Atletismo – somando conquistas

Metrópole foi em busca de uma história de esporte, entre poucas parecidas no Paraná, mas muito mourãoense na essência, porque fala de desafios vencidos e da garra daqueles que, com o trabalho diário, querem construir uma sociedade melhor – e estão conseguindo.

Sem dúvidas, a modalidade que mais tem somado conquistas para o esporte local é o atletismo. Dezenas de títulos e centenas de medalhas consagram também o trabalho do técnico da Fundação de Esportes, Paulo Cesar Costa, o “Paulinho”. Nesse ano em especial, ele celebrou sua 17ª subida ao pódio dos Jogos da Juventude do Paraná, entre as 20 vezes que Campo Mourão disputou a competição. Também neste momento, jovens talentos por ele formados, na pista do Estádio “Roberto Brzezinski”, estão representando o Brasil em competições internacionais e outros batem recordes brasileiros em diversas provas.

Campo Mourão praticamente não depende mais de atletas de fora para ganhar medalhas na modalidade. Hoje são atletas de alto rendimento que procuram a cidade para treinar, reconhecendo o diferencial técnico e as condições oferecidas para a formação de campeões. Uma evolução que técnico e Fundação de Esportes sonharam e realizaram. Um preparando os atletas e buscando parceiros, outro viabilizando incentivos que permitissem a ampliação de recursos para tornar realidade esta fábrica de talentos.

Professor de Educação Física que há 20 anos aceitou o desafio de montar uma equipe de atletismo para a cidade, Paulinho deixou há pouco as salas de aulas para ter dedicação integral à modalidade, o que resultou em mais ganhos para a equipe. “Hoje são 20 horas a mais que permitiram um salto grande nos resultados. Tenho tranquilidade para preparar e acompanhar os treinamentos, mais tempo para avaliar as performances dos atletas, analisando onde buscar mais qualidade. Geralmente planejo para oito meses de competições, mas os que disputam eventos brasileiros treinam até 11 meses. Elaboro treinos para 50 atletas de várias categorias e mantenho o trabalho de iniciação esportiva, que é essencial para a revelação de valores e precisa ser mantido. Hoje também tenho uma auxiliar técnica que me acompanha”, conta.

Perspicaz para enxergar talentos para as pistas, o técnico faz avaliações constantes em escolas e cidades da região, buscando a renovação da equipe que é referência no esporte juvenil do Paraná. “Além do perfil corporal de cada um, que indica a prova onde pode se sair bem, percebo sua disciplina e realizo testes físicos específicos. Na busca dos talentos, também vamos às escolas realizando cursos e provas de mini-atletismo, selecionando entre milhares os que poderão vir a treinar algumas das provas”, diz.

Misturando técnica, experiência de vida e intuição, o técnico consegue formatar nossos campeões. Um deles é Raul, que morava em Dracena e este ano veio morar na cidade. “Ele fazia salto em altura, mas percebi que era muito veloz. Resolvi mudar o treino, ele aceitou e percebeu que é um velocista nato. Foi o melhor para ele. Em um ano já aparece como o quarto melhor do Brasil nos 100 metros e o 2º nos 200 metros. E o tempo dele é apenas 20 milésimos menor do que o tempo mundial juvenil. Claro que às vezes tem resistência. A Vanessa dos Santos, no ano passado, não queria fazer prova com barreiras porque havia caído em três provas realizadas aqui. No Brasileiro, em Bragança Paulista, avisei que só a tinha inscrito no “barreiras”, era pegar ou largar. Com o quarto melhor tempo na semifinal se empolgou e na final ficou em 2º lugar do Brasil. Agora não quer mais saber de outras provas. Este ano foi campeã brasileira juvenil, campeã brasileira menores, campeã interclubes, ganhou o Juventude e o Juvenil, entre outros”, relata.

Apesar do trabalho duro, o atletismo também prepara surpresas que vêm da força individual e da capacidade de superação de cada um, como Rubia Soares, que surpreendeu ainda no início do trabalho do técnico. “Ela era fundista e não tinha resultados bons. Resolvi colocá-la na corrida dos 400 metros com barreiras para marcar ponto no Campeonato Mirim e ela quebrou o recorde paranaense. Mudou de prova drasticamente e um ano depois foi recordista Sul Americana na Colômbia. Agora tem o Bruno Fidélis, que estava querendo parar de treinar porque nas provas de fundo não rendia. Resolveu treinar marcha atlética e em oito meses fez uma evolução, é recordista dos Jogos da Juventude, do Paranaense e do Brasileiro Juvenil”, comenta.

O técnico lembra que isto está chamando muita atenção, muitos querem saber o há de diferente por aqui e por que nosso atletismo evoluiu tanto. “Quando o atleta desponta e começa a manter marcas de nível nacional muita gente tem interesse. Outros atletas querem vir para Campo Mourão por causa da qualidade e dos resultados. Tem um marchador de Pernambuco querendo vir e nos últimos anos comecei a atender atletas de outras cidades elaborando treinamentos específicos”, considera.

Um dos trunfos da modalidade é o Projeto Atletismo Esperança, mantido com apoio do Município, que foi criado há oito anos e há cinco conta com ajuda de um padrinho especial, o medalhista olímpico Vanderlei Cordeiro de Lima. “Ele que conseguiu o primeiro patrocínio da Caixa, avalizando e defendendo pessoalmente o nosso Projeto em Brasília. Ele abraçou a causa e ainda foi conosco apresentar o projeto da nossa Lei de Incentivo para instituições, ajudou na captação de recursos junto a empresas e empresários que patrocinam equipe e atletas. Hoje nosso Projeto, na Caixa, é o que mais cresce entre os seis que eles têm no País e se cogita dobrar os investimentos em 2012”, informa.

Sobre a evolução, Paulinho lembra que é fruto de resultado do trabalho e da perseverança. “Foi uma questão de tudo se encaixar no tempo certo. A Confederação Brasileira também começou a repassar recursos há quatro anos. A partir deste momento muita coisa mudou. Hoje podemos comprar sapatilhas, tênis, agasalhos, pagar viagens, materiais de treinamento, e ampliar valores das bolsas-auxílios para os atletas, permitindo mais qualidade nos treinos e estar em competições importantes. Aí consequentemente explodiram os resultados e os patrocínios passaram a melhorar. Hoje somos uma referência no esporte de Campo Mourão e do Paraná. E o mérito é de todos os que compartilham e apoiam o projeto, cujos recursos são quase todos gerenciados pela Fundação de Esportes”, salienta.

Dos praticantes da modalidade, 95% vêm de famílias carentes ou desestruturadas, mas apesar das dificuldades têm encontrado no atletismo um caminho, mesmo quando o dilema é ter que decidir entre competir ou trabalhar para ajudar em casa. “Perdi muitos atletas neste cenário, mas hoje vários deles já têm bolsas e patrocínios e ajudam no sustento da família, treinando atletismo. Para alguns ainda levamos cestas básicas, mas os seguramos através do esporte e se quiserem poderão ir à faculdade ou para uma equipe grande para fazer carreira”, diz Paulinho, que exemplifica citando os atletas Juliano de Castro e Délcio dos Santos, revelados em Campo Mourão e que hoje moram em Campinas-SP, onde ganham para treinar e estudar faculdade, numa equipe ligada a BM&F.

Complementando sua reflexão, o técnico comenta: “Claro que quando conseguem um bom emprego não se pode impedir sua saída, mas pelo menos o atletismo ensinou alguma coisa boa. Alguns quando vêm aqui narram que o atletismo resgatou a vida à beira das drogas. Do jeito que o mundo está é muito fácil se perder. Aqui é saudável, não pensam em coisas erradas, são bem cuidados, se sentem valorizados, fazem amigos, torcem uns pelos outros. Quando alguém ganha, vira referência, como o Bruno que, com seu exemplo, trouxe mais quatro atletas para a marcha atlética”.

Paulinho lembra que o trabalho começa no relacionamento do dia-a-dia, nas palavras de incentivo, reconhecendo a importância de cada um. “Sempre elogio o trabalho deles, sei que essas palavras são importantes. Falo das notas da escola, porque acompanho todos. Não adianta fazer tudo certinho e não estudar. Se não andar na linha logo corto das competições. Quando preciso, brigo. Isso de “não consigo”, “não posso” não existe no atletismo. Tudo é possível; se alguém fez é possível fazer. A gente tem condições de conseguir, é só treinar, batalhar para conseguir. Eu não gosto da palavra “não”. Em termos de resultado é “sim” sempre e você acaba no futuro provando que é a verdade. Treinando, se esforçando é muito melhor que desistir. Eles sabem que é para o seu bem e que no futuro, de tanto insistir, acabam chegando. Também ensino a nunca desrespeitar os outros. Não gosto que tire sarro. Existe a brincadeira, mas algumas não tolero, principalmente quando desvalorizam a pessoa. Você pode desmoronar de vez uma criança”, justifica.

O técnico diz saber que já fez uma história no atletismo, ajudando na construção de uma sociedade melhor. “Conquistei muito, sem nem pensar que ia conseguir. A mudança de vida que proporcionei a muitos deles, foi a melhor coisa que fiz na minha vida. Tudo que construí foi graças ao atletismo. Até minha família. Não me arrependo de nada, faria tudo de novo. Bati muito a cabeça, caí varias vezes e nunca desisti. E o que digo para os atletas, digo para mim. Adoro um desafio. Se a pessoa fala: ”você não vai conseguir isso”, digo: “acabou de me dar uma injeção de ânimo”. Adoro provar que é possível, que consigo fazer. Para mim, uma das metas que alcancei foi ver a vida diferente. Não desisto de maneira alguma, não sei abaixar a cabeça para os desafios, ou virar as costas. Encaro de frente, não tenho medo e vou provar que aquilo que é impossível para alguns e possível fazer sim, ainda mais se for um desafio para mim mesmo”.

Finalizando ele diz: “Hoje conheço os caminhos, as pessoas e sou conhecido. Espero contar com o auxílio de mais profissionais em breve, para me concentrar mais no treinamento de qualidade e toda iniciação esportiva, seguir o rumo traçado. A ideia é que essa referência cresça para o alto nível e para isso ainda dependemos de uma pista sintética, que, além da alta qualidade no rendimento, trará mais recursos para a modalidade. É nosso próximo desafio com a Fecam para o esporte mourãoense”. Alguém duvida que isso vai acontecer?

 

 


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