Os bêbados podem

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Na crônica “Amigos da Cirrose”, conto a história de um amigo, dependente de álcool, que parou de beber há treze anos, graças à intervenção de um médico amigo da família (não era o Sócrates!).  Durante seis anos, entretanto, ele precisou de acompanhamento psiquiátrico e do apoio incondicional da família para se desvencilhar do vício.

Um outro amigo, de mais de trinta anos, também parou de beber, graças à intervenção de uma namorada nova, literalmente. Ele tem 67 e ela, 23 (e ele não é rico!).

“–Se quer ficar comigo, para com a ‘marvada’”, disse a malvada. E ele parou. Nem acreditei quando ele me contou, porque sempre o vi bebendo muito e perdendo muito – inclusive a família. Esse não precisou de acompanhamento psiquiátrico. Também!!!…

O marido de uma empregada de uma parente minha, que vivia caindo de bêbado pelas ruas, parou de beber depois de ter sofrido um acidente e levado uma cacetada na cabeça. Mas, atenção! Não tentem fazer isso em casa. Felizmente ainda acontecem casos assim. De parar de beber, claro.

Infelizmente, porém, muitos não têm essa consciência e até fazem graça com a própria desgraça. Um cidadão muito conhecido em Campo Mourão dizia que a sua vida era um “litro aberto” e que o seu sonho era morar no “litroral”, de “frente pro bar”. A última vez que o vi, antes de sua morte, ele me cumprimentou dizendo: “- Saudações tremendas!” Ele era um bebedor/gozador tremendo, literalmente.

No dia em que ele estava sendo velado, encontrei um amigo dele – também alcoólatra e gozador. Contei o que havia acontecido e perguntei-lhe se não ia ao velório.

– Não vou não!

– Por que não? – eu quis saber.

– Porque ele também não vai no meu!

Esse mesmo cidadão, dia desses, ia indo pra casa, já meio torto, no comecinho da noite, carregando um litro de cachaça, quando foi atropelado por uma bicicleta. Caído, ao ver a camisa toda encharcada, exclamou: “- Tomara que seja sangue!”.

Um dos bebedores/gozadores mais famosos, o médico e ex-jogador de futebol Sócrates, poucos dias antes de sua morte (ele faleceu no dia 05/12/2011 vitimado pelo uso excessivo de álcool), ao ser perguntado por uma repórter se bebia todo dia, respondeu rindo: “- Todo dia não, só de manhã e à tarde.”

Se as pesquisas estiverem mesmo certas – de que de 12 a 15% da população brasileira são dependentes do álcool – Campo Mourão deve ter, aproximadamente, 11 mil dependentes. Se contar o número de botecos e os que bebem socialmente(?), vai faltar população.

Dia desses, conversei com dois que estão caminhando com passos firmes (não tão firmes) para fazerem parte das estatísticas porque, além de beberem bem, já são gozadores.

Um deles, na maior seriedade, disse que ficou treze anos sem beber. Aí eu me assustei. Lembrei-me do amigo que faz esse mesmo tempo que não bebe mais. E, na maior ingenuidade, perguntei:

– E por que voltou?

– Eu não voltei, eu nunca parei! Eu só não bebi nos primeiros treze anos de vida!

O outro diz que não para de beber porque o bêbado tem alguns poderes, entre os quais: invisibilidade e embelezamento.

– Com esses poderes – disse – ficamos invisíveis: ninguém vê as nossas “cacas”. E toda mulher fica a coisa mais linda do mundo!

Alguns têm poderes de autoridade. Um amigo meu, ao ser pego em flagrante “delitro”, em Maringá, exagerou: “Sou Juiz Federal!” Aí, coitado, acabaram com a invisibilidade dele. Que falta de juízo!

Acho que vou parar com este tipo de conversa. Posso encontrar alguém com poderes de valentia!


Sobre o Autor

Osvaldo Broza
Osvaldo Broza

Empresário, escritor, membro da Academia Mourãoense de Letras - AML

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