Josés

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José parece ser um nome abençoado! Ou de sorte. O pai de Jesus, por exemplo, virou santo. É padroeiro de muitas cidades, inclusive de Campo Mourão, com direito a estátua e nome de rua. E deve ter inspirado essa imensidão de Josés espalhados pelo mundo afora. Certamente inspirou também o poeta Carlos Drummond de Andrade a escrever uma de suas mais famosas poesias, “E agora, José?”.

A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José?, e agora, você?…”

Tem José famoso em todos os cantos e pra todos os gostos. Na política, então, é uma grandeza. Para citar apenas alguns, entre os que já se foram – e os que eu me lembro neste momento – temos o José Bonifácio (Patriarca da Independência), o José Serra, o José Richa, o José Sarney (epa!), o José Dirceu (epa duas vezes!), o José Pochapski (sem epa!)… Nas letras, o José Eugênio Maciel; na medicina, o José Carlos Ferreira (primeiro médico de Campo Mourão); no humor, o José Eugênio (Jô) Soares; na história, o José de Anchieta; no jornalismo, o José do Patrocínio; na música popular, os Josés (Zé)  Geraldo e Ramalho (não sei qual é o mais brilhante); na música sertaneja, o José Perez (Tinoco), da dupla Tonico e Tinoco; no comércio, o José de Arimateia (muito inteligente para negócios lucrativos, era o dono do supulcro onde Jesus Cristo, seu amigo (mal de amigo, hein?!), foi embalsamado); no cooperativismo, o José Aroldo Gallassini, e por aí vai.

Tive e ainda tenho muitos amigos Josés, inclusive alguns compadres: José Edson Hasbaert, José Wierschon, José dos Passos, José Carlos Sorroche…

O meu pai também era José e destacou-se em Curitiba, no começo do século XX, como jornaleiro, balconista, operador de cinema, artista de teatro e até lutador de boxe. No final de 1929 foi embora para o sertão de Guarapuava, para ajudar sua irmã Constância a desbravar suas terras. Foi quando conheceu o único e grande amor de sua vida, a minha mãe, ainda menina, com apenas 12 anos, e esperou sete anos para casar-se com ela. Em nome desse amor José nunca mais voltou para a capital. Ele a viu pela primeira vez quando cortava o cabelo dela (na sua nova morada ele também se destacava como cortador de cabelo , professor, aplicador de injeção, carpinteiro (igual São José), fazia quase de tudo um pouco em um sertão carente de quase tudo. – E de graça, diz a minha irmã Gecy. Por isso, talvez, nunca ficou rico. E até perdeu o que tinha, e o que, por justiça, deveria ser seu.

A exemplo da esposa do José Santo, mãe de Jesus, o nome da minha mãe também era Maria.

Durante quase sessenta anos, quando a morte os separou, eu não me lembro – e os meus irmãos também não – que ele tenha ficado, um dia sequer, sem oferecer uma flor pra ela.

Meu pai era muito bonito, dizia a minha mãe. A minha mãe era muito bonita, dizia o meu pai. Por isso, não sem razão, pela paixão e por não existir televisão, eles tiveram muitos filhos (igual São José), onze ao todo, sendo dez legítimos e um adotivo. São José também levou a sério o que Deus teria ordenado quando criou o mundo: Crescei e Multiplicai! Segundo alguns escritos, ele teve sete filhos, sendo seis legítimos (primeiro casamento) e um adotivo, Jesus (segundo casamento).

Como se vê, há algumas coisas em comum entre o meu pai e São José, entre elas, o dom da multiplicação.

Mas o meu pai foi mais sabido. Ficou mais tempo com a sua Maria.

O Drummond e eu também temos uma coisa em comum, o gosto pela escrita (que comparação mais esquizofrênica!). Só que eu sou mais sabido (pior ainda!): Copio os versos dele.

E agora, eu? Sei não, depois dessas blasfêmias!

Tomara que a festa não acabe, que a luz não se apague, que o povo não suma, que a noite não esfrie…que São José me abençoe…E que o Drummond me perdoe!.


Sobre o Autor

Osvaldo Broza
Osvaldo Broza

Empresário, escritor, membro da Academia Mourãoense de Letras - AML


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