Ater Cristófoli, o negociador da China

Ele começou a fabricar equipamentos odontológicos por influência da profissão do pai, nos anos 90, em uma empresa praticamente artesanal em Campo Mourão. Com muitas ideias e pouco dinheiro, o negócio começou devagar e com alguns tropeços. Hoje, Ater Cristófoli atribui à falta de dinheiro do começo da empresa o sucesso que ela é hoje, levando seu nome para a China, onde abriu uma sucursal, e para a Europa, onde se prepara para instalar um novo empreendimento.

Polêmico, o empresário recebeu a Metrópole para um bate papo sobre sua atuação como empresário e cidadão. Confira!

Como começou sua carreira de empresário?

Nasci em Farol, que fica a 23 quilômetros daqui. Meu pai era dentista prático e comecei a trabalhar muito cedo, desde criança. Fazia próteses para ele. Virei protético por causa disso, depois comecei a vender material odontológico e autoclave odontológica, produto que ainda é o carro-chefe da empresa. Como eu vendia muita autoclave e achava que o mecanismo era muito simples, daí a começar a fabricar foi um passo, mas o começo da minha empresa é bem interessante, bem engraçado. Se eu tivesse feito um plano de negócios ou me preocupado com algumas avaliações, não teria montado a empresa.

Como assim?

Por exemplo: tenho experiência no ramo? Não, não tenho. Tenho fornecedores aqui em Campo Mourão? Não. A clientela está em Campo Mourão? Não. Tenho grana? Não. Enfim, para as 20 perguntas básicas para saber se eu podia abrir um negócio, a resposta era não. Porque não me preocupei com isso, comecei a empresa e porque não tinha grana, a empresa começou toda terceirizada.

E como foi esse início? Você falou que não tinha experiência, fornecedores, mercado, dinheiro… Como conseguiu reverter essa situação?

Na época ainda se vendiam linhas telefônicas e eu tinha duas. Foi todo meu patrimônio. Patrimônio que hoje, sei lá, valia U$ 2 mil, nem isso. Foi com isso que comecei a empresa, mas o lance de começar a empresa toda terceirizada, isso de não ter grana foi ótimo pra mim. Talvez a razão de eu ainda estar aqui hoje seja o fato de eu não ter tido grana no começo. Se eu tivesse grana no começo, teria feito besteiras num número tão grande que não teria dado tempo de consertar.

Que tipo de besteiras?

Por ironia do destino, comecei a fabricar porque os produtos nacionais eram muito ruins, davam muito problema e eu tinha de consertar. Mas as minhas, no começo, eram bem piores. Quando você tem grana, você já começa produzindo num volume maior do que você consegue consertar, mas no meu caso, não. Vendia para meus amigos da região, fui ajustando o produto e crescendo em produção. Em 91 comecei a empresa, em 92 já estava vendendo.

Quem começou a fazer as autoclaves para você?

Eu mesmo. Eu ia para a linha de montagem. Tinha um rapaz que fazia circuito eletrônico, outro que fazia fundição e usinagem, outro que fazia os gabinetes. Eu praticamente montava.

Hoje a Cristófoli tem 150 funcionários, expandiu para a China e ainda preserva a fama de ser uma das melhores empresas para se trabalhar na cidade.  Como você explica essa evolução nos dois aspectos?

Posso falar do meu povo aqui e para essa matéria ainda falta espaço. É o que me possibilita abrir outros negócios, ir para a China. Tenho um time muito bom. O time da Cristófoli é muito bom. Minha galera é muito interessada na empresa. A gente tem um tratamento aqui que não é comum.

Esse seria o diferencial?

O grande diferencial da minha empresa é o nosso povo e é lógico que isso tem a ver com o jeito que a gente conduz, mas a galera que está aqui é porque faz diferença. Um exemplo disso é que temos 25 gerentes ou encarregados fazendo MBA dentro da empresa. Numa empresa de 150, é uma porcentagem muito grande. Tem um percentual muito grande de gente falando inglês aqui dentro. Nossa empresa tem exportação, importação, tem venda para o Brasil todo, “n” possibilidades para o cara crescer. Temos uma área de TI (Tecnologia da Informação) muito forte, um software de gestão super sofisticado. As pessoas podem usar, inclusive, a nossa empresa para crescer profissionalmente. Acho isso muito legal.

Mas você teve dificuldades para conseguir formar esse grupo de profissionais?

A gente paga caro por não estar em Joinville, por exemplo, em um centro onde tem boas escolas técnicas. Para compensar isso, criamos a Fundação Educere.

Mas o caminho natural não seria você trazer essa gente qualificada de fora para trabalhar na sua empresa?

Sim, mas a empresa deve modificar o meio também. Ela não pode ser apenas uma aproveitadora da cidade, tem de modificar, trazer alguma coisa. Sempre trabalhei com essa visão. Se eu fizesse só negócios, já estaria satisfeito, cumprindo meu papel. Se eu tivesse só uma escola técnica já estaria cumprindo meu papel social, mas não, além da escola técnica temos centro de pesquisa e incubadora de empresas. Agora também curso de escultura, que começou a decolar.

Mas por que, depois da qualificação aqui, expandir para a China? Ouvem-se comentários de que a empresa aqui ficou subestimada…

A empresa aqui está crescendo, estamos contratando. A empresa está crescendo não só no número de funcionários, mas também no faturamento. Duas coisas, basicamente, me fizeram ir pra China. A primeira delas é o desafio. O Brasil está dominado, conquistado, a gente já vende para o país todo. Eu exportava para 35 países, mas os chineses foram me tomando um a um esses países. Por quê? Tudo por causa do bendito custo Brasil. Será que eu consigo concorrer lá fora, será que consigo fazer alguma coisa? Esse desafio me encantava. E o outro é realmente o posicionamento no mercado mundial. Estou encaminhando para montar uma empresa na Inglaterra. Vai ser lá um fundo de quintal, mas estou pondo um pé na Europa.

A principal vantagem, então, é a diminuição do custo para exportação?

Sim. Hoje, do Brasil, é inviável exportar para a Europa, é impossível, por causa da burocracia, das altas taxas de impostos do país, da falta de qualificação da mão de obra, que só hoje, por estar na China, percebi o quanto é grande. O fato é que todo mundo está reclamando da China, mas ninguém fala que eles estão investindo muito em educação básica de qualidade. A coisa que eu mais gostaria de ver, hoje, é a valorização do ensino básico de qualidade, para que daqui a 20, 30 anos, a gente possa competir com Coréia, Japão, Alemanha, como os chineses estão fazendo. Agora, é triste, porque o Brasil é um dos países aonde se chega à universidade semi-analfabeto. Muitos saem da universidade como um analfabeto funcional.  Falo isso porque recebo aqui gente com curso universitário que não consegue fazer uma redação de 20 linhas com o mínimo de coerência, que não consegue resolver questões de raciocínio básico. Na China são 450 mil engenheiros formados por ano. Engenheiros de qualidade. No Brasil são 32 mil por ano e de qualidade questionável.

Você avalia que houve avanço em Campo Mourão nos últimos anos, nesse e em outros aspectos?

Campo Mourão cresceu economicamente, como o Brasil cresceu, infelizmente, vendendo mais commodities do que qualquer outra coisa. O Brasil, como um todo, teve uma evolução socioeconômica interessante, mas a gente tem de avançar na qualidade de educação, principalmente na básica. Tem de pensar em tempo integral para criançada na escola. Falta pensar em longo prazo, em planejamento estratégico para a cidade, em lideranças que aglutinem isso no projeto. Está faltando um projeto para atrair gente de qualidade para o desenvolvimento da cidade. Tivemos alguns avanços, sim – em função do desenvolvimento do país – mas poderia ser muito melhor.

 Hoje, além da empresa, você é conhecido por sua posição, muitas vezes considerada polêmica, à frente do Observatório Social. Por que você acha que houve essa reação negativa?

É interessante como as pessoas estão perdendo a noção do quanto é caro para o país, do quanto é caro para vida delas, ter um poder público efetivo e que devolva o que foi pago em impostos em serviços decentes. Quero pelo menos contribuir para amenizar um pouco isso. O Observatório é, na minha opinião, a melhor ferramenta de controle social. É a mais efetiva, a que traz mais resultados. Tem muita coisa para evoluir ainda, porque o poder público não está querendo entender que o chefe é o contribuinte.

Você sofreu muita resistência por conta desse envolvimento com o Observatório?

Total. Inclusive da comunidade, questionando de maneira idiota. Agora, se tem poder público corrupto é porque tem uma sociedade corrupta que colabora para isso. Quando começa a acender muita luz, abrir muita janela, isso começa a incomodar muita gente.

Você acha que o trabalho que você começou a fazer com o Observatório está surtindo efeito?

Está. Hoje eu não sou mais o presidente do Observatório Social aqui. Agora sou presidente do Observatório Social do Brasil, que reúne 70 observatórios do país, mas vejo com clareza que o trabalho do Observatório nem deveria existir. Em lugares como a Alemanha, ou a Dinamarca, as pessoas iriam rir. Esse é o ideal. O que a gente está fazendo é um paliativo, um represamento. O ideal é que cada cidadão tenha a consciência de que não é de graça o que recebe do poder público, que já foi pago. Já foi pago o ano passado. A carga tributária no Brasil hoje é de 38%, contra 26% da China e é ela que está fazendo dezenas de portos, estradas, 13 mil km de estradas de ferro de alta velocidade… O pior é que os pobres pagam mais impostos que os ricos no Brasil, só que eles não sabem, porque não recolhem guias. Por que esse povo não reclama? Porque não teve boa educação, não teve boa informação.

Essa postura te trouxe inimizades na cidade? Sua empresa chegou a ser prejudicada?

Uma das vantagens de ter um negócio completamente atípico na cidade é que não dependo da cidade para manter meu negócio. Os fornecedores que aqui estão foram criados pela minha empresa. Os meus clientes estão todos lá fora. Não dependo da cidade, minha empresa não depende da cidade, mas gosto muito de Campo Mourão, por isso me empenho para tentar melhorar as coisas.  Acho que isso gera uma porção de inimizades, mas não dá para ter personalidade e ser amado por todos. Você tem de escolher ou um ou outro.

  • Texto Gracieli Polak
  • Fotos Fernando Nunes

Sobre o Autor

Metrópole Revista
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Revista de variedades.

Um Comentário


  1.  

    Belo de um exemplo: como empresário e como um lutador para que o Governo utilize os recursos financeiros de forma racional, aqueles mesmos originados pela contribuição de cada cidadão brasileiro.





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