Copa do Mundo: contra ou a favor?

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Há glória maior para o país do futebol do que receber a Copa do Mundo? Parece a realização de um sonho, mas os problemas sociais, econômicos e políticos se arrastam, fazendo com que muitas dúvidas permeiem a cabeça dos brasileiros. Enquanto alguns acreditam que os benefícios da Copa do Mundo no Brasil serão percebidos a curto prazo, com geração de emprego e renda, e que é uma oportunidade para promoção do país e, consequentemente, crescimento e desenvolvimento, outros dizem que recursos públicos não deveriam ser gastos na construção de obras que terão pouca utilidade após a programação da Copa do Mundo.

Existe ainda muita informação com intenção puramente política, visando às eleições deste ano, preocupando-se pouco em mostrar para o brasileiro a verdadeira situação do país, onde estão as vantagens e onde estão os problemas.

Ainda assim, defendendo ou condenando, a realização da Copa do Mundo no Brasil abriu espaço para discussões. Este parece ser um momento de reflexão e de perceber que o problema social pode não estar na realização ou não da Copa, mas sim ser muito mais enraizado na cultura popular e política do brasileiro. É hora de refletir e quem sabe encontrar soluções, para que se construa um país mais justo e com mais projetos e planejamento.

Neste clima, a Revista Metrópole também resolveu refletir e perguntou para algumas pessoas ligadas a movimentos civis, estudantis e políticos qual era a opinião delas com relação à Copa do Mundo. Como expressadas a seguir, as impressões se diferem muito e mostram que há muito sobre o que se pensar. Ainda que se torça pela vitória da Seleção Brasileira, não dá para não fazer perguntas e aproveitar o momento para discutir e aprender mais sobre como são as coisas no nosso país.

 

Guilherme JovitaGuilherme Jovita

ligado a movimentos estudantis

Os gastos públicos com a Copa não correspondem com as necessidades de nosso país, além de ser um investimento econômico de caráter duvidoso. Mais de R$ 20 bilhões são retirados dos cofres públicos e o retorno imediato, com a vinda de cerca de meio milhão de turistas estrangeiros, segundo estimativas, chega a apenas 3 bilhões. Este dinheiro não irá aos empresários locais e nem retornará aos cofres públicos, devido às parcerias firmadas com multinacionais e o estranho acordo de administração privada dos estádios reformados com dinheiro público. Para se ter uma ideia, estes gastos equivalem à soma do investimento nos setores: Habitação, Cultura, Direitos a Cidadania, Saneamento, Ciência e Tecnologia e Energia previstos pelo PLOA (Projeto de Lei Orçamentário Anual) de 2014.

No entanto, espero que com a Copa no Mundo, os movimentos sociais, mesmo com toda a repressão que já começa a se mostrar evidente, devam se tornar mais fortes e combativos, pois é evidente que o sistema democrático representativo e político-partidário não consegue cumprir as demandas da população.

 

Rodrigo WeissRodrigo Weiss
ligado a movimentos políticos e estudantis

Falar mal da copa é boicotar o próprio país, afinal, com toda a irregularidade, ela é inevitável. Além da conquista e um retorno econômico e desenvolvimento urbano, falar mal da Copa, estando aqui dentro, só serve para chamar a atenção internacional para nossos problemas, enquanto deveríamos estar evidenciando nossa capacidade. Pobreza e degradação há em todos os países, não seria a ausência de uma Copa que mudaria o que não foi mudado até agora.

Muito se bate nos gastos públicos para a Copa do Mundo, mas investimentos através de financiamento para impulsionar no crescimento de entidades privadas já ocorrem o tempo todo e com certeza toda empresa já dependeu ou buscou um financiamento desses um dia, assim como todo brasileiro usa o mesmo recurso para adquirir um bem de alto valor. Sempre há taxas de juros tremendas em cima disto, onde se arrecada muito para os bancos nacionais e se investe para o crescimento. A arte é o que mais usa verba de incentivo governamental, sendo que o esporte é o que mais afeta socialmente as comunidades e crianças.

 

Gabriela Carla SantosGabriela Carla Santos

ligada a movimentos estudantis, sociais e da juventude

A realização deste evento no Brasil significa muito mais do que sediar alguns jogos em pouco tempo. Envolve mudanças radicais no funcionamento e estrutura das cidades. Cerca de 250 mil pessoas foram ou serão removidas de suas casas no Brasil (dados da Ancop – Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa), com a justificativa da realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas, desorganizando a vida de milhares de pessoas e até violando direitos humanos. Os despejos são feitos de forma violenta, sem diálogo e sem transparência.

Temos que pensar quem realmente sairá ganhando com a Copa do Mundo no Brasil, a qual acredito que nos trará um legado de violação brutal de direitos humanos, processos de exclusão social e outros problemas. Enquanto já nos deparamos com a falta de políticas públicas para os pobres, negros e negras, indígenas, jovens, mulheres, LGBT e outras minorias, a Copa não deveria ser prioridade para o governo.

 

Victor Raoni de AssisVictor Raoni de Assis

ligado a movimentos políticos, sociais e da juventude

Os números reais de investimentos para a Copa do Mundo são: 25,6 bilhões de reais no caderno de encargos da Copa, sendo 8 bilhões de reais em estádios. Vamos analisar: o Produto Interno Bruto do Brasil em 2013 girou em torno de R$ 4,8 trilhões de reais. Só para efeito de comparação, a renúncia fiscal para indústria automobilística ficou em torno de 27 bilhões de reais, ou seja, superior aos investimentos na Copa. Vale lembrar também, apenas para ilustrar mais uma comparação, só o escândalo do Trensalão de São Paulo pode ter desviado dos cofres públicos um montante, sem correção monetária, de R$ 875 milhões de reais e não está ligado a Copa do Mundo. Ou seja, definitivamente nosso problema de corrupção, falta de investimentos em setores estratégicos não está diretamente ligado à Copa. Com um PIB de R$ 4,8 trilhões, me parece que o nosso país tem dinheiro suficiente para fazer investimentos em diversas áreas.

Por isso, acredito que responsabilizar a Copa pelos nossos problemas é demagógico e sem propósito e nos faz desviar o foco de discussões que realmente podem nos levar a soluções de nossos problemas endêmicos. A Copa deve ser apenas um ponto de partida para aprofundarmos a discussão sobre todos estes aspectos de nossa sociedade.

 

André Luiz AlvesAndré Luiz Alves

estudante, ligado a movimentos estudantis e pela educação

Sou contra a Copa do Mundo, apesar de amante do futebol, tenho uma crítica bem grande ao esporte de mercado, visto apenas como comércio. A Copa do Mundo é “para inglês ver” e não traz nenhuma vantagem ao Brasil, a não ser uma exclusão social e uma reorganização social com um velho discurso de desenvolvimento. Vemos aquilo que deveria ser básico, como saúde e educação, ficando sempre no escanteio, nunca tendo dinheiro, e aí, pra Copa do Mundo surge verba até de onde nunca teve.

Há um debate também do “legado da copa”, que eu chamo de vergonha da copa. Precisamos de evento para ser colocado em prioridade o modelo de transporte público como metrô? Precisamos de uma Copa do Mundo para ser pensado investimento em táxis, mobilidade urbana ou mesmo tecnologia? São setores que sempre deveriam estar na pauta e na prioridade dos investimentos públicos. Vale lembrar que muitas das obras não ficarão prontas para a Copa.

Vou torcer pra Seleção Brasileira na Copa? Se para isso eu precisar colocar o futebol como prioridade, ao invés de saúde, educação, moradia e transporte, eu vou torcer contra nosso time de futebol, afinal, torcer pro Brasil ser campeão em todos os aspectos, e não sempre o último nos outros quesitos.

 

Cristiane VelhoCristiane Velho

ligada a movimentos sociais, da juventude e das mulheres

Não só o Brasil, como vários outros países estavam concorrendo para essa Copa e nós ganhamos. E isso não é por acaso, não só falando do incentivo ao esporte, mas a divulgação do país para o mundo. Estimula o turismo como um todo, não só o turismo esportivo. Não teve nenhum país que tenha tido prejuízo com uma Copa do Mundo. O próprio Brasil é testemunha disso, quando em 1950, com a construção do Estádio do Maracanã para a Copa.

Temos que ver por vários ângulos, cada obra tem como responsável seu estado e sabemos que as empreiteiras brasileiras estão longe de serem honestas e pontuais. Todas as obras que passam pelas empreiteiras muito famosas têm problemas de faturamento, prazo de entrega e politicagem. Também a CBF, uma entidade que passa longe da seriedade.

O Brasileiro é um apaixonado pelo futebol, isso é um fato. Como torcer contra a Seleção Canarinho? Em relação ao turismo, quem vem para a copa, não vem só para os jogos e acaba rendendo para todos os estados. Teremos visitantes e lucros.

 

A discussão mostra que há muitos pontos para se analisar e a democracia permite que diversos movimentos se expressem. Os pontos positivos e negativos são muitos, mas mesmo que a Copa do Mundo não deixe o legado prometido, ao menos serviu para provocar a reflexão.

Que comecem os jogos!

A redatora da Metrópole, junto aos entrevistados, à exceção do Victor Raoni, que precisou sair antes, no encontro que gerou diversos argumentos a favor e contra a Copa do Mundo no Brasil

Agradecimento: Cafezinho


Sobre o Autor

Liandra Cordeiro
Liandra Cordeiro


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