Ciclismo: a persistência e a resistência de Murilo

Viver de esporte no Brasil é difícil. Principalmente se for um esporte que não conta com muito apoio, como o ciclismo. Murilo Ferraz Affonso, 22 anos, ciclista profissional, nos conta um pouco sobre como é viver dessa modalidade.

Tudo começou como uma brincadeira de criança, acompanhando o irmão, Humberto F. Affonso Filho, que praticava mountain bike e, na época, corria pela cidade de Londrina, quando Murilo, com 12 anos, se encantou com a modalidade. Aos 14, ele conseguiu o seu primeiro contrato, com a equipe de Londrina, para correr nos Jogos da Juventude de 2006, no qual se sagrou campeão.

Em Londrina ele ficou um ano, indo em seguida para Criciúma-SC, onde ficou 3 anos. Lá estava a sede da seleção brasileira júnior. Na época ele conseguiu várias conquistas: campeão brasileiro; vice-campeão panamericano, na cidade do México; campeão da volta do Uruguai, uma das competições mais difíceis da América do Sul na categoria sub 18, chegando a participar do mundial em Moscou, na Rússia. “Isso abriu muitas portas pra mim, porque todo júnior do Brasil queria entrar lá. Então não era só entrar, era entrar e se manter. Vi muitos indo e voltando”, lembra.

Graças a seus êxitos, ele recebeu uma proposta para correr na Itália em 2010, morando por lá durante 8 meses, conseguindo boas colocações, ficando entre os 10 na classificação geral, em 15 competições. “A qualidade do circuito europeu é altíssima. Tanto, que é melhor terminar lá uma prova entre os 10, do que ganhar uma competição aqui, de tão difícil”, pondera. Ao voltar para o Brasil, ele entrou para a equipe Dataro, de Curitiba, onde ficou até o ano passado. Neste ano ele corre pela equipe Ironage, de Americana-SP.

Entre seus melhores resultados, estão o primeiro lugar na volta de Goiás, quando ele venceu numa corrida em que estavam presentes as 10 melhores equipes nacionais; o 4º lugar no Panamericano de 2013; além de várias outras conquistas, entre elas, 7 títulos nacionais.

A preparação de Murilo tem 3 fases: resistência, força e velocidade. Para adquirir uma boa resistência, são realizados treinos de 5 a 6 horas ao dia, por 40 dias. Depois, se faz o treinamento de força e, por último, a velocidade. “É um trabalho bastante intensivo, duro, com treinos de musculação para ajudar”, disse. Os treinos de velocidade são feitos com moto, quando o irmão de Murilo leva a moto e o acompanha. “Fazemos cerca de uma hora e meia de treino, com velocidade media de 60, 65 km/h, atingindo picos de até 100 km/h”, ressalta o irmão Humberto. Murilo participa de duas modalidades: contra relógio, que sai campeão quem faz o percurso no menor trecho; e estrada, que é uma prova de maior resistência.

A previsão é de correr cerca de 60 provas ao longo da temporada, que só acaba em novembro, sendo que cada uma das provas, tem 10 etapas e cada uma tem em média 160 km. “Já corri uma no Chile, em que a etapa mais longa era de 230 km. Numa competição faço em média de 5 horas e meia, seis horas num trecho como esse. Depende muito do terreno e do vento”, afirma. As provas geralmente duram menos de 6 horas e contam sempre com uma estrutura de suporte, com um carro de apoio, com alimentos e líquidos, para as necessidades do participante e peças sobressalentes para as bikes.

Todo esse desgaste custa caro. A bike que ele usou na temporada passada, tem um custo de mercado de 45 mil reais, feita toda em carbono. As peças também se desgastam muito: corrente, relação e pastilha de freio, que precisam estar sempre sendo repostas. A sapatilha para corrida custa mil e quatrocentos reais e o capacete oitocentos reais. “Hoje, isso não sai mais do meu bolso, mas até um tempo atrás era”, lembra.

 

As dificuldades são muitas. Além da falta de apoio, os ciclistas sofrem por não possuir pistas para a prática do esporte, por isso precisam usar as estradas, o que pode causar alguns problemas. “As estradas muitas vezes não são boas, não têm acostamento. É arriscar a vida todo dia pra trazer resultados, quem sabe, para o Brasil? O que custa desviar um pouco o carro, por 40 segundos, que não vai mudar nada na vida, ao invés de buzinar, xingar, jogar pro acostamento?”. E a reclamação não é em vão. Entre alguns dos acidentes que ele sofreu, um aconteceu quando um caminhão o atropelou num dia de pouco movimento na estrada.

Outro problema é a distância da família. Durante a temporada o atleta tem que ficar 3 meses no alojamento, sem voltar pra casa, mas Murilo afirma que a esposa dele, Rosana Renata Rezende Ferraz Affonso, aguenta as pontas da casa. “Ela me ajuda muito. Me acompanha nas dietas e fica com o nosso filhinho Valentino. Sempre penso em minha família em primeiro lugar. Agradeço a ela, pois não é fácil morar com atleta (risos)”, se diverte.

Mas, entre tantas dificuldades ele não desanima: “essas coisas não me fizeram desistir, muito pelo contrário, me incentivam ainda mais”. Ele lembra que, mesmo que seja um esporte difícil, é possível ser um profissional. “Tem que lutar, tentar e buscar o profissionalismo. Em qualquer esporte, se a pessoa tiver gosto e se dedicar 100%, ela vai pra frente”, ressalta.

Para 2014, as expectativas são muitas. A começar pela nova equipe Ironage, de Americana – SP, que trouxe um técnico experiente da argentina, Edgardo Simon. A primeira disputa aconteceu em San Juan, na Argentina, onde aconteceram 10 dias de competição. Essa prova serviu de preparação para a Volta de São Paulo, primeira competição importante do ano no Brasil, que aconteceu em fevereiro, quando Murilo terminou em 14º na colocação geral e sétimo na categoria geral de montanha, mostrando a todos para que veio.


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