sociedade ocidental se dá valor ao que se tem, em muitas outras os valores morais são puros, frutos de construções. Ao vivenciar estas formas diferentes de construção de valores você percebe que tem que fazer o melhor, do seu tempo presente. Essa relação com o ambiente onde você está ajuda a entender  as pessoas e seu modo de viver e acaba que você não se sente  mal  em nenhum lugar porque olha, contempla, respeita. Talvez não conseguisse vir a morar ali, mas entende como vivem”.

Pretendendo um dia anda morar na Ásia, Zezo que foi adotado por uma família tcheca, com outro mourãoense – Álvaro Bahls, toma conta de um hostel. Passada a alta temporada nos Hostels, ele se junta a uma trupe de oito pessoas, uma de cada país – Brasil, Suécia, Itália, Polônia, Eslovênia, Áustria, Chile, Inglaterra e Austrália – e em quatro vans partem para os principais festivais culturais da Europa e montam um “Shop” de chá, café e comida vegetariana, que agora também vai oferecer roupas, produzidas pela namorada de Zezo, a sueca Mathilda Oakmeadow, que tem uma grife de roupas na Holanda.

“Mas 90% das viagens faço só. Não sinto solidão. Minha felicidade vem da contemplação. Precisamos de pouco para viver. Eu mesmo não tenho telefone, meus amigos não têm carro, nem TV. Prefiro assim, sinto que hoje, com os muitos meios de comunicação, e a própria Internet, perdeu-se o sentimento do sentir-se sozinho, que as pessoas precisam vivenciar”, fala.

Zezo diz que tem vontade de começar a escrever sobre a sua experiência: o que observa nas viagens, as pessoas que já encontrou e o que as pessoas não vêem no viajar do turismo oficial. “Movimentar é a minha base, vou escrever sobre isso. Agora estou editando um filme feito há oito meses com uma câmera digital. Vamos mostrar nossas passagens por 13 países e como é a vida alternativa, que ela não é ruim, não se precisa viver marginalizado por esta escolha. Temos trabalho, consciência e os valores que queremos”, argumenta.

Atualmente  Zezo tem uma coluna na Revista Metrópole com crônica do seu cotidiano e fotos das suas experiências.


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