Mundo de sonhos

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Em 2001 eu tinha uma empresa de transporte de passageiros e fui a Londrina levar uma família que foi embora para os Estados Unidos. Mesmo acostumado a esse tipo de transporte, aquele dia não me sai da lembrança. Foi comovente, por exemplo, ver as filhas do casal, de 8 e 9 anos,  abraçadas com seus cachorros querendo levá-los junto. Eles seguiram o exemplo de tantos outros brasileiros que saem diariamente deste País em busca de sonhos e oportunidades. Conto essa história no livro Caminhos de Casa, na crônica: “Eu também chorei naquele dia”.

Eu não poderia imaginar que, cinco anos depois, no mesmo aeroporto, eu voltaria a chorar ainda com mais intensidade na despedida do meu filho Thiago e sua esposa Errmeline, que foram embora para a Inglaterra.

Tempos depois, mais choro (menino chorão, este!). Meu primeiro filho, o Alessandro, tentou seguir os passos do irmão e viajou para a mesma Inglaterra.

Porém, enquanto o Thiago não teve nenhum problema para morar, estudar e trabalhar naquele País – graças à cidadania européia da Ermeline – o Alessandro não teve a mesma sorte (ou teve sorte demais), porque nem chegou a sair do aeroporto de Londres. Foi repatriado no mesmo dia. Aliás (essa é parte triste da história), não o deixaram ver o irmão – que o aguardava há poucos metros dali – e comemorar com ele o seu aniversário que acontecia naquele dia, onze de março de 2008.

Três dias depois ele estava de volta, para surpresa e alegria, principalmente, dos seus dois filhos, Lucas e Leonardo. Ele lhes havia prometido que voltaria logo. Mas não tão logo assim, devem ter pensado. Apesar do pouco tempo separados, porém, a emoção do reencontro foi indescritível.

Quanto ao Marcos, Ivonete, Rafaela e Edith (a família que foi para os Estados Unidos em 2001), eles voltaram ao Brasil em 2005, somente com o dinheiro das passagens, da vinda e da volta. É que eles pretendiam prosseguir na aventura, porém não conseguiram renovar o visto e foram obrigados a recomeçar tudo de novo aqui no Brasil. Acho que foi sorte também! Marcos formou-se em Engenharia Elétrica e hoje é funcionário de uma grande empresa no Rio de Janeiro, cidade onde mora com a esposa Ivonete. As filhas Rafaela e Edith fazem faculdade em Londrina.

Enquanto isso, infelizmente muitos outros brasileiros continuam indo embora. “Eles vão em busca de trabalho, de oportunidades que o seu País não lhes oferece. Eles vão em busca de um sonho que o seu País não permite. E assim, o País do Futebol, do Carnaval, desperdiça talentos e fere a dignidade da família que se vê privada do convívio de seus entes queridos. (Cida Freitas, na crônica “Filhos sem Pátria II”), publicada no jornal Entre Rios em 13/06/2006.

É claro que o País mudou em relação à época em que a Cida fez a crônica, especificamente sobre o texto acima, e já oferece oportunidades que antes não haviam. O que não mudou, que a Cida também destaca, é a corrupção, a impunidade, a ignorância e a falta de moral que empurram nossos filhos para os Estados Unidos, Canadá, Itália, Inglaterra, Portugal, Espanha (…).  “E o povo – diz ela -, que é treinado para não pensar, não diz nada, não grita, não protesta, não cobra. Apenas vai ficando um pouco mais triste”.

De triste à memorável foi o que o Alessandro transformou aquele dia em que permaneceu trancado em uma sala no aeroporto de Londres.

“- A repatriação foi a melhor coisa que me aconteceu”, diz. E complementa:

“- Tenho vontade de encontrar aquela “soldadinha” e dar um beijo nela.”

E ainda brinca quando alguém pergunta o que fora fazer na Inglaterra:

“- Fui passar o meu aniversário.”

Na feliz companhia da Scotland Yard! Ainda bem que não o confundiram com algum terrorista!


Sobre o Autor

Osvaldo Broza
Osvaldo Broza

Empresário, escritor, membro da Academia Mourãoense de Letras - AML

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