Aquários: o bar da boca maldita

Pelo nome, Bar Aquários, poucos vão se lembrar onde é este estabelecimento da área central da cidade. Apontar como Bar do Raul pode ajudar, mas a maioria se refere ao local como “Boca Maldita”. O apelido surgiu depois que uma confraria com este nome foi criada no bar há cerca de 25 anos, copiando a iniciativa de Curitiba. Por aqui, a confraria já caiu no ostracismo, mas o nome ficou e se incorporou ao Bar do Raul, que na verdade se chama Bar Aquários. Peculiaridades de Campo Mourão que Metrópole foi conhecer e explorar em respeito às pessoas que fazem memória e história na cidade.

O Bar Aquários, no calçadão da Avenida Capitão Índio Bandeira, é um dos mais antigos da cidade e ainda conserva características dos anos 1970, com prateleiras cheias de garrafas, propagandas de bebidas e cigarros, cartazes que negam o “fiado” e o balcão recoberto por fórmica, onde os salgados são servidos quentinhos, acompanhados por uma boa dose de cachaça, refrigerante, cerveja ou café da hora.

Inaugurado nos anos 1960, já foi até uma Casa de Vitaminas, mas consagrou-se com a família de Raul Lisoti e Eduildes – Dide –  que, com Ervino Dallazen, naturais de Porto União (Santa Catarina) compraram o bar há 39 anos. “Quando compramos, aqui já era a área mais central da cidade. São quase 40 anos abrindo todos os dias. Aqui fizemos nossa vida. Abrimos cedo e não tem horário para fechar. Não tem sábado, domingo, feriado”, diz Dide.

Pano de fundo para muitas das histórias da cidade, o bar há alguns anos perdeu parte do movimento em virtude da implantação do calçadão na avenida, o que, segundo os donos atrapalha a frequência, pelas dificuldades com estacionamento. A transferência da estação rodoviária, das proximidades para longe da área central, também provocou mudanças.

“Já recebemos muitas autoridades, para um café ou servindo refeições. Passaram pelo bar Requião, Lerner, Álvaro Dias, Fernando Collor, Ney Braga, Ulisses Guimarães, José Richa e Beto Richa, além dos políticos e líderes locais, como o Henning Baer e o Aroldo Galassini, que comeram muitas vezes por aqui”, relembra Raul.

“Antigamente era melhor, o bar ficava sempre lotado até muito tarde. Hoje mudou. Não tem estacionamento, poucos param e está muito perigoso. Para não ter problema, fechamos mais cedo. A saída da rodoviária também prejudicou e mudou bastante o perfil das pessoas frequentadoras. A clientela é formada pelo povo da cidade e de toda a região e temos aqueles clientes fiéis, como o ex-prefeito Renato Fernandes, que vem todos os dias e outros políticos que sempre estão por perto. Hoje temos muitos sitiantes, pessoal que trabalha em fazendas e aposentados que, cada vez que vêm à cidade, param para um lanche, um café”, explica.

Raul fala que apesar das mudanças pelas quais passa o mundo, muitas coisas ainda se mantêm iguais, como os gostos e os pedidos dos clientes, que são os mesmos de 40 anos atrás e que o balcão é espaço para um bom papo e muitos desabafos, inclusive dos que gostam de passar do limite com o álcool. “Nosso cliente sabe o que quer, pede sempre a mesma marca. Aqui eles vêm para conversar, fazer um lanche, muitos ficam chorando as mágoas, reclamando principalmente da falta de dinheiro, mas a gente se acostuma com as pessoas. É difícil chegar alguém faltando com o respeito, poucos nos incomodam. Aprendemos a lidar com as pessoas. Aqui entra todo tipo de gente e posso dizer que, graças a Deus, nunca teve briga de chamar a polícia. Nunca. Em bares da vizinhança já teve até morte, mas aqui tudo sempre foi tranquilo”, afirma.

O comerciante acredita que as pessoas já conhecem o bar e  respeitam os donos por serem quem são, porque os conhecem.  “Talvez seja o jeito de tratar. Não sei falar o que é. Nunca tivemos problema com cliente ou com Procon. Alguma coisa a gente resolve na hora, conversa. Numa boa”, destaca.

O cunhado Ervino Dallazen, que hoje é taxista, retifica as palavras de Raul. “Fiquei aqui por mais de 30 anos, uma história que valeu a pena. Sofremos, começamos do nada e o que conseguimos foi do bar. Foi difícil lidar com as pessoas. Tem sempre quem complica, mas com o tempo vai pegando jeito. Sempre tentamos evitar as brigas, às vezes até dava vontade de brigar, mas tentávamos contornar. Acabei me cansando. Foram 30 anos preso ao serviço. No começo pegava às 5 horas. Hoje o Raul e a Dide tocam. Fiz muitos amigos e todos os dias estou aqui e ainda é como minha casa”, fala Ervino.

Ervino lembra que a fama e a consolidação do negócio se devem bastante em função do trabalho deles e que, na época da Boca Maldita, o bar já estava bem estruturado, já era ponto de encontro das pessoas. Mas o fato da confraria ter escolhido o local para suas reuniões ajudou bastante. “Isso deu embalo para muitas histórias, mas com o tempo também se dispersou, porque vão mudando as pessoas”, analisa.

“Com a Boca estivemos no centro de acontecimentos e fatos importantes. Ela foi fundada aqui por dois de nossos frequentadores, o Maninho, que era de Peabiru, e o Henry Cesar Cé (que está no Rio Grande do Sul). Com os demais companheiros, eles deram o pontapé inicial para a criação do prato típico da cidade – o Carneiro no Buraco. Mobilizaram os políticos e a comunidade, pedindo a conclusão da Estrada Boiadeira. Eles fizeram pesquisas eleitorais – que eram permitidas na época – cujo resultado deu diferença de 1 ponto percentual do resultado oficial. As rádios faziam transmissão daqui, movimentava muito a cidade a partir deste local”, relata Raul sobre a Boca Maldita.

Se muito do sucesso do bar veio dos atrativos alimentares, Dide (mulher de Raul e irmã de Ervino) é em parte responsável por isso. Desde o início dos anos 1970 assumiu a cozinha, fazia refeições e todos os salgados para servir no bar. Foi em meio a estas panelas que também criou os filhos. “Minha menina mais nova nasceu quando já tínhamos o bar. Ela corria no meio das pessoas, por cima dos balcões. Às vezes eu contava com ajuda de uma vizinha, dona Odete Durski, que esteve aqui por perto por mais de 30 anos e olhava meus filhos. Assim criamos as filhas e os netos. Foi onde cresceram“, fala Dide.

Há alguns anos Dide e Raul optaram por deixar de servir refeições e ela passa a maior parte do tempo atendendo no balcão, mas ainda faz os salgados de cada dia: coxinha, espetinho de carne e outros. “Mudamos a forma de atender por causa do púbico e porque não temos mais espaço para servir em mesas. Nosso bar é muito popular, hoje temos o trivial. A Dide continua fazendo tudo e, às vezes, servimos até 300 salgados em um dia”, justifica Raul.

“Tem muita gente que reclama de Campo Mourão, mas é o melhor lugar para viver. Viemos do sítio, em Santa Catarina. Trabalhamos muito e não há de que reclamar. Aqui formamos os filhos, tivemos sucesso. Só tenho um sonho, que é comprar o prédio do bar, que é alugado. Mas é difícil, porque é muito valorizado. Planos a gente tem, mas o dono do prédio não tem. Até queríamos mexer em alguma coisa, mas não podemos. Tem que ir levando e enquanto der pra ficar a gente vai ficar”, finaliza Raul – para alegria dos frequentadores.

 

Depoimento

“Frequento este bar desde menino. Morava ao lado, onde meus pais tinham loja. Conheci todos os outros três donos anteriores:  aqui já foi uma casa especializada em vitaminas. O bar é um dos mais antigos na ativa, e é o que mais abre na cidade. Quando a gente precisa de alguma coisa, aqui sempre está aberto, até sexta-feira santa. Isso é bom. O Raul e a Dide são viciados em trabalho, chegam às 7 e saem à noite, todos os dias.”

Juma – João Marcos Durski – agrônomo.

Por: Regina Lopes
Fotos: Fernando Nunes


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