A pista, o médico e o Karmann Ghia

Apaixonado por provas automobilísticas de arrancadas, o médico dermatologista Deorque Frederico Nogueira é mais um personagem mourãoense que concilia profissão com entretenimento.  A bordo de um Karmann Ghia 69 ou acertando os motores dos carros que tem na garagem, ele libera as endorfinas e serotoninas que equilibram a vida estressante dos consultórios e salas de cirurgias. Em Metrópole ele fala da volta recente a Campo Mourão, da importância do automobilismo na sua vida e dos bons resultados que já conseguiu na modalidade de Arrancada.

Paixão por velocidade

A paixão por automobilismo na verdade começou como se fosse um mecanismo de fuga do meu dia-a-dia estressante. Eu sempre tive uma paixão por velocidade, antes do automobilismo. Por Campo Mourão cheguei a competir algumas provas de Ciclismo Speed de Velocidade. Na época de faculdade assistia as provas de arrancada no autódromo de Campo Grande e a paixão aconteceu no ocorrer deste tempo. Começamos com um carro que era um Fusca turbo para arrancada e não deu muito certo por questão de preparo, mas depois acertamos. Eu mesmo cuido da parte dos acertos dos carros, um processo que hoje pode ser informatizado, via telemetria. Para mim é como jogar vídeo game na vida real. Tenho uma equipe de mecânicos que cuida do motor e do câmbio – que é uma coisa bem delicada do carro. Por questão de datas, de tempo e por priorizar a medicina, não disputei muito este ano, mas tivemos bons resultados.

Karmann Ghia 69

Tenho um Karmann Ghia 69. Eu brincava na época que adquiri que, se não fosse um carro que andasse, pelo menos ia chamar a atenção, porque ele é muito bonito e é o sonho de muita gente. Apesar de ter a documentação em dia, ela não consegue andar na rua. O motor antigo dele, que testamos com o nanômetro, ultrapassou os 540 cavalos e novo é para ultrapassar os 700. Um exemplo: um Chevrolet Camaro V-8 tem 300 cavalos, então é mais que o dobro de um Camaro. Ele não para no chão, fica muito perigoso. É um carro de competição, para frear tem que dispor de pára-quedas. Na categoria arrancada, na força livre, dos 700 carros que disputam, é o único Karmann Ghia do Brasil. Além disso, tem o investimento alto e a questão aerodinâmica.

Categoria

Corro na força livre tração traseira. A minha primeira corrida com ele foi em 2009, em Campo Grande(MS), onde eu me formei. O carro foi feito para andar no autódromo de lá. Na primeira vez que corri, bati o recorde da pista e da categoria, que permanecem meus até hoje. No mesmo ano, no Festival de Curitiba, entre 35 carros inscritos, ficamos em 11º lugar. Em Maringá, batemos o recorde da pista, na categoria. A pista tem 201 metros e meu tempo de pista lá foi 6s04, a 204Km/h. Em Curitiba havia sido de 10s30 a 257Km/h.

Segurança

O carro obedece todas as normas da CBA – Confederação Brasileira de Automobilismo, desde pára-quedas, Santo Antônio. O piloto tem que estar equipado com colar cervical, macacão anti-chamas e além de toda uma estrutura do carro estar preparada para absorver o impacto nestas velocidades. Muita gente confunde arrancada com racha, mas na verdade é bem profissional. É tão profissional que em Maringá já não posso correr porque a velocidade do meu carro ultrapassa a velocidade ideal de frenagem da pista. Estou com o carro parado desde a última competição em junho. Eu adorava andar lá, tinha a expectativa de abaixar o tempo.  Não sei se fico bravo ou feliz.  Em Curitiba também está complicado porque a pista, como a de Maringá, tem tamanho ideal. Hoje só poderia fazer provas no Velopark de Nova Santa Rita, no Rio Grande do Sul, pra onde tenho a expectativa de ir. Em Maringá deve sair uma pista homologada, estamos esperando com o carro acertado e motor novo, que nem chegou a andar.

Brincadeira de Gente Grande

A mania vai além do Karmann Ghia. Tenho um Gol, que foi o meu primeiro carro, e um Fusca 64, que são com motores preparados, mas não turbo. Também tenho um Fusca 89, que acabei fazendo para rua, com motor turbo e tudo mais. Com este poderia correr tranqüilo na pista de Campo Mourão. Só é uma questão de ter tempo mesmo. Tenho lancha (V-8 Board) na Usina Mourão, com a qual brinco no verão e onde descarrrego o estresse. Nossa vida é bem estressante, quem me vê aqui sentado bonitinho pensa que sou tranqüilo, mas o acerto, a montagem, basicamente tudo do carro é por minha conta. À noite saio do consultório, janto, desço para a garagem, coloco luvas e fico me distraindo.

Medicina e Velocidade

Tudo faz parte de um contexto. Considero o acerto do carro como se fosse uma cirurgia e a corrida, o sucesso desta cirurgia. Se acertar o processo cirúrgico, na hora de correr com certeza o sucesso vai ser muito maior. Sou muito detalhista. Na dermatologia e estética tudo tem que estar ultralimpo, acertado, lisinho, fininho. Então um parafuso que não encaixa, para mim é: “Parou tudo, volta e começa de novo”.

A família

De início ficaram arrepiados, mas a esposa e a filha acompanham todas. Na época de corrida elas ajudam com as coisas, se precisar pegar algo e eu não posso sair, elas vão atrás, sabem tudo, mais até que alguns mecânicos. Eu pensava que meu pai seria meu principal incentivador, mas ele não vai muito. Falo que tem medo de se apaixonar. Porque, quando eu chamo para ajudar, ele é extremamente detalhista. Mas, no dia de correr vem com desculpas e não vai.

Dom e talento

Sempre digo: não precisa saber fazer, mas tem que querer fazer. Muitas coisas não dependem só da experiência, mas da vontade de querer fazer. Se não entende, estuda para fazer. Porque hoje em dia não tem aquela coisa de inventar, tem que estudar, se informar. Você sabe o que vai acontecer, se aumenta muito a potência do carro, vai aumentar risco de quebra.

As corridas

A prova mais importante no Paraná é o Festival de Curitiba, com competidores de toda a América do Sul. É a melhor prova de arrancada do Brasil, traz mais público que a Stock Car. É uma coisa para curtir, principalmente para o piloto. Porque, como em competição tem muito carro, você fica meio pirado para correr. Meu carro tem mais de 80 mil de investimento e fica ali entre os 10 carros. Não é muito se você observar bem, porque só os câmbios dos que ficam nos três primeiros lugares devem custar cerca de 16 mil dólares.

As corridas que valem pontuação, como o Campeonato Estadual, são arbitradas pela CBA.  Minha categoria é a força livre tração traseira. Tem que ter a estrutura de um carro de rua, em modelo que tenha dois mil exemplares do ano de fabricação, que não tenha mudado a posição do piloto e várias regulamentações, podendo usar um pneu de competição. O câmbio tem que ser manual e a tração, traseira. Existe outra categoria, de livre tração dianteira, que é a mesma regulamentação, mas traciona para frente e atinge praticamente a mesma velocidade.

Patrocínio

Logo no início dessa primeira competição lá de Curitiba, a Master Power, que é a fornecedora de turbinas para competição, me forneceu a turbina e também propôs me fornecer uma por competição. Só que devido minha irregularidade nas provas eu deixei de cobrar. Só o fato de terem me ajudado com a turbina do meu carro, que ninguém tem igual, eu já me considerei muito feliz.

Correr em casa

Se investir na pista local, sim. Mais ainda precisa de muita participação de colaboradores. E para pista de 402 metros você tem que ter o dobro da estrutura de logística, tipo bombeiro, área de frenagem de mais 200 metros.  A Federação quer que o carro pare, por mais que o pára-quedas não abra. Curitiba tem pista de 400 metros de arrancada, 400 de frenagem e mais de 200 de brita. Ali passei sem pára-quedas e freei, desgasta mais o freio do carro. Em Maringá se não abrir o pára-quedas é muro e a emoção maior é frear.

Torcida

Em Maringá eu me surpreendi com a quantidade de pessoas que foram me ver correr, mesmo no dia que não corri. Nos bastidores você não sabe quem está assistindo, vieram colegas me cumprimentar em relação ao carro. Da prova de arrancada a pessoa gosta ou não gosta, não existe meio termo. É muito bacana e rápido. É uma corrida atrás da outra.  Não é aquela coisa maçante, que passa um carro atrás do outro. E nas competições, as famílias participam muito, o pessoal leva filhos, pais, mães, esposas.

Motor ou Câmbio

Tem gente que pensa que o principal é o motor, mas o câmbio é uma coisa fundamental para agüentar um motor desses, e a suspensão. O Karmann Ghia 540 cavalos, tem carro muito mais potente que não anda naquele tempo. Mas tem acerto de suspensão e de câmbio. Muita gente preocupada com o motor, faz uma bomba atômica ali. Só que é um conjunto.

 Morar em Campo Mourão

Fiquei 11 anos fora e voltei porque eu realmente gosto daqui. Tenho amigos e família. Quando eu vim pra Campo Mourão pensei que iria ser mais fácil do que Curitiba, porque Maringá está aqui do lado. Fiz amizade com os proprietários do autódromo e durante a semana ando lá sozinho. Até que eles me falaram das competições noturnas de arrancada com organização local. Andei muito bem, só que eu fiquei preocupado porque a segurança é precária. Mas eu adorei andar à noite porque, de dia, com macacão, sem ar condicionado e com motor nas costas, a temperatura chega a  60 graus. Então à noite é uma delícia.


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Metrópole Revista
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